Qual é a ligação entre Drácula e Nosferatu?

Vinicius Miranda

O recente remake cinematográfico trouxe o icônico nome de Nosferatu de volta para o centro das conversas na cultura pop. No entanto, o que muitos fãs das profundas e obscuras lendas do terror desconhecem é a intrínseca e conturbada ligação histórica que essa criatura possui com o vampiro mais famoso da literatura: o próprio Conde Drácula. Mergulhando nos antigos arquivos do cinema, a verdade é direta e fascinante — se não fosse pela obra de Bram Stoker, Nosferatu jamais teria existido nas sombras.

A história real por trás da criação desse monstro é tão curiosa quanto um conto de mistério ou uma lenda urbana. Tudo começou lá no longínquo ano de 1921, quando o produtor Albin Grau decidiu criar um filme de vampiros. A grande fagulha inicial para essa produção foi um relato bizarro que ele ouviu na Sérvia, durante o seu serviço militar na Primeira Guerra Mundial, onde um fazendeiro local jurava que o seu próprio pai havia se transformado em um vampiro. Fortemente inspirado por esse folclore, Grau juntou uma equipe e fundou a produtora Prana Film.

Durante a fase de pré-produção, a equipe leu o romance ‘Drácula’, escrito por Bram Stoker, e decidiu basear o seu roteiro totalmente na obra. O grande problema é que a adaptação ficou idêntica ao material literário original. A produtora, então, correu atrás para tentar adquirir os direitos autorais, mas esbarrou em uma barreira intransponível: Stoker já havia falecido, e a sua viúva, Florence Balcombe, recusou categoricamente o pedido de adaptação cinematográfica da Prana Film.

A cópia alemã e a camuflagem dos personagens

Nosferatu – Divulgação / Focus Features

Diante da recusa legal da família, a produtora tomou uma decisão ousada: lançar o filme de qualquer maneira. Para tentar fugir de um iminente e destrutivo processo por plágio, os roteiristas alteraram alguns pequenos detalhes e mudaram os nomes de todos os envolvidos, transformando a clássica história britânica de Drácula, de forma literal, no que hoje conhecemos como a fundação do terror expressionista ‘Nosferatu’.

A premissa narrativa de ambas as obras é exatamente a mesma. Para entender como essa camuflagem criativa foi executada no roteiro de 1922, basta observar a correspondência direta e espelhada entre as figuras de cada universo:

  • Thomas Hutter, o protagonista enviado à Transilvânia para fechar negócios imobiliários, é a versão alemã de Jonathan Harker.
  • O chefe Knock, que envia Hutter para essa perigosa armadilha, é uma adaptação de Renfield (personagem que recentemente ganhou destaque na comédia de terror estrelada por Nicolas Cage e Nicholas Hoult). A diferença é que, em Nosferatu, Knock já começa o filme sob a influência do vampiro.
  • Ellen, a esposa do protagonista, assume o dramático papel da icônica Mina.
  • Ruth, a amiga mais próxima de Ellen, é a versão da tela para Lucy.
  • O Professor Bulwer, o grande especialista em ocultismo do filme, é a encarnação do lendário Van Helsing.
  • A cidade alemã de Wisborg substitui o principal palco de ataques, a capital britânica de Londres.
  • E, claro, o terrível e pálido Conde Orlok é a versão pirata e não autorizada do próprio Conde Drácula.

A viagem maldita e as divergências no desfecho

A Última Viagem de Deméter – Divulgação / Universal Studios

A jornada do antagonista para espalhar o seu terror urbano também segue os mesmos passos amaldiçoados. Após o encontro inicial no castelo, o monstro viaja clandestinamente de navio para a cidade grande, dizimando toda a tripulação em alto-mar e espalhando a peste. Enquanto em ‘Drácula’ a trágica embarcação é o Deméter (história explorada com detalhes no filme ‘A Última Viagem de Deméter’ de 2023), em ‘Nosferatu’, o navio letal recebe o nome de Empusa.

A maior e mais marcante diferença narrativa entre as duas obras reside em seus atos finais. Na história original de Stoker, o vilão Drácula captura Mina com um feitiço, mas acaba sendo impiedosamente caçado e morto por Jonathan Harker, Van Helsing e seus aliados (seja decapitado nos livros ou com uma estaca no coração, como eternizado no clássico filme de 1931 com Bela Lugosi).

Já em ‘Nosferatu’, as antigas regras da lenda ditam um rumo muito mais trágico: a criatura só pode ser derrotada se uma mulher de coração puro se entregar voluntariamente a ele. Ellen realiza esse sacrifício supremo, deixando Orlok sugar o seu sangue e mantendo-o distraído até que seja tarde demais. Os primeiros raios de sol da manhã atingem o vampiro, desintegrando Orlok, seguido da triste morte de Ellen nos braços de Thomas Hutter.

O legado imortal e as profundas adições do remake

Após o lançamento oficial nos cinemas da época, a viúva de Bram Stoker cumpriu a sua promessa e processou a Prana Film, forçando o estúdio judicialmente a destruir todas as cópias de Nosferatu. Felizmente para a preservação da história do cinema, o esforço de destruição falhou, e algumas películas sobreviveram para transformar o filme em um ícone absoluto da cultura pop atual.

A recente releitura cinematográfica injetou ainda mais profundidade a essa clássica lore. Além de manter a espinha dorsal do roteiro de 1922, a nova versão trouxe características muito mais sombrias e paranormais para a personagem Ellen. A exploração de um antigo pacto entre a jovem e Orlok fundamentou com muito mais impacto emocional a sua grande motivação para o desfecho trágico, elevando a trama além do simples tropo do “sacrifício da mulher pura”.

Hoje, apesar de ter nascido diretamente das sombras do Conde Drácula, Nosferatu é amplamente considerado um ser mitológico completamente diferente e independente. Com uma bagagem folclórica tão rica de mais de 103 anos, a comunidade apaixonada pelo horror literário e visual continua na eterna e surpreendente expectativa de, quem sabe um dia, ver um embate ou um aclamado crossover entre os dois maiores senhores da noite.

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