George R.R. Martin x ChatGPT: autor processa a OpenAI após IA escrever continuação de “As Crônicas de Gelo e Fogo”

Cheyna Corrêa

O conflito entre escritores e inteligência artificial acaba de ganhar um novo capítulo digno de Westeros. Um juiz federal de Manhattan deu sinal verde para que o processo movido por George R.R. Martin e outros autores contra a OpenAI e a Microsoft siga adiante. O motivo? Segundo eles, o ChatGPT teria aprendido demais com suas obras — a ponto de criar uma continuação de A Fúria dos Reis tão convincente que levantou suspeitas imediatas.

A treta esquentou quando advogados pediram ao ChatGPT que escrevesse um novo livro da saga. A IA produziu “Dança das Sombras”, um texto com elementos totalmente compatíveis com o universo criado por Martin: uma nova herdeira Targaryen chamada Lady Elara, uma seita rebelde dos Filhos da Floresta e até um tipo misterioso de magia ancestral ligada a dragões. Para os autores, era prova suficiente de que o modelo “bebeu direto da fonte” sem permissão.

A batalha que começou antes do processo

O caso remonta a 2023, quando Martin e outros 17 escritores — entre eles Michael Chabon, Ta-Nehisi Coates, Jia Tolentino, Sarah Silverman, John Grisham e Jonathan Franzen — acusaram empresas de tecnologia de realizarem um “roubo sistemático em escala massiva”. Eles afirmavam que obras inteiras estavam sendo usadas para treinar modelos de IA sem pagar direitos autorais e sem crédito aos criadores.

Pouco antes, autores como Margaret Atwood e Nora Roberts já haviam enviado uma carta coletiva alertando para os riscos da IA generativa. O recado era direto: suas obras estavam sendo exploradas e replicadas por sistemas automatizados que agora competiam com seu próprio trabalho.

Precedentes que podem mudar a tecnologia para sempre

O caso de Martin não é isolado. Em 2025, a empresa Anthropic decidiu evitar uma batalha prolongada nos tribunais e pagou 1,5 bilhão de dólares por um acordo com autores cujos livros foram usados sem autorização. Já no Reino Unido, o Tribunal Superior tomou a direção oposta e determinou que a Stability AI não violou direitos autorais ao treinar modelos com imagens da Getty.

Essas decisões conflitantes mostram o cenário atual: um campo de batalha global em que governos tentam compreender como regular inteligências artificiais treinadas com conteúdo humano.

A guerra do “fair use”

No centro da disputa está o conceito de uso justo (fair use). As empresas alegam que treinar IA com obras publicadas é algo transformativo, como o Google faz ao indexar sites. Já os autores afirmam que não: que as IAs estão reproduzindo seus estilos, estruturas narrativas e até personagens — e isso substitui, e não complementa, o trabalho original.

O caso segue, e Martin já deixou claro: essa guerra está longe de terminar. E pela primeira vez, a luta pelo Trono de Ferro acontece nos tribunais.

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