O novo episódio do arco do Jogo do Abate deixou claro por que ‘Jujutsu Kaisen’ não é só mais um shonen de porradaria. Enquanto Megumi e Itadori são separados ao entrar na colônia, a narrativa já começa criando tensão psicológica. Megumi tem um confronto aparentemente controlado, mas suspeito. Já Itadori é arremessado por prédios em uma luta brutal — que, ironicamente, nem foi tão difícil para ele.
Mas o detalhe que muda tudo está na informação contraditória sobre Higuruma. Dois personagens receberam a mesma pergunta, porém… respostas diferentes. Descobrimos então que a garota que abordou Megumi estava mentindo. Ele foi levado direto para uma armadilha no apartamento de Reggie Star, um feiticeiro que usa notas fiscais como roupa. É cômico? Sim. Mas também é perturbador. Porque em ‘Jujutsu Kaisen’, o estranho quase sempre antecede o terror.
Hiromi Higuruma: o melhor personagem do arco?
Enquanto Megumi cai na armadilha, Itadori encontra o verdadeiro Higuruma — graças a um colega do passado que carrega culpa por nunca ter feito nada contra o bullying no colégio. Esse detalhe é pequeno, mas mostra como ‘Jujutsu Kaisen’ trabalha culpa, omissão e responsabilidade moral até nos figurantes.
E então conhecemos Higuruma de verdade. Um advogado que recusava casos fáceis e preferia defender pessoas praticamente condenadas pelo sistema. Ele não buscava dinheiro, só justiça. Só que o sistema jurídico estava podre. Corrupção, manipulação e um índice absurdo de condenações. Quando o caso de Keita — inicialmente inocentado — é revertido após pressão da promotoria, algo quebra dentro dele. E é aqui que a obra vira quase um drama criminal.
Kenjaku, datas e o momento da virada
Existe um detalhe cronológico absurdo aqui. O assassinato pelo qual Keita foi acusado aconteceu em 2016. Mas… Higuruma só despertou como feiticeiro em 31 de outubro de 2018, na noite do Incidente de Shibuya, quando Kenjaku ajustou o cérebro de pessoas comuns para despertar técnicas amaldiçoadas. No dia seguinte, 1º de novembro, acontece o segundo julgamento de Keita — o que declara ele culpado.
Ou seja, Higuruma recebe uma técnica amaldiçoada no momento mais crítico da sua sanidade. Ele já estava emocionalmente destruído, desacreditado do sistema, mentalmente exausto. E então despertou o poder. O resultado foi seu shikigami vindo à tona e matando ambos juiz e promotor. E isso não é spoiler: a abertura já mostrava homens de terno mortos à mesa. A série literalmente avisou antes.

O simbolismo dos olhos e a justiça corrompida
Higuruma fala sobre a deusa da justiça estar vendada para julgar todos igualmente. Mas ele sabe que isso não é real. Por isso ele mantém os olhos abertos. Só que esse “olhar constante” é o que o destrói. Seus olhos cansados simbolizam a exaustão de tentar enxergar injustiças o tempo inteiro. E quando Keita o encara após ser condenado, aquele olhar detalhadíssimo marca a quebra final da fé do advogado.
O episódio usa direção cinematográfica e até rotoscopia para elevar o nível da narrativa. A cena no escritório com as pás do ventilador criando monotonia visual transmite cansaço sem precisar de diálogo. A cena da banheira brinca com cores de projetor — verde e vermelho complementares — para mostrar a transição emocional de Higuruma. É cinema puro dentro do anime.

Energia amaldiçoada: o subtexto que liga tudo
Diferente de ‘Naruto’, ‘Bleach’, ‘Dragon Ball’ ou ‘One Piece’, onde a energia é neutra ou positiva, em ‘Jujutsu Kaisen’ a própria energia é amaldiçoada. Negativo com negativo gera positivo, criando a energia reversa capaz de curar. Quando Gojo usa energia positiva após ser quase morto por Toji, ele entra num estado de iluminação, por isso o paralelo com Buda.
Com Higuruma acontece o oposto. No pior momento da sua vida, ele desperta energia amaldiçoada no cérebro. Ao invés de iluminação, vem o colapso. A transformação dele não é só física — é ideológica. Ele vira a personificação de um homem que perdeu a fé no sistema e recebeu poder para julgar por conta própria. E mais uma vez, Itadori dá azar: entra no jogo, apanha, e agora encara um dos personagens mais poderosos e emocionalmente instáveis da obra.
Esse episódio não foi só mais um capítulo do Jogo do Abate. Foi praticamente um curta-metragem sobre justiça, corrupção e colapso moral. E é exatamente por isso que ‘Jujutsu Kaisen’ continua mostrando que está em outro nível.




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