X-Men no Brasil? Conheça as histórias BR de X-Men lançadas sem a permissão da Marvel

Vinicius Miranda

A Editora Ebal, comandada por Adolfo Aizen, foi a grande responsável por ditar o destino dos heróis da Marvel no Brasil no final dos anos 1960. Trazendo nomes de peso como Hulk, Homem de Ferro, Thor, Quarteto Fantástico, Homem-Aranha e Demolidor, a editora aproveitou a consolidação prévia da DC Comics para alavancar o sucesso da “Casa das Ideias” no país.

No entanto, para garantir uma resposta comercial rápida e certeira do público, a Ebal tomou uma decisão curiosa: publicar em suas revistas apenas os personagens que faziam parte da primeira leva de desenhos animados da Marvel, produções criadas pelo estúdio canadense Grantray-Lawrence em 1966.

O Sucesso na TV e os Brinquedos Exclusivos

No Brasil, os desenhos animados chegaram antes mesmo dos gibis. Exibidos por emissoras como a TV Bandeirantes (SP) e a TV Rio (RJ), cada herói teve 13 episódios transmitidos que rapidamente se tornaram uma febre absoluta entre crianças e jovens. Oficialmente, a estreia da Marvel no nosso país aconteceu pelas telinhas, abrindo o espaço necessário para o sucesso explosivo das histórias em quadrinhos.

Para surfar nessa onda, o mercado nacional investiu pesado em produtos licenciados. A empresa de brinquedos Atma lançou uma linha de miniaturas baseada na coleção da marca americana Marx Toys, mas com uma adaptação exclusiva e inusitada.

Como o herói Demolidor não estava presente nos desenhos animados e era totalmente desconhecido por aqui, a Atma o removeu da coleção e desenvolveu um boneco do Namor com exclusividade para o mercado brasileiro, moldando-o a partir de um antigo troféu de natação.

A Editora GEP e a Chegada dos X-Men

X-Men da GEP – Reprodução

A rigorosa estratégia da Ebal focada apenas na TV acabou gerando o primeiro grande problema na estrutura cronológica do Universo Marvel no Brasil. Como a editora de Aizen rejeitava os personagens que não apareciam na televisão, figuras icônicas acabaram nas mãos de empresas menores. Nick Fury, por exemplo, foi parar na editora Trieste, enquanto o Doutor Estranho (batizado provisoriamente de Dr. Mistério) ficou com a Minami & Cunha.

Foi exatamente nesse cenário fragmentado que brilhou a Editora GEP (Gráfica Editora Penteado), fundada em 1966 pelo experiente editor Miguel Penteado. Aproveitando o desinteresse da gigante Ebal, a GEP lançou a coleção “Edições GEP” em 1968, marcando a primeira e histórica aparição dos X-Men no Brasil.

A publicação optou por começar a partir da sétima edição americana, ignorando as seis primeiras revistas originais. Os leitores brasileiros foram então apresentados ao icônico grupo formado por Ciclope, Anjo, Fera, Homem de Gelo e Garota Marvel. Liderados pelo Professor Xavier, a equipe lutava contra a Irmandade de Mutantes de Magneto em tramas que exploravam fortemente o racismo e a intolerância na sociedade.

As Histórias “Piratas” Feitas no Brasil

X-Men da GEP – Reprodução

O grande e polêmico diferencial da passagem dos mutantes pela GEP foi a criação de histórias nacionais não autorizadas. Para preencher as páginas que ficavam em branco durante o fechamento das revistas na gráfica, Miguel Penteado encomendou aventuras inéditas ao lendário quadrinista brasileiro Gedeone Malagola, acompanhadas pela arte de Walter Gomes.

Foram produzidas dez histórias originais tupiniquins (totalizando 81 páginas em preto e branco), que complementavam as tramas oficiais americanas. Em um dos episódios mais bizarros, publicado na edição nº 08, os X-Men brasileiros encontram um Thor que estava congelado há anos.

Após ser despertado, o Deus do Trovão entra em um combate direto com os mutantes. Embora o visual fosse idêntico ao criado por Jack Kirby nos Estados Unidos, a personalidade do herói era totalmente diferente. Esse “crossover pirata” rendeu uma forte bronca de Adolfo Aizen, que não gostou nem um pouco de ver o personagem licenciado pela sua Ebal sendo usado em histórias paralelas pela concorrência.

O Fim da GEP e o Reconhecimento Internacional

Além dos mutantes, a GEP também enriqueceu as bancas publicando aventuras do Surfista Prateado (com a arte magistral de John Buscema) e do Capitão Marvel — este último adquirido por um engano cômico, pois Penteado achava estar comprando os direitos de Billy Batson (o Shazam da DC/Fawcett).

Cansado das dificuldades editoriais e da forte censura em voga na época, Miguel Penteado encerrou as atividades da GEP em meados de 1972. As histórias nacionais não autorizadas dos X-Men caíram no esquecimento por décadas, até que, nos anos 2000, o pesquisador brasileiro Roberto Guedes revelou essas bizarrices em uma matéria para a conceituada revista americana Alter Ego.

O lendário editor da Marvel, Roy Thomas, ficou totalmente surpreso com a revelação e admitiu que a “Casa das Ideias” nunca soube da existência dessas produções brasileiras nos anos 60. Em 2014, para a alegria dos colecionadores, essas histórias raras e caras foram compiladas em uma edição especial independente no Brasil, preservando de forma acessível um dos capítulos mais inusitados e criativos do nosso mercado editorial.

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