De um MOD a fenômeno mundial! Conheça a história dos MOBAs

Vinicius Miranda

De um simples mapa desenhado por fãs apaixonados para um mercado milionário que lota estádios em campeonatos mundiais. O gênero MOBA surgiu de uma experimentação despretensiosa, quando um jogador decidiu criar uma nova forma de jogar dentro de um título de estratégia que já era um sucesso estabelecido. Hoje, esse colosso movimenta a indústria de games e dita os rumos dos eSports.

Para compreender essa trajetória, é preciso olhar para o passado e reconhecer alguns precursores. Jogos de estratégia focados em ação, como ‘Herzog Zwei‘ (lançado em 1989 para o Mega Drive) e ‘Future Cop: LAPD‘ (lançado em 1998 para PS1 e PC), já flertavam com a ideia. Ambos misturavam o controle de unidades em mapas abertos com o objetivo de destruir a base inimiga na outra ponta do cenário, utilizando câmeras isométricas ou vistas de cima. Embora não seja possível cravar que eles influenciaram diretamente a criação dos MOBAs, esses títulos ajudaram a moldar as franquias ‘Warcraft‘ e ‘StarCraft‘, que seriam o verdadeiro berço do gênero.

O Berço em StarCraft e a Criação de Aeon of Strife

Aeon of Strife – Divulgação / Blizzard

A virada de chave ocorreu em 1998, com o lançamento do aclamado ‘StarCraft‘ pela Blizzard. O jogo de estratégia era notoriamente complexo, o que motivou os desenvolvedores a incluírem a ferramenta StarEdit, permitindo que a comunidade criasse seus próprios mapas e modos para tornar a experiência mais acessível. A comunidade abraçou a ideia imediatamente.

Nesse cenário criativo, um modder conhecido pelo apelido de Aeon64 desenvolveu um mapa customizado chamado ‘Aeon of Strife‘. O conceito era inovador: os jogadores controlavam apenas um único herói com o objetivo de atravessar o mapa e destruir as bases inimigas. O cenário era dividido em três “corredores” (as famosas rotas ou lanes), que eram defendidos por torres. Estavam estabelecidos ali os fundamentos mais básicos de um MOBA na história dos videogames.

A Era Warcraft 3 e o Fenômeno Dota

Defense of the Ancients (Dota 1) – Divulgação / Blizzard

A fórmula ganhou a estrutura que conhecemos hoje em 2002, impulsionada pelo lançamento de ‘Warcraft 3: Reign of Chaos‘. O jogo trouxe o Warcraft 3 World Editor, uma ferramenta de criação muito mais robusta. Aproveitando esses novos recursos, o modder Eul decidiu recriar o conceito do ‘Aeon of Strife‘ dentro do novo motor gráfico. Esse “remake” foi batizado de ‘Defense of the Ancients‘, que rapidamente se popularizou pela sigla Dota.

O mapa foi um sucesso estrondoso. Embora Eul tenha se afastado do cenário pouco tempo depois, outros criadores assumiram o manto para manter o projeto vivo. A evolução natural trouxe a expansão de três para cinco corredores e a adição de um vasto elenco de heróis. Com a chegada da expansão ‘The Frozen Throne‘ em 2003, uma versão definitiva do mapa tomou forma: o ‘Dota: AllStars‘. Entre os responsáveis por refinar essa experiência estavam nomes que fariam história na indústria, como Guinsoo e IceFrog.

A Chegada da Riot Games e o Batismo do Gênero

O sucesso do mod era inegável, e o formato de mapa único não demorou a chamar a atenção de estúdios interessados em transformar a ideia em jogos completos. O pioneiro no formato standalone foi ‘Demigod‘, lançado em 2009 para PC. No entanto, o cenário só se consolidaria de fato quando a Riot Games entrou na jogada com uma visão comercial afiada.

Reconhecendo a mina de ouro construída pela comunidade, a Riot foi direto na fonte e contratou o próprio Guinsoo. Utilizando a vasta experiência adquirida no AllStars, ele comandou o desenvolvimento de League of Legends (LoL). Foi exatamente durante o processo de consolidação e marketing de LoL que o estilo de jogo finalmente recebeu o seu nome oficial: Multiplayer Online Battle Arena, popularmente abreviado como MOBA.

A Disputa por Dota e a Expansão do Mercado

Dota 2 – Divulgação / Valve

A partir desse ponto, o gênero explodiu. A Valve não perdeu tempo e contratou o também lendário IceFrog para desenvolver uma sequência direta do mod original, mas agora como um jogo independente com motor próprio. Como a Blizzard nunca havia patenteado a marca criada por seus fãs, a Valve garantiu os direitos e lançou Dota 2 em 2013. Começava ali o maior duelo de titãs do mercado de eSports, gerando campeonatos com premiações na casa das dezenas de milhões de dólares.

A Blizzard tentou recuperar o tempo e a marca perdidos nos tribunais, mas sem sucesso. A resposta da empresa chegou apenas em 2015 com ‘Heroes of the Storm‘, um grande crossover de heróis das franquias ‘Warcraft‘, ‘StarCraft‘ e ‘Diablo‘. Apesar do enorme potencial e da qualidade técnica, a empresa teve dificuldades em manter o engajamento a longo prazo, e o título acabou perdendo relevância frente aos concorrentes.

Inovações de Câmera e o Domínio Mobile

Outros estúdios buscaram seu espaço inovando na perspectiva e na plataforma. A Hi-Rez Studios lançou ‘Smite‘ em 2014, revolucionando o formato ao abandonar a tradicional câmera isométrica em favor de uma visão imersiva em terceira pessoa, focando no combate focado em deuses mitológicos.

A verdadeira fronteira seguinte, no entanto, eram os dispositivos móveis. A Tencent lançou ‘Honor of Kings‘ em 2015, desenhado especificamente para celulares. O título dominou o mercado chinês por anos antes de sua expansão global recente. No ano seguinte, ‘Mobile Legends‘, da Moonton, chegou aos smartphones, popularizando de vez o gênero nos bolsos dos jogadores ao redor do mundo, mesmo em meio a intensas disputas legais e acusações de plágio envolvendo a Riot Games.

Nascidos da pura vontade criativa dos fãs, os MOBAs transcenderam os limites dos jogos de estratégia para se tornarem um dos maiores pilares da cultura pop moderna. Com lores gigantescas que hoje se desdobram em quadrinhos e séries animadas de sucesso, a jornada de ‘Aeon of Strife‘ até os dias de hoje representa, sem sombra de dúvidas, a maior revolução competitiva da história recente dos videogames.

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