O novo episódio de ‘Jujutsu Kaisen’ colocou Kirara diretamente sob os holofotes, e não é exagero dizer que muita gente terminou a exibição se perguntando quem ela é e por que sua presença pesa tanto na história. Kirara não entra em cena apenas como uma aliada estilosa do Hakari, mas como uma personagem carregada de significado narrativo e simbólico. A decisão dela e do Hakari de abandonarem a escola jujutsu não foi impulsiva ou rebelde. Pelo contrário, nasce de um conflito direto com a ala conservadora do jujutsu, o alto escalão tradicionalista que rejeita qualquer técnica que fuja do padrão clássico.
Essa ala prefere feitiços antigos e ritualísticos, como o da Nobara, que se baseia em simbolismos ancestrais. No entanto, conforme o mundo evolui, a forma como os feiticeiros lidam com a energia amaldiçoada também se transforma. É nesse choque entre tradição e modernidade que ‘Jujutsu Kaisen’ constrói uma das discussões mais interessantes de sua lore recente.
O conflito entre feitiços tradicionais e técnicas modernas
O Hakari representa exatamente aquilo que a ala conservadora mais despreza: feitiços modernos. Mesmo sem o anime ter revelado totalmente sua técnica, já fica claro que ela envolve elementos urbanos, como portas de metrô. No mangá, o conceito vai ainda mais longe, com um poder baseado em pachinko, que são máquinas de jogo de azar muito populares no Japão. Esse tipo de habilidade foge completamente do padrão secular que os líderes da escola defendem, tornando o Hakari um alvo constante de rejeição.
Essa tensão não serve apenas como pano de fundo para a ação. Ela expande o universo da obra e reforça como o jujutsu não é algo estático. Pelo contrário, ele evolui junto com a sociedade, criando conflitos ideológicos que impactam diretamente o destino dos personagens.

Kirara e a crítica implícita ao preconceito
É aqui que Kirara se torna ainda mais relevante. No mangá, fica evidente que sua aparência no período escolar era muito diferente da atual, o que leva à revelação de que Kirara é uma personagem transexual. Essa informação não é jogada de forma explícita ou panfletária, mas construída de maneira sutil e integrada à narrativa. O conflito dela com a ala tradicional não é apenas técnico, mas também simbólico. A rejeição ao novo, ao diferente, se manifesta tanto nos feitiços quanto nas pessoas.
Gege Akutami constrói essa temática com extremo cuidado. A obra evita transformar a questão em algo gratuito ou artificial. Pelo contrário, o preconceito está implícito, bem amarrado ao contexto da história e aos motivos que levaram Kirara e Hakari a romperem com a escola. É um exemplo claro de crítica social bem aplicada, sem desviar o foco da trama principal.

A técnica amaldiçoada de Kirara e o enigma das constelações
Quando o foco finalmente cai sobre o poder da Kirara, o episódio entrega um dos conceitos mais complexos da série até aqui. Megumi percebe que seus shikigamis ficam grudados a ele, enquanto Kirara e a sala de comando repelem qualquer aproximação, lembrando o efeito do Infinito do Gojo. A chave da compreensão surge quando ele nota que cada marcação possui um nome diferente, sendo a dele Acrux – nome da estrela mais brilhante da constelação do Cruzeiro do Sul.
O poder de Kirara funciona como uma constelação de cinco estrelas, onde cada pessoa ou objeto recebe uma marca específica. Elementos com a mesma estrela são atraídos entre si, enquanto outros são repelidos. Isso explica por que o carro gruda no Panda, por que Megumi não consegue se separar de seus shikigamis e por que existe uma rota correta a ser seguida. Funciona quase como um jogo de tabuleiro: errar o caminho torna o objetivo inalcançável. É necessário ir para sua próxima “estrela” obrigatoriamente, se não, é impossível avançar. No caso, era a marcação na vaga do estacionamento.

A genialidade de Megumi e o desfecho da batalha
A partir do momento em que Megumi entende o funcionamento da técnica, a luta muda completamente de ritmo. Ele identifica qual estrela precisa alcançar e segue exatamente o trajeto correto. O anime até tentou aumentar a tensão da cena, adicionando elementos visuais extras, mas a vantagem estratégica já estava clara. A última tentativa da Kirara envolve espalhar marcações iguais às de Megumi pelo estacionamento, usando tudo ao redor como arma.
No entanto, a virada definitiva vem quando Megumi prova sua genialidade. Ele não desativa o cão divino, apenas usa o ambiente para separá-los temporariamente. Ao posicionar Kirara entre ele e o shikigami, o plano se completa. Como Megumi aumenta sua energia amaldiçoada acima da do cão, o shikigami é atraído diretamente até ele e atinge Kirara no meio do caminho, encerrando o confronto de forma precisa e inteligente.

Destaque técnico e os animadores por trás do episódio
Além do impacto narrativo, o episódio também merece elogios pelo aspecto técnico. A animação conseguiu traduzir um poder extremamente complexo de forma visualmente clara, algo essencial para a compreensão do público. Entre os animadores responsáveis pelo episódio estão Hakuyu Go, Itsuki Tsuchigami, Shota Goshozono, Yosuke Takeda e Kouki Fujimoto, que entregaram um trabalho consistente e dinâmico.
No fim, Kirara se consolida como muito mais do que uma personagem secundária. Ela representa evolução, conflito ideológico, crítica social e criatividade nos sistemas de poder, reforçando por que ‘Jujutsu Kaisen’ continua sendo um dos animes mais relevantes da atualidade.







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