A Marvel Comics acaba de apresentar uma versão dos Defensores que nenhum fã esperava encontrar nas páginas de um quadrinho da editora. Na edição “The Ultimates” #21, escrita por Deniz Camp com arte de Pere Perez, surge um grupo de super-heróis patrocinado por corporações, coberto de logotipos e vendido como a alternativa “apolítica” aos heróis revolucionários do Universo Ultimate. O resultado é uma sátira sobre a própria indústria dos quadrinhos.
O que são os Defensores Ultimate?
No contexto da Terra-6160, os antigos Estados Unidos vivem o colapso do regime do Criador, a versão maligna de Reed Richards que controlava o mundo. Com a queda do seu governo, os Ultimates tentam reconstruir a sociedade por meio de conselhos populares e comitês de trabalhadores. É um cenário de revolução e instabilidade.
Porém, nem todos abraçam a mudança. Emmanuel Da Costa, o Rei Negro e membro do Conselho do Criador, cria sua própria equipe de “heróis” como resposta. Nascem assim os Defensores Ultimate, apresentados como heróis que defendem valores genéricos de “verdade e justiça” sem se envolver em polêmica. Na prática, são uma força paramilitar corporativa projetada para destruir a resistência.
Quem são os membros da equipe?
A formação dos Defensores é composta por versões distorcidas de personagens conhecidos do Universo Marvel principal. O time inclui Thora, uma deusa nórdica com poderes devastadores; Ballistic, versão Ultimate de Sam Guthrie (o Míssil dos X-Men, rebatizado com um nome mais “moderno e militar”); Proctor, um cavaleiro sanguinário; Marvel Boy, caçador de monstros; e Bela Filha da Destruição (tradução livre), uma artista marcial irradiada por raios gama.
Diferentemente dos Defensores clássicos dos quadrinhos, que sempre foram um grupo informal de heróis solitários unidos contra ameaças cósmicas (ou urbanas, dependendo da versão), essa nova versão não tem nada de espontânea. Cada detalhe foi calculado por equipes de marketing, desde os uniformes idênticos repletos de marcas até os discursos roteirizados por inteligência artificial.
Uma sátira à indústria do entretenimento
O que torna essa edição tão marcante é o alvo da crítica. Camp utiliza os Defensores para satirizar um discurso cada vez mais comum entre executivos e parte do público: o de que quadrinhos de super-heróis devem ser “apolíticos”. No entanto, a própria edição desmonta essa ideia ao mostrar que a suposta neutralidade é, na verdade, uma estratégia para manter o status quo e silenciar qualquer questionamento social.
O Rei Negro chega a afirmar que o público não quer “palestras e ideologias enfiadas goela abaixo”, repetindo quase literalmente uma frase recorrente em debates online sobre filmes, séries e quadrinhos. Ao mesmo tempo, seus Defensores são uma força governamental criada para calar dissidentes. A ironia é cirúrgica.
Ao longo da edição, fica claro que os Defensores foram pensados para serem o centro de uma franquia multimídia com filmes, séries, bonecos e produtos de consumo. Tudo testado em grupos focais e aprovado por executivos corporativos. A história confronta diretamente a lógica de editoras e estúdios que preferem conteúdo genérico e seguro em vez de narrativas que desafiem o leitor.
A frase atribuída a Stan Lee
Um dos momentos mais impactantes da edição é uma referência direta a Stan Lee. A HQ parafraseia uma declaração famosa atribuída ao lendário criador da Marvel, que supostamente teria dito em uma reunião nos anos 1970 que não queria progresso de verdade nos quadrinhos, apenas a ilusão de progresso.
Segundo relatos do roteirista Steve Englehart à revista Comics Journal em 1981, Lee teria orientado a equipe criativa a evitar mudanças reais nos personagens. Nada de mortes definitivas, nada de novos relacionamentos.
Vale lembrar que Alan Moore, um dos maiores roteiristas da história dos quadrinhos, discordou publicamente dessa filosofia ainda em 1983, questionando por que os leitores seriam supostamente avessos a mudanças quando foi justamente a inovação constante que tornou a Marvel popular.
Vingadores versus Defensores
Na trama da edição, os Vingadores Ultimate, liderados por Luke Cage, representam o oposto dos Defensores. São ex-prisioneiros do regime do Criador que ganharam superpoderes e lutam pela libertação do povo. Enquanto os Vingadores prendiam colaboradores do regime para serem julgados, os Defensores atacaram e massacraram os prisioneiros para incriminar os heróis perante a opinião pública.
Mesmo com todo o poder, patrocínio e cobertura midiática, os Defensores não conseguem vencer. Quando os Vingadores estão prestes a ser derrotados, cidadãos comuns pegam em armas e entram na luta. Muitos morrem, mas a distração é suficiente para que os heróis se recuperem e vençam.
O Rei Negro acaba sendo eliminado pelo próprio Conselho por seu fracasso em conter a revolução. Os Defensores, apesar de terem durado apenas uma edição, funcionam como uma peça central no arco final do Universo Ultimate.

A publicação de “The Ultimates” #21 acontece em um momento delicado para a Marvel nos quadrinhos. A editora vem enfrentando quedas nas vendas e perdendo espaço para a DC Comics, que vive uma fase de renovação com sua linha Absolute Universe. Nesse cenário, a ousadia de Deniz Camp se destaca ainda mais.
Para os fãs brasileiros que acompanham o Universo Ultimate desde seu relançamento em 2023, essa edição é uma leitura essencial. Com o Ultimate Endgame previsto para encerrar o universo em abril de 2026, cada edição restante promete ser memorável.
FONTE: Comicbook





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