Em 2008, a Marvel Studios iniciou o Universo Compartilhado da Marvel nos cinemas com a chegada de ‘Homem de Ferro’ e ‘O Incrível Hulk’. Essa foi a era de ouro em que os filmes de super-heróis deixaram de ser trilogias isoladas e começaram a se conectar com a promessa de que algo maior viria.
Após apresentar Capitão América e Thor, a Marvel finalmente reuniu os Vingadores em 2012 e mudou o cinema para sempre. A partir daí, o público ficou ansioso para conhecer cada vez mais uma das maiores sagas cinematográficas da história. As pessoas amaram acompanhar Tony Stark e companhia, ao mesmo tempo que novos heróis chegavam para deixar o universo cada vez maior. Esse amor pela Marvel era orgânico, genuíno; estávamos todos caminhando com eles.
A Expansão e o Legado dos Vilões

Doutor Estranho, Homem-Formiga e Vespa, Pantera Negra, Homem-Aranha: todos sob o mesmo guarda-chuva que os Vingadores, expandindo os horizontes do UCM. E não foram apenas heróis. Vários vilões deram as caras; alguns passaram despercebidos e longe da glória que possuem nas HQs, tais como Malekith e Mandarim. Outros, porém, alcançaram seu “glorioso propósito”, como Loki, Ultron e Thanos.

Thanos foi uma das maiores fontes de renda da Marvel ao longo dos anos. Um vilão desconhecido pelo grande público que foi apresentado brevemente em ‘Vingadores’ e que “alugou um triplex” na cabeça dos fãs. Quem era Thanos? Por que os fãs de quadrinhos vibraram com a chegada dele? Tudo isso era contagioso. A Marvel passou a dedicar suas histórias a sagas voltadas ao Titã Louco (‘Infinito’ e ‘Thanos Vence’). Popularizar os personagens dos filmes nos quadrinhos tornou-se comum, algo que a editora faz até hoje com inúmeras histórias envolvendo o Doutor Destino e sua grandiosidade. Porém, não estamos aqui para falar de Destino.
O Ápice e a Sombra da Saga do Infinito

O ponto de partida da Marvel começou em uma caverna, com um bilionário construindo sua armadura enquanto refletia sobre sua influência negativa no mundo, e terminou com um evento épico envolvendo deuses, alienígenas, magia e muitos super-heróis. ‘Vingadores: Guerra Infinita’ e ‘Vingadores: Ultimato’ são, de longe, os maiores sucessos da Marvel Studios. Mas não se trata apenas de dinheiro; trata-se de uma narrativa bem construída ao longo de vários anos. Ambos os filmes elevaram a Marvel a um patamar que acabou prejudicando o próprio estúdio.
Foi ali que os fãs encontraram o desfecho para Steve Rogers, Tony Stark e Thor. Ou melhor, todos os Vingadores tomaram rumos diferentes, como se o mundo não precisasse mais deles. Mal sabia a Marvel o quanto ela mesma precisaria de seus próprios heróis. As fases seguintes do UCM foram construídas sob a sombra potente da Saga do Infinito e, ali, nada cresceu o suficiente para reencontrar a glória de outrora.
O Labirinto da Fase 4 e o Desafio das Séries

A Fase 4 da Marvel tentou entregar novos personagens, substitutos para as lendas, e talvez esse tenha sido o seu maior problema. Kevin Feige sabia o que havia feito: ‘Vingadores: Ultimato’ foi um sucesso estrondoso, uma batalha de proporções faraônicas. Qualquer coisa que saísse após esse filme teria de ser muito bem estruturada. Com isso, Feige e talvez uma dúzia de executivos tiveram a “brilhante” ideia de que, para superar a Saga do Infinito, precisariam de algo maior, com mais histórias e personagens, para que no final tudo se conectasse.
Confesso que fiquei animado com o anúncio de ‘WandaVision’ e ‘Loki’ na época, mas o tempo mostrou que o público não queria apenas mais heróis, queria conexões entre histórias. Infelizmente, a Marvel esticou tanto os caminhos que acabou esquecendo de uni-los. A Fase 4 foi uma sequência de filmes e séries que não se conectavam: ‘WandaVision’, ‘Falcão e o Soldado Invernal’, ‘Loki’, ‘Viúva Negra’, ‘What If…?’, ‘Shang-Chi’, ‘Eternos’, ‘Gavião Arqueiro’, ‘Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa’, ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’, ‘Ms. Marvel’, ‘Thor: Amor e Trovão’, ‘Eu Sou Groot’, ‘Mulher-Hulk’, ‘Lobisomem na Noite’, ‘Pantera Negra: Wakanda Para Sempre’ e o ‘Especial de Natal dos Guardiões da Galáxia’.
A Crise de Conexão e o Problema Kang
Muitas produções surgiram com a promessa de conexão com o Multiverso e o novo vilão, Kang. A Marvel só esqueceu de uma coisa: nem todo mundo assiste a séries. Logo, apresentar o maior vilão da Saga do Multiverso em uma série não tem o mesmo impacto que apresentá-lo em um filme dos Vingadores. Na Fase 1, tivemos filmes diretos: Homem de Ferro trazia Nick Fury planejando os Vingadores; O Incrível Hulk trouxe Tony Stark como consultor; Thor e Capitão América introduziram o Mjolnir e o Tesseract. Seis filmes que definiram a fórmula Marvel.
Enquanto isso, a Fase 4 contou com 11 séries e 7 filmes onde quase nada se conectava de verdade. E o pior: nada de Vingadores. A Marvel vivia na sombra do passado. Kang nunca foi tão popular quanto esperavam, sem contar os problemas legais de Jonathan Majors. A Saga do Multiverso estava por um fio.
O Retorno à Nostalgia e o Futuro do UCM

Foi então que Kevin Feige resolveu ir pelo caminho mais seguro: a nostalgia. O retorno de Tobey Maguire e Andrew Garfield mostrou que esse era o investimento certo. ‘Deadpool & Wolverine’ foi outro caso de sucesso, trazendo Wolverine, Blade, Gambit e Elektra no mesmo longa. O plano original de criar uma nova leva de Vingadores com Sam Wilson como Capitão América, Shuri como Pantera Negra, Capitã Marvel, Shang-Chi, Mulher-Hulk e talvez o Homem-Aranha, ficou como plano de fundo e não mais como plano principal da casa. Agora, a estratégia é entregar dois filmes dos Vingadores onde heróis clássicos, como os X-Men da Fox e talvez os Homens-Aranha da Sony, vão se encontrar no mesmo filme. Não é mais sobre criar uma nova equipe, mas sim aproveitar TUDO o que deu certo até agora.
Além disso, trarão Robert Downey Jr. de volta, mas como o vilão Doutor Destino, e o retorno dos Irmãos Russo na direção. Mas será que isso vence a saturação? Como lidar com a necessidade de batalhas épicas constantes? Teremos ‘Vingadores: Doomsday’ e ‘Guerras Secretas’, que promete ser a maior “salada de frutas” de heróis da história. Mas e depois? Quando o fã cansar dos mesmos atores ou quando a morte de um personagem perder o peso porque todos retornam via Multiverso?
A Cartada Final: Marvel vs. DC

Que outro evento na face da Terra poderia superar a escala de Guerras Secretas? Eu lhes digo: Marvel vs. DC. Embora pareça impossível para o espectador comum, um evento desse nível pode ser o único motor capaz de garantir a sobrevivência e o sucesso dos filmes de heróis pelas próximas décadas após o fim da Saga do Multiverso. Ver a Liga da Justiça finalmente enfrentar os Vingadores é o ápice do desejo de qualquer fã, e a indústria sabe disso. O cinema de herói caminha para uma zona cinzenta onde o público já não se impressiona com facilidade. Doomsday e Guerras Secretas surgem para estancar o sangramento, mas são soluções momentâneas.

Para quem duvida dessa possibilidade, basta olhar para o que está acontecendo agora. O “impossível” está se tornando o novo normal. Os crossovers que explodiram nos anos 90 estão mais vivos do que nunca e a Marvel tem deixado pistas implícitas de que o teto de vidro entre as editoras está prestes a quebrar. Vimos recentemente encontros que pareciam febre de fanfic ganharem as páginas oficiais: a HQ de Deadpool e Batman reuniu ícones como Capitão América e Mulher-Maravilha, colocou o Demolidor ao lado do Arqueiro Verde e uniu Wolverine e Asa Noturna, sem falar no misticismo compartilhado entre Doutor Estranho e Constantine. Até o Superman e o Homem-Aranha já voltaram a dividir o mesmo espaço editorial.
Se as duas maiores potências do mundo decidirem colocar todas as suas cartas na mesa em um único filme, não sobrará mais nenhuma história de escala comparável para contar em um universo compartilhado. Pode não ser o fim definitivo dos filmes de super-heróis, mas certamente seria o encerramento grandioso e apocalíptico das mega sagas como as conhecemos hoje.






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