Vampiros, racismo e 16 indicações ao Oscar! Entenda o fenômeno do filme Pecadores

Vinicius Miranda

Com impressionantes 16 indicações ao Oscar em seu currículo e a promessa de levar algumas estatuetas no futuro próximo, o longa Pecadores assumiu o centro das discussões entre os cinéfilos. Enquanto o público analisa o impacto da obra para o passado e o futuro da sétima arte, uma parcela da crítica e do elenco tem resistido à tentação de rotular a produção simplesmente como um “filme de terror”.

Esse grupo inclui o astro Delroy Lindo, que conquistou uma indicação de Melhor Ator Coadjuvante por sua brilhante atuação como o bluesman Delta Slim. Em entrevista à EW, o ator explicou sua visão sobre os elementos sobrenaturais da trama. “O aspecto do vampiro é apenas uma das várias vertentes narrativas do filme, embora seja um componente muito fundamental e necessário”, pontuou Lindo. “Mas eu senti que os vampiros representavam forças externas se infiltrando em uma comunidade, e vemos o que acontece como resultado dessa infiltração.”

Muito além dos monstros de Hollywood

Certamente, a avaliação de Lindo está correta. No entanto, a história do cinema mostra que os filmes de terror sempre utilizaram monstros para representar forças externas ou problemas sociais profundos. ‘Pecadores’ executa essa metáfora de forma excepcional, mas isso não anula o fato de que a obra é, em sua essência, um autêntico filme de terror.

Escrito e dirigido pelo aclamado cineasta Ryan Coogler, ‘Pecadores’ narra a densa história dos irmãos gêmeos Smoke e Stack (ambos interpretados por Michael B. Jordan). No ano de 1932, a dupla retorna de Chicago para sua cidade natal no estado do Mississippi com o objetivo de abrir um juke joint (um estabelecimento musical tradicional afro-americano). Logo na noite de inauguração, o local é atacado por um grupo de vampiros liderados pelo irlandês Remmick (vivido por Jack O’Connell), transformando uma noite de celebração musical em uma luta desesperada pela sobrevivência.

Como Delroy Lindo observou corretamente, Remmick e seus mortos-vivos são apenas uma das ameaças que os protagonistas precisam enfrentar. Antes mesmo da chegada das criaturas noturnas, os irmãos lidam com pessoas brancas inescrupulosas que, apesar das negativas, são membros ativos da KKK. O roteiro também explora o jovem Sammie Moore (Miles Caton) lutando contra as crenças religiosas de seu pai, além de traumas de guerra e alcoolismo que devastam vários personagens, tudo isso sob o peso esmagador do racismo sistêmico.

O estigma do terror na indústria

Pecadores – Divulgação / Warner Bros.

O diretor Ryan Coogler e sua equipe criativa merecem todos os créditos que conquistaram por pegar temas tão complexos e transformá-los em uma obra incrivelmente envolvente. Trata-se de um caso raro de sucesso em Hollywood: um blockbuster inteligente, socialmente relevante e extremamente divertido de assistir. E grande parte dessa diversão vem justamente do fato de que ‘Pecadores’ abraça as raízes do terror.

Todas essas ameaças sociais e sobrenaturais culminam quando o vampiro Remmick bate à porta do estabelecimento. Enquanto causa o caos na vida de Smoke, Stack e de todos ao redor, o vilão não é retratado como o puro mal genérico. Coogler dedica tempo para reconhecer que o antagonista, como um imigrante irlandês, também foi vítima de opressão no passado — uma opressão que ele agora repete após ser transformado. O filme visualiza essa conversão através de olhos brilhantes e dentes afiados cravados nos pescoços de suas vítimas.

É um material genuinamente assustador, que atinge os espectadores em um nível visceral. O gênero do terror tem o poder de arrancar reações rápidas do público, um fato que muitos cineastas exploraram para produzir entretenimento barato e descartável ao longo da história de Hollywood. Como resultado, o terror carrega o estigma de ser uma forma “menor” de cinema, o que frequentemente faz com que atuações e filmes incríveis sejam esnobados pelas grandes premiações.

Com esse histórico em mente, faz todo o sentido que astros como Delroy Lindo queiram evitar que ‘Pecadores’ seja colocado na mesma prateleira de franquias slasher puramente comerciais, como ‘Sexta-Feira 13’ ou ‘Jogos Mortais’. Mas, assim como esses clássicos, a nova obra da dupla Coogler e Jordan lida ativamente com monstros. O fato de essas criaturas refletirem os verdadeiros monstros da vida real não torna o projeto menos focado no terror; apenas o consolida como um filme de terror rico, poderoso e excelente.

Atualmente, o aclamado ‘Pecadores’ já está disponível no catálogo de streaming da plataforma Max (antiga HBO Max).

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