A alegria de uma nova vida pode ser rapidamente silenciada pelas incertezas da mente humana. Em Mother’s Baby, novo longa da cineasta austríaca Johanna Moder, somos levados a uma jornada um tanto quanto perturbadora que caminha na linha tênue entre o drama íntimo e o suspense paranoico. O filme nos coloca dentro da mente de Julia (Marie Leuenberger), uma maestra bem-sucedida que, após um tratamento de fertilidade com o enigmático Dr. Vilfort (Claes Bang), vê sua realidade desmoronar logo após o parto.
Atenção: contém spoilers!
A paranoia sob a ótica da depressão pós-parto
O grande trunfo da obra é a forma imersiva como aborda a maternidade. Julia vive em uma cobertura luxuosa e tem um relacionamento saudável com Georg (Hans Löw), mas o nascimento do filho traz à tona um vazio aterrorizante. O bebê, levado às pressas para uma emergência na clínica particular antes mesmo que ela pudesse segurá-lo, retorna “sem complicações”, mas Julia não consegue se conectar. Ela se recusa a dar um nome à criança e passa a desconfiar de cada gesto da parteira e do silêncio estranhamente sereno do recém-nascido.
Diferente de filmes que apostam no sobrenatural, Mother’s Baby foca nas peças que a própria mente prega. A direção de Johanna Moder usa o silêncio e o contraste de luzes para elevar a tensão, criando um ambiente onde o medo e a culpa sufocam a protagonista. A atuação contida e marcante de Marie Leuenberger é magistral: ela carrega o peso do filme no rosto, transmitindo a dúvida e o isolamento de uma mulher que questiona seus próprios instintos mais básicos.

Um jogo de sugestões e sombras
O filme flutua entre o suspense psicológico e um humor sombrio e ácido, quase surrealista. A comparação que Julia faz entre seu bebê e os anfíbios axolotes sorridentes da clínica de fertilidade é um exemplo de como o roteiro transforma a dor em um combustível cinematográfico inquietante. É uma obra de gestos e sugestões, que prefere o desconforto das incógnitas do que as respostas fáceis de um roteiro tradicional de terror.
Embora o ritmo possa parecer arrastado para alguns no ato final, essa lentidão serve para integrar o espectador ao cansaço emocional da personagem. O longa se recusa a entregar um fechamento “arrumadinho”, preferindo deixar o público com o eco das perguntas que Julia carrega. Essa abertura narrativa é o que torna a experiência tão persistente e poderosa após os créditos subirem.

Por que Mother’s Baby funciona?
Mesmo navegando por um território denso e cheio de tabus, Mother’s Baby funciona porque é, acima de tudo, humano. O filme sinaliza uma evolução intrigante do terror sobre maternidade, movendo o medo do “monstro externo” para algo muito mais assustador: o descontrole interno. É um projeto impactante, técnico e emocionalmente honesto que não precisa gritar para ser ouvido. Afinal, perante a sociedade, é possível uma mãe não amar seu filho nos primeiros meses de vida? Há um laço que realmente se forma desde o ventre?
No fim das contas, a obra entrega uma experiência cinematográfica fascinante e até com um pouco de “diversão” para quem aprecia um suspense que “entra sob a pele”. Johanna Moder conseguiu criar um filme que permanece com você, silenciosamente, provando que a realidade e os abalos da mente podem ser muito mais arrepiantes do que qualquer criatura de ficção.
Você acredita que o instinto materno é algo infalível ou a mente humana é capaz de deletar qualquer conexão diante de um trauma?
Mother’s Baby estreia dia 05 de março nos cinemas.






Seja o primeiro a comentar