‘Round 6’: o fato histórico que inspirou criação de sucesso da Netflix

Andre Luiz

A produção sul-coreana Round 6 segue como o maior fenômeno da história da Netflix em números de audiência. A primeira temporada da série acumula 265,2 milhões de visualizações, liderando o ranking de produções não faladas em inglês e superando Wandinha, que registra 252,1 milhões no Top 10 de séries em inglês da plataforma.

Mesmo com avaliações mais divididas nas temporadas seguintes, os dados de audiência reforçam a força do título. A segunda temporada aparece na vice-liderança entre as produções não inglesas, com 192,6 milhões de visualizações, enquanto a terceira ocupa a terceira posição, com 145,8 milhões.

Round 6 é baseada em fatos reais?

Embora a trama de Round 6 — que mostra pessoas endividadas participando de jogos mortais inspirados em brincadeiras infantis para disputar um prêmio de 45,6 bilhões de wons — seja ficcional, elementos centrais da narrativa têm raízes em acontecimentos reais. Os personagens, como Seong Gi-hun, o Front Man e Oh Il-nam, não existiram, mas o contexto social apresentado reflete episódios históricos concretos.

A greve da SsangYong Motor influenciou o passado de Gi-hun

Um dos principais pontos de conexão com a realidade está na história de Seong Gi-hun. Na primeira temporada, o personagem é apresentado como ex-funcionário da SsangYong Motor, empresa envolvida em uma das mais violentas greves trabalhistas da Coreia do Sul, ocorrida em 2009.

Após a controladora Shanghai Automotive Industry Corporation declarar falência, a montadora promoveu demissões em massa. Cerca de 2 mil funcionários pediram desligamento voluntário, e aproximadamente 36% da força de trabalho foi cortada, incluindo todos os trabalhadores da fábrica de Pyeongtaek.

A resposta veio na forma de uma ocupação da planta industrial que durou 77 dias. O confronto entre operários e forças de segurança escalou rapidamente. Segundo relatos históricos, tratou-se de um dos embates trabalhistas mais intensos do país nas últimas décadas:

“Em meados de julho, a polícia lançou um ataque em larga escala à fábrica, com milhares de agentes fortemente armados, canhões de água e helicópteros lançando gás lacrimogêneo sobre os telhados.”

Criador explica por que trouxe o episódio para a série

Em entrevista à AFP, o criador Hwang Dong-hyuk explicou que a referência à SsangYong tinha um objetivo narrativo claro:

“Por meio da referência às demissões da SsangYong Motor, eu quis mostrar que qualquer pessoa comum de classe média pode cair para o fundo da escada econômica da noite para o dia.”

Segundo ele, a desigualdade econômica é um tema universal, o que ajuda a explicar a identificação global do público com a série.

Outras inspirações reais por trás de Round 6

Além da história de Gi-hun, outro personagem que carrega referências do mundo real é Ali Abdul, trabalhador migrante paquistanês. Hwang revelou que a trajetória de Ali foi influenciada por experiências pessoais de discriminação vividas pelo próprio criador durante uma viagem ao Reino Unido:

“Quando visitei o Reino Unido aos 24 anos, um funcionário branco da imigração do aeroporto me lançou um olhar desdenhoso e fez comentários discriminatórios.”

Por outro lado, rumores que ligavam a série ao antigo centro de detenção Brothers Home foram desmentidos. As informações falsas circularam nas redes sociais com imagens manipuladas por inteligência artificial, sem qualquer confirmação oficial do criador.

Com uma combinação de ficção extrema e referências diretas a desigualdades históricas, Round 6 consolidou-se não apenas como um sucesso de audiência, mas como uma produção que dialoga com episódios reais de tensão social e econômica.

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