Saga do Clone: a história mais polêmica do Homem-Aranha

Andre Luiz

A chamada Saga do Clone entrou para a história dos quadrinhos da Marvel como uma das narrativas mais longas, confusas e debatidas do Homem-Aranha. Publicada principalmente ao longo da década de 1990, a trama nasceu em meio a uma crise editorial e acabou se tornando um marco — tanto pelo impacto comercial quanto pela reação negativa de parte do público.

No início dos anos 1990, a Marvel enfrentava queda nas vendas de HQs e dificuldades para manter seus personagens populares em evidência. O Homem-Aranha, tradicional carro-chefe da editora, vivia um momento de desgaste: Peter Parker já era adulto, as histórias tinham um tom mais sombrio e a personagem Mary Jane estava grávida, afastando leitores que se identificavam com a fase clássica do herói.

Foi nesse cenário que a editora apostou em uma ideia considerada “genial” internamente: resgatar o conceito de clones, apresentado pela primeira vez em 1975, durante o arco que envolveu a morte de Gwen Stacy.

O retorno dos clones e o surgimento do Aranha Escarlate

A trama ganhou força quando um clone de Peter Parker retorna inesperadamente, adotando o nome Ben Reilly. Ao assumir a identidade do Aranha Escarlate, o personagem passa a atuar ao lado do Homem-Aranha original em Nova York.

O momento inicial da saga foi bem recebido e trouxe resultados imediatos. As vendas cresceram, e a presença de dois heróis com poderes semelhantes ampliou o interesse do público. Por um período, a estratégia parecia funcionar, consolidando Ben Reilly como um novo nome relevante dentro do universo Marvel.

A reviravolta que mudou tudo

O ponto de ruptura veio quando os roteiros revelaram que Peter Parker seria, na verdade, um clone, enquanto Ben Reilly seria o original. A decisão afetou décadas de histórias já publicadas e provocou forte rejeição dos leitores.

A partir desse momento, a saga se estendeu muito além do planejado. O arco, que deveria durar cerca de seis meses, acabou se prolongando por quase três anos, refletindo divergências internas entre editores e roteiristas da Marvel.

Conflitos internos e queda de qualidade

Enquanto a narrativa avançava sem um desfecho claro, a qualidade das histórias começou a cair. Parte da equipe editorial defendia a permanência de Ben Reilly como Homem-Aranha definitivo, enquanto outro grupo insistia no retorno de Peter Parker ao protagonismo.

Nesse período, Peter perde seus poderes e se afasta da vida heroica, enquanto Ben assume integralmente o manto do Homem-Aranha. A indefinição criativa impactou novamente as vendas, pressionando a editora a encerrar a saga.

O desfecho com o retorno do Duende Verde

A solução encontrada envolveu a volta de Norman Osborn, o Duende Verde, dado como morto desde os anos 1970. A história estabeleceu que ele teria manipulado toda a trama dos clones desde o início, incluindo a confusão genética entre Peter Parker e Ben Reilly.

No confronto final, Ben Reilly morre, Peter Parker reassume oficialmente o papel de Homem-Aranha e a revelação de que ele sempre foi o original encerra a saga de forma abrupta.

Legado e releituras posteriores

Apesar da recepção negativa, a Saga do Clone deixou marcas duradouras. O personagem Ben Reilly permaneceu no imaginário dos fãs e retornou em outras fases dos quadrinhos, inclusive como Aranha Escarlate, em arcos posteriores.

Em 2009, o editor Tom DeFalco publicou uma versão revisada da história, considerada mais próxima da ideia original e menos caótica. Além disso, elementos da saga foram adaptados de forma simplificada na animação Homem-Aranha: A Série Animada, exibida nos anos 1990.

Hoje, a Saga do Clone é lembrada como um exemplo emblemático dos riscos de estender excessivamente uma narrativa, mas também como um capítulo importante na trajetória editorial do Homem-Aranha e da própria Marvel.

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