Poucas franquias da cultura pop tiveram uma trajetória tão cheia de reviravoltas quanto “As Tartarugas Ninja” (Teenage Mutant Ninja Turtles). Criados por Kevin Eastman e Peter Laird em 1984, os quelônios mais famosos dos quadrinhos conquistaram o mundo através de HQs, desenhos, games e, claro, filmes que marcaram gerações. No entanto, por trás dos longas que chegaram aos cinemas, existe uma lista surpreendente de projetos cancelados que poderiam ter mudado completamente a história da franquia.
Desde o primeiro filme em 1990, distribuído pela New Line Cinema, a saga dos irmãos Leonardo, Rafael, Michelangelo e Donatello passou por diversas fases no cinema. Foram três filmes live-action nos anos 90, uma animação em 2007, dois longas produzidos pela Platinum Dunes em 2014 e 2016, e o aclamado “As Tartarugas Ninja: O Caos Mutante” (Teenage Mutant Ninja Turtles: Mutant Mayhem) em 2023. Porém, entre cada fase, vários projetos promissores acabaram engavetados. Confira todos eles a seguir.
A versão de Roger Corman com comediantes pintados de verde
Sem dúvida, o projeto mais absurdo da história das Tartarugas Ninja no cinema veio de Roger Corman, o lendário produtor de filmes B. Em meados dos anos 80, quando os quadrinhos começavam a ganhar popularidade, a produtora de Corman, a New World Pictures, apresentou uma proposta no mínimo inusitada.
A ideia envolvia escalar comediantes como Sam Kinison, Bobcat Goldthwait, Gallagher e Billy Crystal para interpretar as tartarugas. Segundo Eastman, o conceito era extremamente simples e barato: os atores simplesmente pintariam seus rostos de verde e usariam cascos falsos. Felizmente, Eastman e Laird rejeitaram a proposta de imediato.

Para quem conhece o trabalho de Corman, o resultado provavelmente seria semelhante ao infame “O Quarteto Fantástico” (The Fantastic Four) de 1994, que ficou famoso por sua qualidade duvidosa. Portanto, a recusa dos criadores pode ter salvado a franquia de um início desastroso nos cinemas.
“TMNT 4: The Next Mutation”, a sequência que nunca veio
O terceiro filme da trilogia original, “As Tartarugas Ninja III” (Teenage Mutant Ninja Turtles III), lançado em 1993, foi considerado uma queda de qualidade em relação aos dois anteriores. A abordagem focada em viagem no tempo não agradou a crítica nem o público. Mesmo assim, Kevin Eastman continuou trabalhando em um quarto filme a partir de 1995.

O projeto, que carregava títulos provisórios como “TMNT 4: The Next Mutation” ou “TMNT 4: The Foot Walks”, seguiria versões mais velhas dos personagens, que ganhariam novas habilidades com o passar do tempo. Eastman desenvolveu a ideia até 1997, mas o projeto nunca avançou para a produção.
Ainda assim, algumas dessas ideias foram aproveitadas na série live-action “Ninja Turtles: The Next Mutation”, que chegou a ser produzida para a televisão. Ou seja, mesmo cancelado, o quarto filme deixou sua marca na franquia.
A animação “TMNT” de 2007 planejava ser uma trilogia
O filme animado “TMNT”, dirigido por Kevin Munroe em 2007, foi concebido como o primeiro capítulo de uma trilogia. A história apresentava as Tartarugas separadas após a derrota definitiva do Destruidor, e os próximos filmes expandiriam essa narrativa.
Apesar de arrecadar US$ 96 milhões contra um orçamento de US$ 34 milhões, os números não foram suficientes para garantir a continuação. Para piorar, quando a Nickelodeon adquiriu os direitos da franquia, os planos das sequências foram completamente descartados.

Os detalhes do segundo filme eram particularmente interessantes. Munroe planejava uma trama em que Michelangelo, deprimido e desmotivado, se juntaria ao Clã do Pé. Além disso, Peter Laird chegou a sugerir que a sequência combinasse animação CGI com atores reais, o que teria permitido que Sarah Michelle Gellar e Chris Evans reprisassem seus papéis em live-action ao lado das tartarugas em CGI.
O reboot sombrio no estilo “Batman Begins”
Após o desempenho modesto de “TMNT” em 2007, os planos mudaram para um retorno ao live-action. E dessa vez, a proposta era ousada: criar um filme no estilo de “Batman Begins” (Batman Begins), com um tom mais sombrio e realista.
O projeto teria roteiro de John Fusco, criador da série “Marco Polo” da Netflix, e utilizaria fantasias animatrônicas com expressões faciais aprimoradas digitalmente. A proposta mais radical era ignorar completamente os eventos do segundo e terceiro filmes, funcionando como uma sequência direta apenas do longa original de 1990.
Essa abordagem de “sequência legado” era ambiciosa para a época, já que esse formato só se popularizaria anos depois com filmes como “O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio” (Terminator: Dark Fate). No entanto, a Paramount considerou o projeto sombrio demais e vetou a produção.
O terceiro filme da fase Platinum Dunes
O reboot de 2014, produzido pela Platinum Dunes de Michael Bay, foi um sucesso financeiro, mas não conquistou críticos nem fãs. Em seguida, “As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras” (Teenage Mutant Ninja Turtles: Out of the Shadows), lançado em 2016, teve uma recepção ainda mais fria nas bilheterias.

Embora atores como Noel Fisher, Alan Ritchson e Megan Fox tivessem contratos para três filmes, ficou claro já no fim de semana de estreia que o terceiro longa não aconteceria. A franquia precisava de uma reformulação completa.
No caso de Ritchson, o cancelamento acabou sendo positivo para sua carreira. O ator seguiu em frente e conquistou papéis de destaque em produções maiores, provando que nem todo projeto engavetado é uma má notícia para quem está envolvido.
Os spin-offs exclusivos do Paramount+ que viraram série
Cerca de um ano antes da estreia de “As Tartarugas Ninja: Caos Mutante” nos cinemas, a Paramount anunciou uma série de filmes spin-off exclusivos para o Paramount+. Cada produção focaria em um dos vilões apresentados no longa principal.

Esses filmes individuais nunca se concretizaram no formato original. Contudo, a ideia não foi completamente desperdiçada. A série animada “Tartarugas Ninja: Histórias Mutantes” (Tales of the Teenage Mutant Ninja Turtles), com duas temporadas, acabou ocupando esse espaço no streaming. Além disso, uma sequência cinematográfica de “O Caos Mutante” continua em desenvolvimento.
Personagens como Wingnut, dublada por Natasia Demetriou, ganharam destaque no filme original e poderiam ter rendido boas histórias solo. Infelizmente, isso não deve acontecer no formato que foi planejado inicialmente.
“O Último Ronin”: o filme que mais precisava acontecer
De todos os projetos cancelados, “Tartarugas Ninja: O Último Ronin” é sem dúvida o que mais dói nos fãs. A minissérie de cinco edições, escrita por Eastman e Tom Waltz com base em uma história criada por Eastman e Laird, é considerada um dos pontos mais altos da história da franquia e uma das melhores minisséries de 2022.

A adaptação cinematográfica foi anunciada na CinemaCon em 2024 com uma proposta empolgante: seria um filme live-action com classificação R, ou seja, para maiores. O diretor escolhido era Ilya Naishuller, conhecido pelo aclamado “Anônimo” (Nobody). Tudo parecia encaminhar bem até agosto de 2025.
Porém, em novembro de 2025, o projeto foi cancelado. A Paramount Skydance optou por seguir outro caminho e encarregou Neal H. Moritz de supervisionar um reboot live-action completamente diferente, com estreia prevista para 17 de novembro de 2028. Um game baseado em “The Last Ronin” supostamente continua em desenvolvimento, mas a perda do filme é lamentável.
O que temos até agora
A história dos filmes cancelados das Tartarugas Ninja revela muito sobre os desafios de adaptar uma franquia que transita entre o humor infantil e a violência dos quadrinhos originais. Cada projeto engavetado representou uma visão diferente para os quelônios, e muitas dessas ideias eram genuinamente interessantes.
Com o novo reboot live-action agendado para 2028 e a sequência de “O Caos Mutante” ainda nos planos, a franquia segue viva e relevante. Resta saber se a Paramount conseguirá encontrar o equilíbrio certo entre nostalgia e inovação. Para os fãs, a esperança é que “O Último Ronin” eventualmente ganhe alguma adaptação, seja no cinema ou em outro formato. Afinal, uma história tão poderosa merece chegar a um público ainda maior.






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