Por que “Guerreiras do K-Pop 2” pode dar certo

Vinicius Miranda

O cinema vive o que Christopher Nolan apelidou de era “pós-franquia”, mas “Guerreiras do K-Pop 2” (KPop Demon Hunters 2) tem tudo para nadar contra a maré. Ninguém se surpreendeu quando a Netflix e a Sony confirmaram oficialmente a sequência do fenômeno de 2025.

Maior animação original da história do streaming, o filme virou um verdadeiro evento da cultura pop. Por isso mesmo, toda a equipe criativa agora carrega o peso de entregar algo à altura do original, ou até melhor. A boa notícia é que os planos divulgados sugerem que o estúdio está aprendendo as lições certas.

A “era pós-franquia” e o desafio da sequência

Guerreiras do K-Pop – Divulgação / Sony Pictures

O contexto não poderia ser mais complicado para erguer uma nova franquia. Há cerca de dois anos, após o sucesso de “Oppenheimer”, o diretor Christopher Nolan manifestou a expectativa de que Hollywood estaria entrando em uma fase pós-franquia. Desde então, o cenário pareceu lhe dar razão.

Vimos o universo cinematográfico da Marvel perder fôlego, a produção de “Star Trek” praticamente paralisar e até o filme mais recente de “Star Wars” enfrentar dificuldades nas bilheterias. Em contrapartida, obras originais e independentes vêm florescendo. A leitura de Nolan soou quase profética. A pergunta que fica é se “Guerreiras do K-Pop 2” conseguirá driblar essa tendência.

Como a sequência tenta evitar a armadilha

Todo mundo conhece o roteiro padrão dos estúdios: empolgados com o sucesso de um filme, eles costumam atropelar a produção da continuação. Para crédito da Netflix e da Sony, as parceiras parecem decididas a evitar esse erro. Segundo informações divulgadas, o plano é que “Guerreiras do K-Pop 2” chegue apenas em 2029, na melhor das hipóteses.

Enquanto isso, o público recebe um fluxo constante de produtos derivados e parcerias para manter a marca aquecida. Os diretores Maggie Kang e Chris Appelhans estão de olho atento nesse processo, conscientes do risco de desgastar a franquia com excessos.

Kang, que trabalha na sequência, fez questão de reforçar que o novo filme precisa ser fresco, surpreendente e original. Em suas palavras:

Os fãs de K-pop são muito rigorosos e eles vão perceber.

A diretora destacou ainda que, agora que se trata de uma franquia, tudo o que sair dela precisa manter um padrão elevado de qualidade. Seria fácil para a dupla simplesmente repetir a fórmula que funcionou da primeira vez, mas a intenção é justamente ir além.

A lição que vem de “Star Wars”

De certa forma, a estratégia segue uma cartilha conhecida. Lá nos anos 1970, George Lucas foi um dos primeiros a enxergar o potencial do merchandising. Ele apostou em um acordo que lhe deu o controle dos produtos licenciados em troca de um salário menor, uma jogada que se tornou lendária.

Nenhum estúdio voltará a permitir algo assim com um diretor, mas o padrão se mantém: usar o merchandising para manter a franquia viva enquanto a sequência é desenvolvida. Vale lembrar também que, por melhor que tenha sido o primeiro “Star Wars”, foi a continuação, “O Império Contra-Ataca” (The Empire Strikes Back), que transformou aquele filme em uma saga capaz de atravessar quase cinco décadas.

O trunfo de ser algo novo

Hollywood sempre foi atraída por franquias, mas elas se tornaram dominantes desde o lançamento do universo Marvel, em 2008. Aos poucos, esse modelo começou a sair pela culatra, deixando o mercado saturado. Cânone e mitologia profunda já não são tão atrativos, e o público se interessa cada vez mais por aquilo que parece novo e original.

Isso, porém, não significa que não haja espaço para novas franquias. Pelo contrário. As marcas estabelecidas hoje têm barreiras de entrada altíssimas, o que as torna intimidadoras para o espectador iniciante. Produtores enfrentam o desafio de agradar fãs antigos, investidos em cada detalhe, enquanto tentam conquistar quem nunca assistiu a nada daquele universo.

É aí que “Guerreiras do K-Pop” leva vantagem: ele é novo. Para entender a história, basta assistir a um único filme, e que filme. Existe muito conteúdo extra por aí, como livros de arte, brinquedos e curtas animados, mas nada disso é obrigatório. Você não perde nada se não tiver conferido esses materiais. Em outras palavras, a barreira de entrada é baixíssima, o que oferece uma plataforma de lançamento brilhante para a sequência.

Análise: a aposta de virar uma saga duradoura

Não nos enganemos: o objetivo aqui vai muito além de simplesmente fazer “Guerreiras do K-Pop 2”. A meta é garantir o futuro de toda a franquia, transformando o projeto na próxima saga capaz de durar 50 anos. Essa é uma missão difícil, que envolve inúmeras decisões estratégicas delicadas.

Para o estúdio, o cuidado em não apressar a sequência demonstra maturidade e visão de longo prazo. Para os fãs, é a promessa de que a qualidade será preservada, sem entregas apressadas só para surfar a onda do momento. E para o mercado, “Guerreiras do K-Pop” funciona como uma prova de que ainda há espaço para o novo, mesmo em tempos de fadiga de franquias.

Vale lembrar do tamanho do fenômeno que sustenta essa ambição. O filme original, dirigido por Kang e Appelhans pela Sony Pictures Animation, acumulou mais de 500 milhões de visualizações na Netflix e rendeu um marco histórico: a faixa “Golden” se tornou a primeira música de K-pop a vencer um Grammy. A animação ainda figurou entre as indicadas ao Oscar, reforçando que estamos diante de algo realmente excepcional.

Um futuro promissor para as caçadoras

No fim das contas, o cenário é animador. Mesmo tendo nascido em um mundo supostamente pós-franquia, “Guerreiras do K-Pop” reúne ingredientes raros: frescor, baixa barreira de entrada e uma base de fãs apaixonada e exigente. Se a Netflix e a Sony mantiverem o equilíbrio entre paciência criativa e qualidade, o trio HUNTR/X pode muito bem inaugurar a franquia de animação mais relevante dos próximos anos. Resta esperar até 2029 para descobrir se a aposta vai dar certo.

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