Há oito anos, um site especializado em cultura pop descreveu Os Incríveis como uma espécie de versão familiar de Watchmen, frase jogada num parágrafo qualquer e nunca mais testada de verdade. A comparação merece ser levada a sério, porque as coincidências vão além do óbvio.
Duas ressalvas: aqui o filme de Brad Bird, de 2004, é comparado aos quadrinhos que Alan Moore e Dave Gibbons publicaram entre 1986 e 1987, não à adaptação cinematográfica; e Bird nunca citou Watchmen entre suas influências, então nada abaixo é acusação de plágio, apenas paralelos.
Nada de capas!
A coincidência mais nítida está nas mortes por acidentes de capa. Em Watchmen, um herói da era Minutemen chamado Dólar de Prata trabalhava como relações-públicas para um banco, com uniforme desenhado pelo departamento de publicidade da instituição; durante um assalto, sua capa ficou presa na porta giratória, e ele foi baleado à queima-roupa, detalhe sepultado nas páginas de prosa das primeiras edições.

Já em Os Incríveis, Edna Moda entrega a fala mais citada da obra, listando heróis mortos por causa de suas capas: presas em turbinas, sugadas por vórtices, enroscadas em decolagens. Moore deixou a observação como nota sombria sobre quem é dono da imagem de um herói; Bird transformou a mesma ideia numa piada recorrente e depois matou seu próprio vilão com ela no terceiro ato.
Heróis banidos por motivos opostos
Watchmen tem a Lei Keene, aprovada em 1977 após uma greve policial, que proíbe o vigilantismo fantasiado, com exceção só para dois operativos do governo. Os Incríveis tem o Programa de Realocação de Super-Heróis, motivado pela pressão pública e por processos judiciais, oferecendo anistia em troca da promessa de parar.
O resultado é o mesmo, mas a causa difere totalmente: uma é sobre o Estado recuperando o monopólio da força, a outra é piada sobre a cultura americana de processar qualquer coisa.
Um homem de meia-idade que sente falta da fantasia
Roberto Pêra é perito de seguros com um chefe insuportável, corpo que não cabe mais no uniforme e o hábito de sair escondido à noite para fazer o que a lei proíbe. Dan Dreiberg, o Coruja, está aposentado, amolecido, nostálgico, guardando o equipamento num porão que visita com mais frequência do que admite.
Os dois são fisicamente diminuídos, guardam a fantasia, e são puxados de volta por uma mulher. Moore incorpora essa decadência, incluindo a impotência sexual do personagem; Bird torna o problema social em vez de físico, o que é mais caloroso e reconhecível.
Vilões que provocam catástrofes para redefinir o herói
Síndrome comanda a Operação Kronos, atraindo super-heróis aposentados para uma ilha e testando protótipos de uma máquina que melhora a cada herói que mata, com a intenção de soltá-la numa cidade, derrotá-la publicamente e vender a tecnologia depois. Ozymandias mata o Comediante, exila o Doutor Manhattan e destrói metade de Nova York para assustar duas superpotências e evitar uma guerra nuclear.

Síndrome é o personagem bem mais rico e emocionalmente enredado na vida do herói; Ozymandias é praticamente uma tese que só aparece de verdade no final. Mas Moore faz a coisa mais difícil: recusa dizer se Ozymandias estava certo, o plano funciona, e Rorschach morre insistindo que não deveria.
O placar final fica surpreendentemente equilibrado. Vale lembrar que James Gunn já deixou claro não pretender trazer os personagens de Watchmen para o novo DCU, como mostrado quando o próprio diretor confirmou essa decisão, respeitando o desejo de Alan Moore de manter a obra intocada. Os Incríveis, por sua vez, segue lembrado como divisor de águas na Pixar, como reforçado quando uma análise da filmografia do estúdio apontou o filme como o momento em que a Pixar amadureceu de vez.






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