Poucos apostariam que Lanternas se tornaria o grande fenômeno televisivo do outono, mas foi exatamente isso que aconteceu.
Os criadores da série, Damon Lindelof, de Lost e Watchmen, Chris Mundy, de Ozark, e o escritor de quadrinhos Tom King, conseguiram ancorar a mitologia fantástica do Lanterna Verde numa investigação policial ao estilo de True Detective, no interior dos Estados Unidos. Episódio após episódio, a atração vem temperando a trama com pitadas cada vez mais picantes da mitologia do herói, dobrando esse material de formas surpreendentes.
Coragem virou motivo de piada interna
Lanternas também não teve medo de desafiar elementos centrais da mitologia do Lanterna Verde. De um jeito inteligente, a série transformou uma de suas melhores piadas recorrentes, e também um de seus maiores temas, na discussão sobre o que um Lanterna Verde deveria realmente ser. Até agora, nem os fãs mais fiéis parecem ter percebido isso.
Um dos elementos centrais dos poderes do Lanterna Verde é que seu anel esmeralda funciona como condutor da força de vontade do usuário, permitindo a criação de constructos. Nos quadrinhos, esse poder exige que o portador “esteja sem medo”, conceito que já rendeu momentos épicos para Hal Jordan, John Stewart e outros Lanternas humanos ao longo dos anos. Só que, como tantas coisas que funcionam nos quadrinhos, esse conceito nem sempre se traduz tão bem para a tela.
Já no terceiro episódio, Lanternas deixou claro que não compra a ideia de “ausência de medo” da forma como o material original a define, e vem se divertindo bastante às custas de décadas dessa mitologia. Uma das melhores piadas recorrentes da série acontece sempre que um dos três Lanternas terráqueos, Hal, John ou Guy Gardner, vivido por Nathan Fillion, é confrontado sobre seu próprio medo. A cena nunca é tratada de forma nobre: é o tipo de troca mais infantil possível, digno de desafios de recreio de escola.
Você tá com medo! Não, não estou!
Divulgação: Warner Bros.
Os três Lanternas já agiram com falsa bravata sempre que desafiados sobre o próprio medo, parecendo garotos adolescentes, e não homens adultos empunhando uma arma toda-poderosa alimentada pela maturidade emocional. Ainda assim, Lanternas não fica exagerando na piada: a série também tem um ponto sério a fazer sobre o medo e o conceito de superá-lo.
Uma mitologia séria construída em cima da ironia
A origem de John Stewart começa refutando a ideia de que um terráqueo, como o pai dele, John Stewart Sr., pode ser “sem medo”. O terceiro episódio vira uma aula de ironia dramática: o público fica horrorizado com as atitudes de Bernadette Stewart e John Sr., mas os dois realmente acreditam no ato “nobre” de condicionar o filho contra o medo para transformá-lo no Lanterna definitivo.
Conforme a série avança, fica evidente que os pais de John o condicionaram mais contra sentir do que contra o medo em si, e essa emoção reprimida não fez dele a melhor versão de si mesmo, seja na luta por Rushville, seja uma década depois.
Já a bravata “sem medo” de Hal Jordan foi exposta no primeiro episódio como máscara para uma solidão profunda, e uma única conversa com Sinestro bastou para que seus medos mais profundos tomassem conta dele, possivelmente instigando a destruição de Rushville e o rompimento final com John. Guy, por sua vez, está tão inseguro sobre sua posição como Lanterna Verde que bastou uma conversa cheia de culpa para John manipulá-lo a recuperar o anel e o uniforme de Hal. Até Sinestro confessa a Hal que sua habilidade nunca foi baseada na ausência de medo, mas na ambição.
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