A febre das adaptações de fantasia para cinema e TV não para de crescer, mas nem toda obra literária parece destinada às telas. Alguns dos melhores livros de fantasia escondem armadilhas que tornam sua transposição quase impossível, seja pelo orçamento exigido, pelos recursos narrativos ou por conteúdos delicados.
A seguir, conheça três romances que talvez funcionem melhor permanecendo apenas no papel.
O Livro do Novo Sol, de Gene Wolfe

O Livro do Novo Sol (The Book of the New Sun) mistura ficção científica e fantasia e, à primeira vista, seria um candidato natural a uma adaptação. A jornada de Severian, um torturador exilado, soa envolvente em qualquer formato. O problema está nas escolhas de escrita do autor Gene Wolfe.
Boa parte da força da obra vem de detalhes sutis e de uma narração peculiar, elementos que dificilmente sobreviveriam à transposição para a tela. Pistas que funcionam de forma discreta no texto se tornariam óbvias demais em imagens, comprometendo as reviravoltas.
Não por acaso, parte considerável dos fãs prefere que a saga permaneça intocada.
Gideon, a Nona, de Tamsyn Muir

O romance de fantasia científica Gideon, a Nona (Gideon the Ninth), primeiro volume da Saga do Túmulo Trancafiado, também apresenta obstáculos consideráveis. Grande parte do charme do livro vem do monólogo interno da protagonista, algo notoriamente difícil de traduzir para o audiovisual sem perder a graça.
Além disso, a obra de Tamsyn Muir aposta em uma construção de mundo deliberadamente vaga, revelando suas peças aos poucos. Esse mistério funciona muito bem na literatura, mas poderia afastar um público mais amplo na tela.
Soma-se a isso a necromancia e os cenários sombrios, que exigiriam efeitos visuais impressionantes e, portanto, um investimento arriscado para qualquer produção.
A Guerra da Papoula, de R.F. Kuang

Encabeçando a lista está A Guerra da Papoula (The Poppy War), de R.F. Kuang. Curiosamente, uma adaptação chegou a ser anunciada em 2020, segundo o site Deadline, o que mostra que a obra não é totalmente impossível de filmar. O desafio, porém, é de outra natureza.
O romance trata dos horrores da guerra sem suavizar a violência, e um trecho em especial se inspira em atrocidades reais da história. Levar esse tipo de conteúdo às telas seria delicado mesmo com uma classificação adulta.
A tendência de tornar a história mais palatável para o grande público é uma preocupação legítima, pois diluiria justamente a mensagem que a autora busca transmitir. Por se tratar de uma narrativa densa e dura, vendê-la ao grande público seria mais um obstáculo.
Quando ficar no papel é a melhor escolha
O debate toca em um ponto sensível para os fãs: nem toda boa história precisa virar série ou filme.
Adaptações divergentes costumam ter recepção morna, e muito do que torna esses livros especiais pode se perder no processo. Em vez de forçar versões audiovisuais, talvez seja mais sábio preservar a experiência original da leitura.
Vale lembrar que se trata de uma opinião, e a história do entretenimento está cheia de obras consideradas “impossíveis” que acabaram surpreendendo nas telas. Ainda assim, a reflexão é válida: até onde uma adaptação pode ir sem trair a essência do material de origem?
Para os leitores brasileiros, a boa notícia é que os três títulos estão disponíveis por aqui, prontos para serem descobertos em sua forma mais pura, a página escrita.






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