Microsoft pode colocar anúncios dentro dos jogos de Xbox e PC

Luiz Gustavo Gonçalves

Publicidade

Imagine derrotar aquele chefão que te fez passar horas tentando vencer e, no momento em que você finalmente consegue, o jogo congela para passar um anúncio. Parece uma daquelas ideias malucas que alguém inventaria para reclamar da indústria dos games, mas… uma nova patente da Microsoft descreve um sistema capaz de inserir publicidade durante momentos de pausa identificados pelo próprio jogo.

A tecnologia foi descrita em um pedido de patente chamado Contextually Aware Management of Interactive Software Application Access e prevê anúncios em jogos de PC e consoles, usando informações do próprio software para escolher momentos considerados adequados para interromper a experiência. E tem um detalhe ainda mais curioso: assistir ao anúncio poderia render ao jogador um período adicional de gameplay sem novas interrupções.

Microsoft quer colocar anúncios nas pausas dos jogos

A ideia é relativamente simples, mas pode mudar bastante a relação entre publicidade e videogames. Em vez de simplesmente jogar um anúncio na sua cara a cada determinado número de minutos, o sistema descrito pela Microsoft analisaria o que está acontecendo dentro do jogo e procuraria uma “pausa natural” para exibir a propaganda. Afinal, em um cenário de guerra e destruição, nada melhor que a trilha sonora e a atmosfera imersiva serem interrompidas por um “VEM PRO MAGALU”.

Isso poderia acontecer depois de uma luta contra um chefe, no final de uma cutscene, após a conclusão de uma missão, durante uma tela de carregamento ou em outros momentos nos quais o jogador não esteja realizando uma ação importante. A patente prevê que o próprio jogo forneça sinais para indicar quando uma dessas oportunidades aparece.

E aqui entra a parte que deixa tudo com uma cara ainda maior de YouTube aplicado aos videogames: depois de assistir à propaganda, o jogador receberia um “crédito”, que garantiria mais um período de acesso ininterrupto ao jogo. A própria patente descreve créditos que podem estar associados a uma duração específica de gameplay ou até ao progresso dentro do jogo.

Então mesmo pagando uma pequena fortuna pelo seu jogo novo, pode ser que você ainda seja obrigado a ver anúncios. Tudo para que assim tenha a “recompensa” de ver menos anúncios futuramente.

Você assiste ao anúncio e ganha mais tempo para jogar

Na prática, o funcionamento seria parecido com algumas mecânicas que já existem há anos em jogos mobile. Você joga durante determinado período, chega ao momento em que o sistema precisa exibir publicidade, assiste ao anúncio e recebe mais tempo de jogo sem propaganda.

A patente apresenta exemplos em que o crédito pode estar relacionado a uma quantidade de tempo, como 15 minutos, 30 minutos ou uma hora, mas também descreve possibilidades vinculadas ao progresso do jogador, como completar uma fase ou determinado objetivo.

O sistema também poderia utilizar informações fornecidas pelo próprio jogo para decidir quando o anúncio deve aparecer. A tecnologia descrita não depende simplesmente de um cronômetro correndo em segundo plano: ela pode receber um sinal do software indicando que uma determinada situação aconteceu e, a partir disso, verificar se aquele é o momento apropriado para apresentar a publicidade.

Isso abre uma possibilidade curiosa: o anúncio deixaria de ser apenas uma propaganda dentro do jogo e passaria a fazer parte do próprio sistema de acesso ao game. Você não estaria necessariamente vendo um comercial porque chegou ao minuto X. Você estaria vendo porque o seu crédito acabou e o jogo encontrou uma oportunidade para interromper a sessão.

E se isso chegar aos jogos que você já comprou?

É aqui que a história fica mais delicada. Uma interpretação comum é que, teoricamente, esse sistema poderia ser interessante para jogos gratuitos, já que a publicidade poderia funcionar como uma forma de monetização em troca de acesso. Claro, nada que fosse baixar o preço de skins ou itens in-game para melhorar tudo. Mas existe um detalhe importante na patente: o documento não limita explicitamente a tecnologia a jogos free-to-play.

Isso não significa que a Microsoft esteja planejando colocar anúncios em jogos vendidos pelo preço cheio. Muito menos que Xbox ou Windows terão comerciais obrigatórios depois de cada missão. Não existe confirmação de que o sistema será implementado em um produto comercial. Estamos falando de uma patente que descreve uma possibilidade tecnológica.

E essa distinção é importante porque empresas registram inúmeras ideias que nunca chegam ao consumidor. A própria documentação não apresenta um jogo específico da Microsoft que receberia a tecnologia, nem anuncia uma data para implementação. Portanto, por enquanto, não existe motivo para entrar em pânico e imaginar um anúncio da PRINCIPIA depois de cada boss de ‘Elden Ring’.

Elden Ring
Divulgação – Bandai Namco Entertainment

Mas a patente mostra que a Microsoft está, pelo menos, explorando maneiras de transformar a publicidade em uma espécie de moeda de acesso ao gameplay.

A grande questão é até onde essa ideia pode chegar

Existe uma diferença entre “o anúncio aparece em uma pausa natural” e “você precisa assistir a anúncios para continuar jogando”. E é justamente essa segunda possibilidade que torna a patente tão interessante para os jogadores. Se o sistema for utilizado para controlar o acesso ao jogo, o mundo dos games pode ficar pior do que nunca. A publicidade deixa de ser apenas algo que você vê e passa a ser parte daquilo que determina quanto tempo você pode continuar jogando sem interrupções.

Por enquanto, tudo isso está no campo das possibilidades. A Microsoft não confirmou que vai colocar anúncios obrigatórios nos jogos de Xbox ou PC, e o registro de uma patente não significa que a tecnologia necessariamente chegará ao público.

Mas vai por mim: se um dia você estiver jogando, derrotar aquele chefão que parecia impossível e o jogo disser “parabéns! Agora assista a 30 segundos de propaganda para continuar”, a discussão sobre monetização nos videogames vai ganhar um capítulo completamente novo.

Até porque, com tanta notícia péssima sobre a indústria, essa ainda consegue ter a proeza de ser uma das mais assustadoras.

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