Ex-artista da Naughty Dog teme futuro dos jogos com IA

Vinicius Miranda

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Matt Radford, que trabalhou em “The Last of Us” e “Uncharted 4”, teme que os grandes jogos atuais sejam vistos no futuro como obras artesanais de uma época que não voltará. Para ele, o avanço de novas tecnologias pode transformar a maneira como os estúdios desenvolvem jogos e reduzir o espaço para processos criativos feitos diretamente por pessoas.

Em entrevista ao podcast Kiwi Talkz, o ex-artista de efeitos visuais da Naughty Dog comentou sobre o esforço envolvido na produção de jogos modernos. Radford demonstrou surpresa com as críticas direcionadas a nomes como Neil Druckmann e Bruce Straley, argumentando que grandes projetos exigem anos de dedicação de equipes inteiras.

Jogos atuais podem virar relíquias do passado

Radford levantou a possibilidade de que títulos como “Uncharted 4”, “The Last of Us Part II” e o futuro “Intergalactic: The Heretic Prophet” sejam lembrados por gerações futuras não apenas por suas histórias ou jogabilidade, mas também pela quantidade de trabalho humano envolvida em sua criação.

Para explicar essa preocupação, ele fez uma comparação com construções históricas, como a Catedral de Colônia, na Alemanha. Essas obras foram erguidas com técnicas, habilidades e um nível de trabalho artesanal que não costuma ser reproduzido da mesma forma na construção civil contemporânea.

“E me pergunto se os jogos também serão assim: se olharemos para um jogo como Intergalactic, ou Uncharted 4, ou The Last of Us Part II, e ficaremos impressionados com a atuação de pessoas reais, a escrita, a modelagem, a escultura e a pintura.”

Na visão do artista, a evolução dos métodos de produção nem sempre preserva as características que tornam uma obra singular. Assim como técnicas modernas permitem construir edifícios de maneira mais eficiente, ferramentas digitais e sistemas automatizados podem acelerar etapas do desenvolvimento de jogos, mas também mudar o papel de quem cria personagens, cenários, animações e efeitos visuais.

O avanço da inteligência artificial preocupa profissionais

The Last of Us
The Last of Us Part II – Divulgação / Naughty Dog

Radford não citou a inteligência artificial nominalmente durante essa reflexão. Ainda assim, sua preocupação acompanha um debate crescente na indústria: até que ponto a automação pode ajudar equipes sem substituir a experiência, o julgamento artístico e a contribuição individual dos profissionais?

As ferramentas generativas vêm sendo consideradas por empresas que procuram reduzir custos e acelerar produções cada vez mais caras. Ao mesmo tempo, o uso desses sistemas provoca discussões sobre autoria, qualidade, treinamento de modelos e possíveis semelhanças com trabalhos já existentes.

Um exemplo recente envolve a Epic Games. Segundo reportagens publicadas em outubro de 2026, a empresa teria orientado a equipe de um jogo de tiro ainda não anunciado, que reúne propriedades da Marvel e de Star Wars, a adotar um modelo de desenvolvimento com prioridade para IA. As informações também apontam para o uso de ferramentas generativas na criação de código e arte, além de um adiamento do projeto. A Epic não havia anunciado publicamente todos os detalhes do jogo.

O caso ilustra como a discussão deixou de ser apenas teórica. Enquanto parte do setor vê a IA como uma forma de tornar o desenvolvimento mais eficiente, outros profissionais temem que a adoção acelerada dessas ferramentas altere postos de trabalho e limite oportunidades para artistas, roteiristas e programadores.

O valor do trabalho humano nos grandes jogos

Ao falar sobre a Naughty Dog, Radford defendeu a importância de manter a possibilidade de produzir jogos com alto grau de elaboração artística. Sua fala não representa necessariamente uma rejeição a toda tecnologia nova, mas um alerta sobre o que pode se perder quando eficiência e escala passam a ser os principais critérios de produção.

Jogos como “The Last of Us Part II” combinam atuação, captura de movimento, escrita, animação, modelagem e direção visual em uma produção coletiva. A tecnologia é parte fundamental desse processo, mas a reflexão de Radford destaca que as ferramentas, por si só, não explicam o resultado: as escolhas e a experiência das pessoas também moldam a identidade de cada obra.

O futuro do desenvolvimento de jogos dependerá de como os estúdios equilibrarão inovação, orçamento, prazos e participação humana. Para Radford, existe o risco de que alguns dos títulos mais elaborados da atualidade acabem sendo lembrados como exemplos de uma fase excepcional, quando ainda era possível reunir grandes equipes para criar cada detalhe de um mundo virtual.

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