Será que o terror do ano bebeu na fonte dos animes? O filme ‘Obsessão’ (‘Obsession’, 2026), dirigido por Curry Barker, gerou uma onda de teorias e comparações entre os fãs, que notaram paralelos com o anime ‘Mirai Nikki’ (‘Future Diary’).
Até aqui, o diretor não confirmou qualquer inspiração em anime, então tudo não passa de teoria da comunidade, mas os arquétipos e as dinâmicas dos personagens ecoam bastante as convenções das produções japonesas. (Alerta de spoilers para o filme e o anime.)
Nikki, Yuno e a transformação de “tsundere” em “yandere”
O primeiro ponto vem do nome: muita gente acha que Nikki, a protagonista, é uma homenagem direta a ‘Mirai Nikki’, cujo título significa “diário do futuro”. Em alguns espaços de discussão, o filme chega a ser chamado de sucessor espiritual de ‘Future Diary’, anime em que Yuno Gasai se tornou uma das grandes referências do arquétipo yandere.
A mudança de personalidade também lembra: no início, Nikki tem traços de tsundere: alguém distante e durona que esconde sentimentos amigáveis. Depois do desejo mágico feito por Bear, ela se torna a versão ocidental perfeita da yandere: o tipo de personagem que, de tão obsessiva, recorre à violência e ao assassinato para “proteger” o alvo do amor. É a marca de Gasai Yuno.

Na dinâmica do casal, o paralelo continua. Em ‘Mirai Nikki’, Yukiteru (Yuki) é um garoto covarde, passivo e dependente da proteção violenta de Yuno, e Bear reflete essa fraqueza: incapaz de conquistar Nikki naturalmente, ele apela a forças sobrenaturais, o One Wish Willow, para forçar o amor dela. Nas duas obras, o casal é tóxico e destrutivo: ambos os protagonistas ficam horrorizados com os atos violentos das parceiras, mas continuam presos por incapacidade de reagir ou pelo próprio ego.
A espiral de sangue “por amor” e o final trágico
A semelhança também aparece na violência. Assim como Yuno elimina quem se coloca entre ela e o amado, a “nova” Nikki perde os limites morais e mata personagens próximos, como Sarah e Ian, porque eles atrapalham o casal. Ambas as obras usam o assassinato como ferramenta para mostrar que, na mente distorcida dessas personagens, os atos são “puro amor”.

O desfecho segue o mesmo tom de desespero. No clímax de ‘Obsessão’, um ato final de Bear quebra o efeito do desejo, e Nikki recupera o controle de si, desabando ao ver a pilha de corpos e os crimes que cometeu. É um tom trágico parecido com as revelações apocalípticas de Yuno e Yuki no fim de ‘Mirai Nikki’, em que o amor obsessivo cobra o preço mais alto possível.
Um desejo que age como programação e a lógica de videogame
Há ainda a ideia da perda de livre-arbítrio. Em ‘Obsessão’, o desejo de Bear tem a redação exata “você me ama mais do que qualquer pessoa no mundo?”, e o salgueiro funciona como um algoritmo: lê a mente distorcida de Bear e obriga o corpo de Nikki a seguir apenas aquele objetivo, anulando as vontades dela e deixando sua mente como uma passageira impotente.
Em ‘Mirai Nikki’, o Diário do Yukiteru faz algo parecido, prevendo tudo o que acontece com Yuki a cada dez minutos, o que faz de Yuno uma máquina biológica focada em um único alvo.

Os dois mundos também compartilham uma lógica de videogame: nas duas obras, artefatos sobrenaturais caóticos transformam relações humanas em mecânicas frias de causa e efeito, como o famoso aviso de “DEAD END”.
Tanto o salgueiro quanto os diários pegam os desejos mais egoístas de pessoas instáveis e os transformam em ferramentas de destruição. E, vendo a idade de Curry Barker, é plausível que ele tenha assistido ao anime na época em que fazia sucesso, já que a maioria dos jovens hoje conhece anime. Mas isso, por enquanto, é só especulação.
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