Por que tanta gente odeia o 3º Hokage, mesmo com o Naruto o idolatrando até hoje?

Luiz Gustavo Gonçalves

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Poucos personagens dividem tanto os fãs quanto o velho safado do cachimbo! Hiruzen Sarutobi, o Terceiro Hokage, é idolatrado por Naruto e criticado por boa parte do público. A dualidade nasce do choque entre a narrativa pensada por Masashi Kishimoto e a interpretação lógica dos fatos que os fãs fazem.

Hiruzen não é um velho puramente negligente nem o “pai perfeito” da vila: é um líder pragmático, moldado por traumas, operando no limite de um sistema cruel. (Alerta de spoilers.)

A defesa do “Deus dos Shinobi”: o contexto que explica as decisões

Para entender Hiruzen, é preciso lembrar de onde ele vem. Ele cresceu na Era dos Estados Combatentes, foi treinado pelo Primeiro e pelo Segundo Hokage e viveu de perto as grandes guerras ninjas, uma geração em que crianças eram jogadas no campo de batalha muito cedo, como a de Kakashi e de Itachi.

Nessa ótica, o que ele fez por Naruto foi, para os padrões ninjas, um ato de benevolência: garantiu ao órfão da Raposa uma moradia, uma mesada e a proteção do anonimato.

Reprodução – Studio Pierrot / Masashi Kishimoto

Existe ainda o paradoxo da proteção pelo distanciamento. Adotar Naruto publicamente ou revelar o sobrenome Namikaze, do pai, faria dele alvo de todas as vilas inimigas que odiavam o Quarto Hokage. Além disso, demonstrar favoritismo por um jinchūriki poderia abalar o equilíbrio político com clãs como os Uchiha e os Hyūga. Do ponto de vista de Hiruzen, proteger de longe era a estratégia mais segura.

A acusação do “velho negligente”: o preço que Naruto pagou

O ranço dos fãs vem do impacto psicológico dessas escolhas em um Naruto criança. Hiruzen garantiu a sobrevivência física, mas falhou na saúde mental: deixar um menino de 6 anos morar sozinho, comer lámen instantâneo e ser tratado como monstro pela vila, sem apoio ativo, é, aos olhos modernos, negligência grave.

Há ainda a promessa a Kushina e Minato: o vazamento da informação de que Naruto era o jinchūriki fez o garoto crescer com muita rejeição.

Reprodução – Studio Pierrot / Masashi Kishimoto

E tem o pecado de Hiruzen como Hokage: a passividade. Como era alguém que odiava conflitos internos, ele deixou Danzo e a “Raiz” fazerem o trabalho sujo e lavou as mãos em eventos como o massacre do clã Uchiha e os experimentos de Orochimaru, agindo tarde demais.

Muitos fãs também apontam o efeito de retcon: no início, Naruto precisava ser o azarão absoluto, mas, quando a história revelou que o pai era o maior herói da vila e a mãe uma Uzumaki, do clã de Uzushio, as ações passadas de Hiruzen pareceram bem piores em retrospecto.

Essa leitura é dos fãs, e Kishimoto nunca confirmou que tenha mudado o plano. Apesar de que retcon é comum em qualquer anime que dure muito tempo.

A ironia: Naruto também teve que fazer as escolhas impossíveis

O mais curioso é que Naruto continua vendo o Terceiro como referência. Mesmo na época de ‘Boruto’, o Sétimo cita Hiruzen mais de uma vez como modelo de grande líder, o “ídolo” de Hokage em que se espelha.

Para quem nunca teve nada, o velho que pagava o lámen e conversava sem ódio era o mais próximo de um avô que ele teve, e isso explica o respeito eterno. Já o espectador, que viu o sofrimento do protagonista, enxerga em Hiruzen as falhas de um sistema ninja que consome as próprias crianças.

Reprodução – Studio Pierrot / Masashi Kishimoto

E a ironia é que Naruto, depois de adulto, viveu o mesmo dilema. Quando Momoshiki passou a ocupar o corpo do Boruto, Naruto ficou diante de uma decisão impossível: proteger o filho ou proteger o mundo. Ele não conseguiu resolver sozinho, e a ação coube a Sasuke e a Kawaki, os que toparam fazer o trabalho sujo.

Ou seja, Naruto acabou repetindo o que criticaria em Hiruzen: terceirizar a escolha mais dolorosa. No fim, o veredito é que Hiruzen foi um homem bom preso a um sistema ruim, que tentou governar com empatia, mas deixou a omissão falar mais alto, e Naruto, ao seguir o mesmo caminho, mostra que a dificuldade de liderar é mais humana do que parece.

Reprodução – Studio Pierrot / Masashi Kishimoto
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