A inusitada relação entre Pocket Bravery e Trajes Fatais

Vinicius Miranda

A história dos jogos de luta brasileiros guarda um capítulo curioso de frustração e superação. Tudo começa com “Trajes Fatais”, projeto promissor que nunca saiu do papel, e culmina em “Pocket Bravery”, fenômeno indie que conquistou o mundo. Os dois títulos, embora distintos, estão profundamente conectados pela trajetória de seus desenvolvedores. É a prova de que, no desenvolvimento de games, até as experiências amargas podem render grandes lições. Entenda como um projeto influenciou o outro.

Trajes Fatais: a promessa que não se concretizou

Trajes Fatais – Divulgação / Onanim

“Trajes Fatais” surgiu em 2009, idealizado por David Herculano e Onofre. A ideia era ousada e original: um jogo de luta no qual os personagens vestiam fantasias temáticas que alteravam suas habilidades. A proposta tinha tudo para inovar dentro do gênero e chamou atenção logo de cara.

Apesar do começo empolgante, o desenvolvimento foi marcado por problemas internos e atrasos repetidos. Segundo relatos de quem passou pelo projeto, a gestão conduzida por Onofre teria sofrido com mudanças frequentes de direção, o que causava retrabalho e frustração na equipe. Aos poucos, vários integrantes deixaram a produção, incluindo o próprio David Herculano. Mesmo com financiamento coletivo e apoio da comunidade, o jogo nunca chegou a ser concluído.

O nascimento de Pocket Bravery

Depois de anos de frustração com “Trajes Fatais”, alguns dos desenvolvedores envolvidos decidiram seguir um novo rumo. Entre eles estavam Jon Satella e Anderson Halfeld, que fundaram a Statera Studio e começaram a trabalhar em um projeto próprio: “Pocket Bravery”.

O novo jogo apostou em um estilo visual inspirado nos clássicos dos anos 1990, com personagens em formato chibi que remetem a títulos do Neo Geo Pocket Color, mas com uma pegada moderna e acessível. Diferentemente do projeto anterior, “Pocket Bravery” teve um desenvolvimento descrito como mais organizado e transparente, o que ajudou a conquistar a confiança da comunidade de jogadores ao longo de aproximadamente quatro anos de produção.

A conexão entre os dois projetos

Embora sejam jogos diferentes, “Trajes Fatais” e “Pocket Bravery” estão intrinsecamente ligados pela trajetória de quem os criou. A experiência acumulada e as lições aprendidas durante o turbulento desenvolvimento do primeiro foram fundamentais para o sucesso do segundo.

De certa forma, conceitos, mecânicas e ideias que circulavam em “Trajes Fatais” ajudaram a moldar o design de “Pocket Bravery”. A vivência difícil no projeto anterior serviu como uma espécie de aprendizado prático, permitindo à equipe da Statera refinar suas ideias e transformá-las em um produto final coeso e bem recebido pelo público.

O reconhecimento de Pocket Bravery

Pocket Bravery entre os indicados do TGA 2023 – Reprodução

O esforço valeu a pena. Lançado em 31 de agosto de 2023 para PC, “Pocket Bravery” rapidamente caiu nas graças dos fãs de jogos de luta. O reconhecimento veio em forma de prêmios: o título foi indicado a Melhor Jogo de Luta no The Game Awards 2023, disputando a categoria ao lado de gigantes como “Street Fighter 6” e “Mortal Kombat 1”.

Não parou por aí. O game também levou o prêmio de Jogo Brasileiro do Ano no Brazil Game Awards 2023, consolidando-se como um dos maiores orgulhos recentes da produção nacional. Em 2025, “Pocket Bravery” expandiu seu alcance com o lançamento para consoles, chegando a PlayStation, Xbox e Nintendo Switch.

O impacto no cenário indie brasileiro

A jornada que liga os dois jogos funciona como um símbolo de resiliência e aprendizado na indústria nacional. Enquanto “Trajes Fatais” permanece como a lembrança amarga de um projeto promissor que não vingou, “Pocket Bravery” representa a capacidade dos desenvolvedores brasileiros de superar adversidades e entregar games de qualidade.

Para o mercado, a lição é clara: talento criativo, sozinho, não garante o sucesso. Dedicação, transparência e uma boa gestão de projetos são igualmente essenciais para transformar uma boa ideia em um produto concluído. O contraste entre os dois títulos ilustra bem essa diferença.

Mais do que isso, essa trajetória inspira novos criadores Brasil afora. Ela mostra que tropeços fazem parte do caminho e que, com organização e persistência, é possível alcançar o reconhecimento internacional. O legado de “Pocket Bravery” segue incentivando o surgimento de novos títulos inovadores, reforçando o potencial criativo do desenvolvimento de games no país.

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