Robert Eggers não quer apenas assustar o público com lobisomens. Ele quer fazer você sentir que voltou à Idade Média! Conhecido por sua obsessão com detalhes históricos, o diretor de ‘A Bruxa’ e ‘O Farol’ está preparando ‘Werwulf’, novo filme de terror com estreia prevista para 25 de dezembro de 2026 nos Estados Unidos. E até o título da produção carrega uma pista sobre a maneira como Eggers pretende recriar o passado.
‘Werwulf’: o significado do título vai muito além de um lobisomem
Se você bateu o olho em ‘Werwulf’ e pensou que o nome estava escrito errado ou que era bem zuado, calma lá! A escolha tem um motivo histórico. O termo vem do inglês antigo, em que wer significa “homem” ou “humano”, enquanto wulf significa “lobo”. Juntando as duas palavras, chegamos à ideia de “homem-lobo”, justamente a criatura que inspira o terror do filme.
Mas por que não usar simplesmente werewolf, a grafia moderna em inglês? Porque o Robert Eggers é obcecado com a imersão histórica. Como a história se passa na Inglaterra medieval, adotar uma forma antiga da palavra ajuda a criar uma identidade própria para o longa e a aproximar o público do imaginário de uma época em que o folclore, a religião e o medo do desconhecido tinham um peso enorme na vida cotidiana.
A proposta combina com a trajetória do diretor, que costuma fugir de representações históricas excessivamente modernas. Em vez de colocar personagens medievais falando e se comportando como pessoas do século XXI usando figurinos antigos, Eggers busca construir um universo em que até a maneira de se expressar contribua para a sensação de estar diante de outro período histórico.
E claro, no caso de “lobis-homem“, é exatamente pela mesma lógica. Uma tradução mais apropriada e fiel ao sentido original.
Robert Eggers quer que os diálogos de ‘Werwulf’ soem medievais
A preocupação com a linguagem não termina no título. Robert Eggers escreveu o roteiro ao lado do autor islandês Sjón, com quem já havia trabalhado em ‘The Northman’. Para ‘Werwulf’, a produção aposta no inglês medieval, conhecido como Middle English, falado aproximadamente entre os séculos XI e XV.
A ideia é evitar palavras, expressões e conceitos que soariam estranhos para alguém daquela época. Isso também envolve considerar a posição social dos personagens: um camponês e um cavaleiro não necessariamente teriam o mesmo vocabulário, as mesmas referências ou a mesma maneira de interpretar o mundo. A linguagem, portanto, ajuda a construir diferenças entre as pessoas e a tornar os diálogos mais coerentes com o cenário.

Esse cuidado também passa pelo ritmo das falas, pelas expressões cotidianas e pelas referências religiosas que faziam parte da mentalidade medieval. O resultado pretendido é uma experiência em que o espectador não apenas veja castelos, roupas antigas e paisagens sombrias, mas também sinta que os personagens pertencem àquele universo.
E existe uma diferença importante aqui: o inglês antigo (Old English) e o inglês médio (Middle English) não são a mesma coisa. O título recupera uma forma antiga ligada à ideia de homem-lobo, enquanto a linguagem dos diálogos busca refletir o período medieval retratado. Essa distinção ajuda a entender por que Eggers dá tanta importância até mesmo às palavras escolhidas para nomear o filme.
De ‘A Bruxa’ a ‘O Farol’: a obsessão histórica é marca registrada de Eggers
Quem acompanha a carreira de Robert Eggers já conhece essa preocupação. Em ‘A Bruxa’ (2015), o diretor trabalhou com formas de inglês associadas ao século XVII e utilizou referências textuais da época para construir falas coerentes com o contexto puritano da história. O resultado ajudou a criar uma atmosfera em que a religião e a superstição parecem fazer parte da própria estrutura daquele mundo.
Em ‘O Farol’ (2019), a abordagem foi diferente, mas seguiu a mesma lógica. A produção explorou referências a dialetos marítimos do século XIX e à literatura de Herman Melville para dar personalidade aos diálogos. Em vez de tratar a linguagem como um detalhe, Eggers usa as palavras para reforçar a ambientação e a psicologia dos personagens.
Essa metodologia também aparece em outros projetos associados ao diretor. A intenção é que os personagens não pareçam apenas pessoas modernas vestidas para uma peça de época, mas indivíduos moldados pelos costumes, pelas crenças e pelas limitações do seu próprio tempo.

Com ‘Werwulf’, Eggers volta a explorar esse caminho em uma história de terror ambientada na Inglaterra medieval. O filme tem estreia prevista para 25 de dezembro de 2026 nos Estados Unidos e foi apresentado pela distribuidora Focus Features como uma história de devoção, condenação e do mal que existe dentro de nós.
Se o diretor conseguir combinar essa pesquisa histórica com o horror que já virou sua marca registrada, o resultado pode ser muito mais perturbador do que simplesmente colocar um lobisomem na tela. Afinal, para Eggers, o medo também está na maneira como as pessoas de outra época entendiam o mundo — e aquilo que acreditavam existir nas sombras.






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