O épico de Christopher Nolan é apenas o mais recente de uma longa tradição no cinema. O poema de Homero inspira diretores desde os primórdios da sétima arte.
Com a chegada de A Odisseia (The Odyssey), Christopher Nolan se junta a uma linhagem de cineastas que ousaram encarar um dos textos fundadores da literatura ocidental. O poema atribuído a Homero, que narra a longa e conturbada viagem de Odisseu de volta a Ítaca após a Guerra de Troia, já foi adaptado dezenas de vezes ao longo da história do cinema.
Nenhum desses antecessores contou com o orçamento estimado em 250 milhões de dólares, o elenco estelar ou as ferramentas modernas de efeitos visuais à disposição de Nolan. Valores em dólar, vale lembrar, variam conforme o câmbio. Ainda assim, várias dessas versões permanecem memoráveis. A seguir, um passeio por algumas das mais relevantes.
A Ilha de Calipso (1905)
A primeira adaptação da obra veio das mãos do francês Georges Méliès, o mesmo mago dos efeitos de Viagem à Lua. Em pouco mais de quatro minutos, e usando seu arsenal de truques como múltiplas exposições e dissolvências, Méliès interpretou o próprio Odisseu.
O curta combinava duas passagens distintas do poema, a batalha contra o Ciclope e as cenas na ilha de Calipso.
L’Odissea (1911)
Realizada quatro anos antes do clássico O Nascimento de uma Nação, a versão italiana dirigida por Francesco Bertolini, Giuseppe de Liguoro e Adolfo Padovan é considerada um dos primeiros grandes épicos do cinema.
Estreou em uma competição ligada às comemorações dos 50 anos da unificação da Itália. Em cerca de 45 minutos, entrega uma versão condensada, mas fiel, com Sereias, Cila e Caríbdis, Polifemo e os pretendentes que assediavam Penélope em Ítaca.
Ulisses (1954)

Talvez a adaptação mais lembrada até a chegada de Nolan. Dirigida por Mario Camerini, a superprodução ítalo-franco-americana trouxe Kirk Douglas no papel principal, ao lado de Silvana Mangano, que viveu Penélope e Circe, e Anthony Quinn.
Um detalhe curioso para os fãs de cinema, o lendário mestre do terror Mario Bava atuou como diretor de fotografia e supervisionou a sequência do Ciclope. Muitos ainda a consideram o padrão-ouro das versões de A Odisseia, e é a que mais deve gerar comparações com o novo filme.
Odissea (1968)

Para quem busca fidelidade e fôlego, esta minissérie italiana de quatro partes, com cerca de seis horas de duração, dirigida por Franco Rossi, é apontada por críticos como a adaptação mais completa já feita. A produção destaca não apenas os feitos heroicos de Odisseu, vivido por Bekim Fehmiu, mas também sua complexidade psicológica. Curiosamente, Mario Bava retornou ao universo de Homero, desta vez como codiretor.
A minissérie de 1997
Vencedora do Emmy, esta versão de três horas foi exibida pela rede americana NBC e dirigida por Andrei Konchalovsky. O elenco reunia Armand Assante como Odisseu, Isabella Rossellini como Atena e Christopher Lee em uma breve aparição como o vidente cego Tirésias.
A recepção crítica, no entanto, foi bastante dividida, com parte da imprensa considerando a produção uma leitura simplificada demais do material original.
O Retorno (2024)
A adaptação mais recente antes de Nolan escolheu um caminho mais intimista. Dirigido por Uberto Pasolini, O Retorno (The Return) foca no reencontro de Odisseu com Ítaca após vinte anos de ausência, dispensando monstros e efeitos grandiosos.
Ralph Fiennes vive um herói exausto e amadurecido, enquanto Juliette Binoche interpreta uma Penélope que suportou décadas de incerteza. O resultado é uma meditação silenciosa sobre amor, lealdade e o que o tempo pode ou não levar embora.
Ecos de Homero em outras obras
Vale lembrar que a influência do poema vai muito além das adaptações diretas. A jornada do herói que enfrenta obstáculos para voltar para casa ecoa em filmes tão distintos quanto a comédia E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?), dos irmãos Coen, e até na animação futurista Ulisses 31, dos anos 1980.
A própria ideia de odisseia deu nome a marcos do cinema, como o clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick.
O que a versão de Nolan representa
A aposta de Nolan chega, portanto, carregada de história. O diretor construiu sua reputação com narrativas complexas e ambições cada vez maiores, de Interestelar a Oppenheimer, longa que rendeu a ele o Oscar e no qual trabalhou ao lado de Matt Damon, agora seu Odisseu. Encarar o épico dos épicos parecia um passo natural em sua trajetória.
Para o público brasileiro, conhecer essa linhagem enriquece a experiência de assistir à nova produção. Cada geração encontrou na jornada de Odisseu um espelho de suas próprias inquietações, e a versão de Nolan é apenas o capítulo mais recente de uma história que o cinema conta e reconta há mais de um século.




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