Daniel Ahmad compara a decisão da Sony à retirada do drive de CD dos laptops da Apple. Ele defende que a briga dos jogadores deveria ser outra.
A decisão da Sony de encerrar a produção de discos para novos jogos de PlayStation em 2028 segue rendendo debate acalorado. Agora, uma leitura mais fria do caso veio de Daniel Ahmad, analista da consultoria Niko Partners. Em uma longa publicação no X, ele argumenta que a migração para o digital aconteceria mais cedo ou mais tarde, e que os jogadores podem estar mirando no alvo errado.
A analogia com a Apple
Provocado por um usuário que comparava o caso à remoção da entrada de fones de ouvido dos iPhones, o analista propôs outro paralelo. Para ele, a situação lembra mais a Apple abandonando o drive de CD em seus laptops, a partir de 2008.
À época, segundo Ahmad, houve muitas reclamações. Hoje, praticamente ninguém sente falta. Ele acrescenta uma ironia que resume o clima atual do mercado, em tradução livre:
Desta vez, um laptop novo vai custar 5 mil dólares, e o meu antigo, com drive de disco, funciona muito bem.
Os números por trás da decisão

O analista sustenta o argumento com dados. As vendas digitais de jogos completos no PlayStation saltaram de menos de 10% antes do PS4 para cerca de 80% hoje. No ecossistema do Xbox, o índice passaria dos 90%.
Ahmad também observa que metade dos jogos mais jogados no PS5 sequer sai em disco, caso de títulos como Fortnite e Call of Duty. E, embora 70% dos PS5 vendidos até hoje tenham leitor, ele afirma que a taxa atual de venda dos modelos exclusivamente digitais já supera os 50%. A tendência, portanto, seria irreversível.
Convém registrar, no entanto, que o próprio analista reconhece um contraponto importante: cerca de 70 milhões de jogos em disco foram vendidos em 2025. Não é um mercado morto.
Dinheiro e controle
Na avaliação de Ahmad, a motivação é direta. Sony e publicadoras prefeririam vender tudo em digital pelas margens maiores, e o formato ainda tem o efeito colateral de eliminar o mercado de usados, garantindo um ecossistema fechado.
Ele conecta a medida ao futuro. O analista projeta que o PS6 chegará a um mercado em que consoles podem passar dos mil dólares, o que reduziria a base de jogadores e forçaria a Sony a extrair mais receita de quem restar. Em suas palavras, os consoles deixaram de ser aparelhos de massa a 199 dólares. Vale a ressalva de que valores no Brasil dependem de câmbio e impostos.
A crítica e o outro lado
Apesar da leitura pragmática, Ahmad não poupa a Sony. Ele considera um erro a forma como a empresa comunicou a mudança, sem esclarecer o destino dos discos atuais. Um programa de conversão de disco para digital, ou a confirmação de um leitor acessório para o PS6, teriam amenizado a reação. Ele duvida que a companhia volte atrás, mas espera esclarecimentos.
O analista defende ainda que jogos físicos usados aumentam a acessibilidade, e que a Sony poderia manter o formato por mais alguns anos. Não por acaso, a Nintendo segue apostando no físico no Switch 2.
É justo apontar que a analogia com a Apple tem críticos. Argumenta-se que um laptop permite copiar e arquivar arquivos livremente, algo que discos de console não oferecem, e que lojas de PC não sofrem os apagões de gerações inteiras, como já ocorreu com PS3 e Vita. Comparar digital de PC com digital de console, portanto, seria simplificar demais.
A conclusão de Ahmad, essa, dificilmente divide opiniões: o debate precisa migrar para direitos do consumidor e para o que uma licença digital deveria permitir. Presentear, compartilhar em família, reembolsar. Essas, para ele, são as batalhas que realmente importam.




Seja o primeiro a comentar