As pessoas estão parando de ver anime? Por que Naruto e DBZ continuam tão grandes?

Luiz Gustavo Gonçalves

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Lembra quando o Brasil inteiro parava para ver o mesmo episódio? Naquela época, ‘Dragon Ball’, ‘Naruto’ e ‘One Piece’ eram assunto de recreio, de grupo de amigos e de fila de locadora, e parecia que o anime estava em todo lugar ao mesmo tempo.

Hoje, muita gente sente que nenhum anime chega nesse patamar. Mas será que isso quer dizer que as pessoas pararam de ver anime? A resposta é não, bem pelo contrário, e os números provam.

A era em que todo mundo assistia ao mesmo episódio

Era um outro mundo: poucos canais – muita audiência concentrada e a sensação de onipresença. Milhões de pessoas recebiam o mesmo estímulo ao mesmo tempo, e foi assim que ‘Naruto’ e ‘Dragon Ball’ se tornaram fenômenos gigantescos, com centenas de episódios, momentos emocionantes e uma marca jovem que dominava o mercado.

Até hoje esse legado pesa: em 2024, ‘Naruto Shippuden’ acumulou centenas de milhões de horas de visualização na Netflix, com um levantamento global registrando 225,7 milhões de horas na plataforma.

Reprodução/Naruto

E esse sucesso era tão grande que virou até motivo de inveja entre os mestres: Eiichiro Oda já disse que invejava o sucesso mundial do anime de ‘Naruto’, enquanto Masashi Kishimoto invejava o número de vendas de ‘One Piece’.

Os gigantes continuam fortes: a Toei Animation anunciou um plano de 10 anos com cerca de US$ 450 milhões em investimento para expandir a produção, com ‘Dragon Ball’ e ‘One Piece’ entre as marcas do estúdio.

Por que hoje parece que ninguém assiste ao mesmo anime?

A resposta está em como a gente consome. Antigamente, eram menos canais, maior concentração e a sensação de que todo mundo via a mesma coisa. Hoje, são muitos canais, a audiência se espalha e a descoberta é constante.

O resultado é uma perda do referencial comum: você pode nunca ter ouvido falar de um influenciador com milhões de seguidores, ou de um anime que está bombando entre a molecada.

Maki enfrentando o clã Zen'in
Reprodução – TOHO Animation/JUJUTSU KAISEN

Ou seja, a internet pode fazer ‘Jujutsu Kaisen’ parecer menos “universal” para quem não frequenta esse ambiente, enquanto milhões de jovens consomem, compartilham e criam conteúdo sobre a série ao mesmo tempo.

É como viver num multiverso de assuntos: a sensação de evento coletivo mudou, mas a audiência não sumiu, só mudou de endereço. Em suma, o “referencial comum” vai se perdendo cada vez mais para qualquer assunto. Quem nunca ouviu falar pela primeira vez há pouco tempo de alguma influenciadora com milhões de seguidores?

Os números mostram um anime maior do que nunca

Os dados não deixam dúvida. Segundo a AJA, o mercado global de anime cresceu 15% e bateu um recorde de 3,84 trilhões de ienes em 2024, cerca de US$ 25 bilhões. E o motor desse crescimento está lá fora: o faturamento no exterior representou 56% do total e subiu 26%, enquanto o mercado japonês cresceu só 2,8%.

‘Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – O Castelo Infinito’ (Divulgação/Crunchyroll)

Entre os jovens, o cenário é ainda mais forte. Uma pesquisa encomendada pela Crunchyroll mostrou que cerca de 54% da Geração Z (13 a 28 anos) se declara fã de anime, à frente da NFL (48%) e do BTS (39%). Nos Estados Unidos, 42% da Geração Z assiste anime toda semana, contra apenas 3% dos boomers. Quanto mais novo o público, maior a presença do anime, e o TikTok ajuda muito: 40% dos fãs dizem descobrir séries novas por fan edits no TikTok e no Instagram.

‘Demon Slayer’, ‘Jujutsu Kaisen’ e a nova geração de gigantes

Se ‘Naruto’, ‘Dragon Ball’ e ‘One Piece’ são insuperáveis, isso não significa que os animes atuais precisem repetir a mesma popularidade para provar que o meio é mainstream. O mecanismo de popularização é outro, e ‘Demon Slayer’ é o melhor exemplo. ‘Mugen Train’ passou de US$ 500 milhões e chegou a US$ 506,5 milhões no registro do Guinness, em dezembro de 2022.

Já ‘Castelo Infinito’ foi além: cerca de US$ 794 milhões no mundo, segundo o Box Office Mojo, o que o tornou o filme de anime de maior bilheteria da história.

akaza demon slayer filme
Divulgação – Crunchyroll, Shueisha/Koyoharu Gotouge

No Brasil, a estreia de ‘Castelo Infinito’ arrecadou cerca de R$ 23,4 milhões (US$ 4,4 milhões), a maior estreia de um anime na história do nosso cinema. Depois, o filme passou de 2 milhões de ingressos e de R$ 44 milhões.

E tem mais: ‘Solo Leveling’ chegou quase do nada, a partir de um manhwa pouco conhecido por aqui, e virou um dos animes mais assistidos e comentados dos últimos anos. Tudo isso prova que o público não só continua assistindo, como lota cinemas.

Reprodução – A-1 Pictures

Os clássicos continuam fortes e o anime invadiu a cultura pop

Os veteranos também seguem firmes. Quando o live-action de ‘One Piece’ estreou na Netflix, em 2023, chegou ao topo da plataforma com 18,5 milhões de visualizações em quatro dias, entrou no Top 10 de 93 países e estreou em primeiro lugar em 46.

A Netflix também informou que o trailer ajudou a gerar mais de 4 bilhões de impressões de busca para #onepiecenetflix no TikTok, e que o live-action teve 72 milhões de visualizações no segundo semestre de 2023, mais que dobrando a audiência do anime e dos filmes da franquia. Os card games de ‘One Piece’ e ‘Pokémon’ também fazem enorme sucesso.

Divulgação – One Piece, Netflix

E ‘Naruto’ segue no radar: o live-action será escrito e dirigido por Destin Daniel Cretton (‘Shang-Chi’), que obteve a bênção de Kishimoto depois de uma visita a Tóquio. Hoje é comum ver produtos de anime em lojas de shopping, de rua e até de luxo, além de brindes no Burger King e no McDonald’s, e artistas gigantes como Michael B. Jordan, Damiano David, The Weeknd e Linkin Park falando abertamente de anime.

Um dos motivos para esse sucesso todo é que o anime se complementa com o mangá, com uma história única e uma linha do tempo fácil de assimilar, diferente das HQs. Então, se você sente falta daquela época em que todo mundo via o mesmo episódio, saiba que a paixão não acabou, só ganhou mais lugares para viver.

Divulgação – Shueisha/Masashi Kishimoto
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