Capitão América da Hydra pode ser novo grande vilão das HQs

Andre Luiz

Poucos personagens carregam o peso simbólico do Capitão América dentro da Marvel Comics. Desde a Era de Ouro, quando rivalizava diretamente com os grandes nomes da concorrência, Steve Rogers já se destacava.

Até seu retorno triunfal décadas depois, ele sempre representou uma espécie de bússola moral para o universo editorial da casa. Justamente por isso, uma decisão criativa do meio dos anos 2010 caiu tão mal entre o público: transformar aquele símbolo em traidor.

O escândalo editorial de 2016

A publicação que iniciou a polêmica revelou, sem meias palavras, que o Capitão América sempre havia sido um infiltrado da Hydra. Não se tratava de um clone, nem de uma versão alternativa vinda de outra realidade. Era o mesmo herói que os leitores acompanhavam desde a infância da própria Marvel, agora reescrito como peça de um plano fascista de décadas.

O enredo culminou no evento Império Secreto. Ali, essa versão sombria do herói usa toda sua experiência de estrategista contra os próprios aliados, ajudando a Hydra a tomar o controle dos Estados Unidos.

A reação dos fãs foi imediata e hostil. Não é difícil entender o motivo: profanar um símbolo criado por autores judeus às vésperas da Segunda Guerra soa, para muita gente, como um exagero editorial sem necessidade. Ainda assim, a Marvel tomou uma decisão curiosa depois da tempestade inicial. Em vez de apagar essa versão do personagem da continuidade, optou por deixá-la latente, disponível para uso futuro.

De prisioneiro dos mutantes a Flag Smasher

Foi exatamente isso que aconteceu durante a Era Krakoa: esse Capitão América sombrio ressurgiu, liberto pela organização Orchis para ser usado como arma contra os mutantes. Dali, ele acabou assumindo uma nova identidade dentro do universo dos quadrinhos, tornando-se o novo portador do título de Flag Smasher.

A escolha não é aleatória. O Flag Smasher clássico sempre foi retratado como um anarquista disposto a destruir governos em nome da liberdade individual. Ao herdar esse nome, a versão sombria do Capitão inverte completamente a lógica original: ele também quer destruir os governos do mundo, mas para reconstruí-los à imagem da ordem totalitária que o formou.

Um arsenal narrativo praticamente intocado

O que chama atenção é o quanto esse potencial segue subaproveitado. Trata-se de um personagem que compartilhou décadas de batalhas, confidências e vitórias ao lado de praticamente todo o panteão de heróis da Marvel.

Isso significa que ele tem munição emocional para se voltar contra qualquer um deles: Bucky Barnes e Sam Wilson são os alvos óbvios, mas nomes como Thor, Wolverine, Gavião Arqueiro e Feiticeira Escarlate também carregam décadas de confiança depositada em alguém que, segundo a própria história, estava mentindo o tempo todo.

Reprodução/Marvel Comics

Some-se a isso o carisma natural do personagem. Ele sempre foi descrito nos quadrinhos como um líder nato, capaz de convencer qualquer pessoa a segui-lo até situações extremas. Transposto para essa versão sombria, esse mesmo carisma vira ferramenta de manipulação em massa, com potencial real de erguer um exército pessoal de seguidores fanáticos.

Uma lição a aprender com os erros da concorrência

Existe um paralelo direto na DC Comics que pode servir de alerta. O Batman Que Ri, criado no evento Dark Nights: Metal, também nasceu como uma ideia poderosa: um Batman corrompido pelo próprio Coringa.

O problema veio depois. A editora exagerou na dose, colocando o personagem em praticamente todo lançamento relevante até o público se cansar por completo. Sua morte em Dark Nights: Death Metal foi recebida com alívio por boa parte dos fãs, cansados do excesso de exposição.

A Marvel tem, nas mãos, a chance de acertar exatamente onde a rival errou. Manter esse Capitão América sombrio vivo, mas sem forçar sua presença constante, poderia transformá-lo num antagonista de peso quando realmente necessário, e não em mais um rosto recorrente que perde força pela repetição.

Ecos de uma polêmica que nunca desapareceu de vez

A repercussão daquela reviravolta de 2016 foi tão grande que a própria editora precisou se pronunciar publicamente, pedindo que os leitores esperassem o desfecho da história antes de tirar conclusões precipitadas.

Vale lembrar, também, que a ligação entre a Hydra e os inimigos históricos do herói não nasceu com essa polêmica específica: a própria linhagem do Barão Zemo, um dos maiores adversários de Rogers também nos cinemas, carrega vínculos antigos com a organização. Resta saber se, algum dia, a Marvel vai decidir explorar de verdade o potencial desse vilão que criou quase sem querer.

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