O Capitão América costuma ser lembrado como o símbolo definitivo de um sonho americano quase inalcançável. Ele é o herói que serve de alicerce para praticamente todos os outros grandes nomes da Marvel. Mas nem sempre Steve Rogers usou esse título. A identidade que ele adotou em seu lugar, há exatos 39 anos, acabou se tornando bem mais significativa do que qualquer um poderia imaginar na época.
Houve um momento em que Steve Rogers decidiu abrir mão do escudo, das estrelas e das listras. Ele era incapaz de reconciliar suas próprias convicções com o que o governo dos Estados Unidos exigia dele. Steve escolheu largar o manto. Ele acabou sendo assumido por alguém bem mais disposto a obedecer ordens de cima: John Walker.
Steve planejava se afastar de vez da vida de herói. Como todo mundo sabe, porém, ele nunca conseguia ficar longe por muito tempo. Com Walker empunhando o escudo, Steve precisava de uma nova identidade. Ela nasceu há exatos 39 anos, em Captain America #337, quando Rogers se tornou o Capitão. Assim, começou um arco que ninguém poderia prever.
Um novo capitão para um sonho antigo
Como já mencionado, Steve tentava se manter longe da vida de herói. Quando seus antigos aliados o encontraram pedindo ajuda, ele não conseguiu recusar. Ainda assim, precisava de uma forma de esconder sua identidade.
Foi quando ganhou uma nova versão preta do traje do Capitão América, sem os elementos ligados diretamente aos Estados Unidos. Steve vestiu esse traje e passou a se chamar apenas o Capitão.
Em vez de representar o que a América poderia ou deveria ser, ele se tornou algo diferente: um símbolo do que qualquer pessoa deveria ser. Era o Capitão, ou seja, alguém a quem todos recorriam em busca de orientação. Foi uma forma perfeita de evoluir o papel de Steve sem abandonar completamente seu status e apelido.
Dar a Steve uma identidade não vinculada a nenhum país deu a ele a chance de crescer como herói. Isso não era possível antes. A mudança o libertou das amarras de pertencer a um único lugar ou ideologia.
Foi justamente durante essa fase como o Capitão que Steve ergueu o Mjolnir pela primeira vez. Isso provou que, em sua essência, ele era um homem bom o bastante para que até o martelo de um deus o reconhecesse. Tornar-se um novo herói foi uma declaração e tanto para Rogers. Ele mostrou ao mundo que continuaria lutando por todos, como um símbolo, não importasse o que acontecesse.

Uma identidade que se tornou muito mais
A parte mais interessante dessa fase de Steve Rogers como o Capitão é o que aconteceu depois. Ele voltou a ser o Capitão América logo em seguida.
Durante seu período no traje preto, John Walker atuava como o Capitão América oficial, nomeado pelo próprio governo. Ele amava seu país com tanta intensidade que isso frequentemente o colocava em conflito com Steve, que amava mais a ideia do que a América poderia ser do que a realidade dela.
Eventualmente, foi revelado que a mente por trás de forçar Steve a abandonar o traje era ninguém menos que o Caveira Vermelha. Os dois Capitães precisaram trabalhar juntos para detê-lo. Depois disso, Walker devolveu o manto de Capitão América. Esse, porém, não foi o fim da história.
Walker ressurgiu mais tarde usando o antigo traje preto de Steve, agora sob o nome de Agente Americano. Novamente, ele se tornou um guerreiro lutando pela nação, exatamente como seu país pedia. Ele virou um paralelo bem interessante de Rogers, transformando o figurino que antes representava liberdade em relação à América num símbolo da própria força do país.

John Walker é um personagem bastante complexo, mais próximo de um antivilão do que qualquer outra coisa, disposto a abrir mão de sua moral pessoal em nome de ordens ou do próprio país. Em seu pior momento, ele é um reflexo do que Steve poderia ter se tornado: um lacaio da América lutando por seus interesses, em vez de por seu sonho.
No fim das contas, o traje do Capitão e o de Agente Americano se tornaram uma das identidades mais interessantes já criadas pela Marvel. Eles colocaram dois homens em arcos de personagem iguais, mas opostos. Basta lembrar o momento em que Walker recebeu esse mesmo nome, Agente Americano, na série Falcão e o Soldado Invernal.
Essa dinâmica entre os dois personagens já rendeu bons momentos também fora dos quadrinhos. Vale lembrar que, na própria série, a disputa pelo escudo original de Steve já havia sido explorada em detalhes, com direita a tentativa do Falcão de recuperar o objeto das mãos de Walker.
Devemos tudo isso a uma única edição, lançada há 39 anos.






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