Círculo de Fogo: as expressões criadas por Guillermo del Toro para o filme

Andre Luiz

Em 2010, o gênero kaiju parecia condenado ao esquecimento nos cinemas. Foi nesse cenário improvável que Guillermo del Toro assumiu a direção de um projeto que reacenderia todo o interesse por monstros gigantes. O próprio cineasta acaba de revelar os dois conceitos que fizeram tudo funcionar.

Godzilla não pisava nas telonas americanas havia uma década. Sua versão americanizada havia fracassado, e a série japonesa também estagnou depois de Godzilla: Final Wars. Restava apenas o found footage de Cloverfield para saciar os fãs de monstros gigantes.

Então, duas coisas mudaram esse cenário. A Legendary Pictures, vinda do sucesso de Batman: O Cavaleiro das Trevas e Se Beber, Não Case, comprou os direitos da Toho para um novo filme de Godzilla fiel ao material original. Logo depois, a produtora adquiriu um tratamento de 25 páginas escrito por Travis Beacham. Um ano depois, Guillermo del Toro foi anunciado como diretor. A parceria resultou em Círculo de Fogo, sucesso de bilheteria em 2013 que reabriu as portas para toda uma nova geração de filmes de monstros gigantes.

Dois termos criados para dar vida ao filme

A reestreia em 3D de O Labirinto do Fauno, pelo aniversário de 20 anos do longa, trouxe del Toro de volta aos holofotes. Ele participou de uma sessão de perguntas e respostas no Reddit. A pergunta mais votada foi direta: um fã perguntou se ele voltaria a fazer um filme de kaiju ou robôs gigantes. Del Toro confirmou que adoraria. Ele ainda detalhou as duas filosofias que guiaram todo o processo criativo por trás de Círculo de Fogo: uma estética e uma de tom.

Eu lembro que, quando estávamos começando, eu cunhei dois termos. GothTech, que significa gótico e tecnologia combinados. O outro foi Smart-Stupid, que significa que a premissa não faz sentido nenhum, mas temos que tratar aquilo com a mais absoluta seriedade. Porque, claro, existem uma centena de formas de matar um monstro daquele tamanho antes de você dizer: por que não construímos um robô gigante? Mas eu disse que deveríamos tratar essa ideia realmente boba com toda a seriedade.

Reprodução/Legendary Pictures

Por que o conceito Smart-Stupid funciona tão bem

Del Toro reconheceu, logo de cara, que robôs gigantes provavelmente não seriam a forma mais prática de se defender contra monstros. Mas ao aceitar esse conceito absurdo e tratá-lo com respeito, o diretor construiu um mundo tangível para o público. A ILM e George Lucas venderam a credibilidade de uma space opera através de cenários usados e naves desgastadas. Del Toro fez algo parecido em Círculo de Fogo, dando peso e significado a cada detalhe.

Isso vale desde os trajes dos pilotos dos Jaegers até as explicações sobre como funciona a conexão neural entre eles. Tudo foi tratado como algo sério, não importa o quão bobo o conceito pudesse parecer na vida real. O robô Gipsy Danger pega um petroleiro e o usa como taco de beisebol numa cena marcante. O público compra a cena porque ela segue as regras já estabelecidas por aquele mundo.

GothTech já aparecia antes mesmo do nome existir

O outro termo cunhado pelo diretor é o GothTech. Del Toro inventou a expressão apenas em Círculo de Fogo, mas a estética já vinha aparecendo em seus filmes anteriores. A visão do cineasta para Blade II já se apoiava fortemente nesse estilo. O filme combinava o uso atmosférico da arquitetura de Praga, as armas engenhosas usadas pelo herói vampiro e um subplot romântico condenado ao fracasso.

Guillermo aplicou essa mesma técnica a Círculo de Fogo. Assim, criou um mundo com personalidade própria, com máquinas e kaijus carregando ornamentações únicas. A equipe chegou a construir catedrais gigantescas dedicadas não à religião, mas aos próprios mechs que salvam a humanidade.

Os Jaegers parecem mais cavaleiros blindados do que trajes de estilo anime. Filmes como Batman: O Retorno, A Cidade dos Sonhadores e Alien lançaram as bases para esse estilo. Coube a del Toro, porém, dar um nome próprio a ele.

O diretor, mais recentemente, tentou emplacar um terceiro filme de Hellboy. Ele sempre teve uma relação intensa e pessoal com suas franquias favoritas. Curiosamente, sua sensibilidade visual ainda ecoa em outros projetos da Marvel. Mostramos isso ao cobrir os planos para o reboot de Blade com Mahershala Ali, herdeiro direto daquele mesmo universo visual criado por del Toro décadas atrás.

O Labirinto do Fauno, seu maior sucesso, retorna aos cinemas em uma nova restauração em 4K e conversão para 3D no dia 9 de outubro de 2026.

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