Filmes de super-herói costumam esconder referências, mas raramente alguém de dentro explica cada uma. Will Dixon, creditado como assistente de artes gráficas em Homem-Aranha: Um Novo Dia, resolveu detalhar o próprio trabalho nas redes, e o resultado agradou aos fãs de quadrinhos.
A ponte entre televisão e cinema
O detalhe mais comentado apareceu em uma cena de beco. Espectadores atentos notaram cartazes rasgados de campanha eleitoral de Wilson Fisk colados em uma caçamba.
A origem daquele material é o ponto interessante:
Recebemos vários cartazes do prefeito Fisk e da Força-Tarefa de Vigilantes vindos do departamento de arte da segunda temporada de Demolidor: Renascido. Eu provavelmente era a única pessoa do departamento de arte de Um Novo Dia que sabia como isso era empolgante, porque a segunda temporada ainda estava sendo filmada enquanto fazíamos o filme.
A informação vale mais do que parece. Ela mostra departamentos de séries e filmes trocando material em tempo real, algo raro naquela estrutura.
A homenagem que ninguém consegue ver
O caso mais tocante envolve uma lata de comida. Frank Castle, personagem de Jon Bernthal, aparece comendo pimenta enlatada em determinado momento.
O rótulo daquela lata carrega um nome específico:
Eu desenhei o rótulo da lata de pimenta que o Frank segura. Infelizmente, a frente dela nunca aparece, mas batizei a marca com o nome do cocriador do Justiceiro, Gerry Conway. É uma pena que ele tenha partido antes de poder ver Um Novo Dia.
O roteirista morreu em abril deste ano, aos 73 anos. Ele criou o personagem em 1974, ao lado dos artistas John Romita Sr. e Ross Andru, justamente em uma revista do Homem-Aranha.
Quem foi o homenageado
A contribuição dele à editora vai muito além. Conway escreveu a morte de Gwen Stacy e criou o clone Ben Reilly.
Vale registrar também a postura pública dele. O escritor criticou abertamente o uso do símbolo do Justiceiro por forças policiais, lembrando que se trata de um fora da lei. Aquela discussão ganhou eco entre os intérpretes. O próprio Bernthal também se manifestou contra a apropriação do símbolo em contexto político.
Para quem não acompanha os quadrinhos, uma nota rápida. O Justiceiro estreou como adversário do herói e só depois virou anti-herói com revista própria. A homenagem, portanto, cai bem dentro de um filme do aracnídeo.
A referência que veio dos quadrinhos
Há ainda um detalhe menos sombrio. O artista criou um cartaz de propaganda de cachorro-quente empanado, colocado em uma das janelas de um estabelecimento conhecido dos fãs.
O texto daquele cartaz cita uma edição específica de uma revista dos anos 2000. Segundo ele, aquela história o marcou na infância justamente porque o petisco não existe no Reino Unido.
Por que isso importa
Detalhes assim explicam a sensação de universo habitado. Elementos de séries aparecem em filmes sem alarde, e homenagens a criadores ficam escondidas mesmo quando ninguém as vê. Existe uma ironia bonita no caso da lata. O trabalho foi feito sabendo que talvez nunca aparecesse, o que diz bastante sobre o cuidado de quem monta esses cenários.
O trabalho de arte também dialoga com outras produções da casa. A série que originou aqueles cartazes reúne personagens que passaram anos fora do universo principal, o que dimensiona o valor da troca entre as equipes.
Sobre o filme
A produção vive momento excepcional de bilheteria. A abertura arrecadou cerca de 355 milhões de dólares no mercado norte-americano, atrás apenas de Vingadores: Ultimato. Valores em moeda estrangeira variam conforme o câmbio.
Homem-Aranha: Um Novo Dia segue em cartaz nos cinemas brasileiros. Quem já assistiu tem agora um bom motivo para reparar nas caçambas de lixo.






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