A Odisseia: tradutora do original detona roteiro de Nolan

Andre Luiz

Poucas críticas chegam com tanta autoridade quanto esta. Emily Wilson assina a tradução de Homero que Christopher Nolan usou como base. Foi ela quem publicou um texto demolidor sobre A Odisseia, na revista London Review of Books. Ela é professora e chefe do departamento de estudos clássicos da Universidade da Pensilvânia, o que dá peso específico ao que escreveu.

O que ela escreveu

O argumento central é de descompasso entre escala e substância. Para a pesquisadora, o longa entrega grandiosidade visual. Falha, porém, naquilo que sustenta o poema original:

A Odisseia de Nolan não tem nada de convincente a dizer sobre tempo, memória, história ou guerra. Falta profundidade psicológica, emocional, política e ética.

Wilson também classificou a estrutura narrativa como artificial e afirmou que teria vergonha de ter assinado qualquer parte daquele roteiro. As críticas se estendem à motivação dos personagens, que ela considera pouco justificada.

A ironia do verso de abertura

Existe um detalhe que torna a situação particularmente incômoda. Nolan elogiou publicamente a primeira frase da tradução dela. O verso é construído em torno da ideia de um homem complicado, no sentido de contraditório e cheio de camadas.

Em participação no podcast Plain English, Wilson devolveu o elogio de forma ácida. Segundo ela, o resultado não é um filme complicado nem trata de um homem complicado. Seria apenas um herói de ação que se sente mal por ser um herói de ação.

Ao jornal The Sunday Times, acrescentou que a história não a tocou emocionalmente. O motivo apontado é simples: ela não recebeu razão alguma para se importar com o retorno do protagonista.

A Odisséia
Matt Damon como Odisseu – Divulgação/Universal Pictures

Ela não condenou o filme por inteiro

Convém registrar a outra metade do texto, geralmente esquecida nas manchetes. A própria Wilson afirma que o lançamento é motivo de comemoração, já que trouxe público de volta às salas de cinema.

Ela cita ainda que traduções do poema, inclusive a dela, estão esgotando nas livrarias. E diz esperar que o fenômeno convença universidades a não cortar departamentos de literatura, línguas e história. O fechamento é de agradecimento, por Nolan estar fazendo o público voltar a ler.

Essa ressalva importa por dois motivos. Primeiro, porque desmonta a ideia de que ela estaria simplesmente atacando o filme por vaidade profissional. Segundo, porque separa duas coisas diferentes: a qualidade da obra e o efeito cultural que ela produz.

O contraponto dos números

A posição dela é minoritária, e isso precisa ser dito. O filme acumula índices altíssimos de aprovação entre críticos e espectadores nos principais agregadores. A bilheteria já passou dos 649 milhões de dólares, e a cifra segue subindo.

Com 173 minutos, o longa reúne Matt Damon como Odisseu, além de Tom Holland, Anne Hathaway, Zendaya, Charlize Theron e Lupita Nyong’o. Está no elenco também Robert Pattinson, ator que o próprio Nolan já havia elogiado publicamente. Damon, por sua vez, já havia trabalhado com o diretor em Oppenheimer.

Vale acrescentar um dado de contexto que a discussão costuma ignorar. Zendaya, que integra o elenco, teve a agenda disputada entre este projeto e outras produções, sinal do tamanho que a produção assumiu ainda na fase de filmagens.

No fundo, o desacordo é sobre o que significa adaptar. Uma especialista lê buscando densidade, enquanto um blockbuster de IMAX opera por impacto e escala. As duas leituras podem estar certas ao mesmo tempo, e a discussão em si já é mais interessante do que qualquer nota em agregador.

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