Glen Schofield, criador de Dead Space, se aposenta aos 35 anos

Vinicius Miranda

O lendário diretor anunciou que deixa o trabalho diário no desenvolvimento de jogos após 35 anos de carreira. Ele se despediu em um vídeo emocionado publicado no LinkedIn.

Um dos nomes mais influentes do terror nos videogames está se despedindo dos bastidores. Glen Schofield, criador de Dead Space e de The Callisto Protocol, anunciou sua aposentadoria do trabalho do dia a dia no desenvolvimento de jogos. O comunicado veio por meio de um vídeo publicado em seu LinkedIn, encerrando uma trajetória de cerca de 35 anos que ajudou a moldar o gênero survival horror e passou também por franquias gigantes como Call of Duty.

A despedida no LinkedIn

No vídeo de aproximadamente quatro minutos, Schofield agradeceu à família, aos amigos, aos colegas de indústria e aos fãs que acompanharam suas criações ao longo das décadas. Emocionado, ele resumiu o momento com sinceridade:

Depois de 35 anos fazendo e dirigindo jogos, comandando equipes, chegou a hora de me aposentar oficialmente do trabalho do dia a dia. (tradução livre)

Ele fez questão de reconhecer o papel do público em sua carreira, dizendo que os fãs abriram as portas de casa para os jogos de sua equipe e que, ao apontar acertos e erros, o tornaram um profissional melhor. Também deixou um recado otimista para as novas gerações: apesar de reconhecer que a indústria vive um momento difícil, afirmou acreditar que o futuro é muito promissor.

De Barbie a Dead Space: uma carreira de mais de três décadas

A trajetória de Schofield começou em 1991, com o jogo Barbie: Game Girl, e passou por uma temporada na THQ. Durante boa parte dos anos 1990 e início dos 2000, ele trabalhou em títulos licenciados e adaptações de filmes, como O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, feito pela EA.

O grande salto veio em 2008, quando ele assumiu como produtor executivo de Dead Space, na Visceral Games, da EA. O jogo virou um marco do terror de sobrevivência, do tipo que fãs de clássicos como Until Dawn reconhecem de imediato. Depois disso, Schofield cofundou a Sledgehammer Games ao lado de Michael Condrey e passou a comandar três jogos da série Call of Duty, ampliando ainda mais seu prestígio na indústria.

The Callisto Protocol e os anos difíceis

Seu capítulo mais recente foi também o mais turbulento. Schofield fundou a Striking Distance Studios, sob a Krafton, para desenvolver The Callisto Protocol, um sucessor espiritual de Dead Space. Lançado em dezembro de 2022, o game recebeu críticas mistas e teve o azar de chegar às lojas cerca de um mês antes do aclamado remake de Dead Space, produzido pela EA.

Segundo relatos, o jogo não atingiu as expectativas de vendas da Krafton, e Schofield deixou o estúdio em setembro de 2023. Em 2025, o desenvolvedor revelou que enfrentava dificuldades para conseguir financiamento para um novo projeto, um problema comum em um cenário marcado por demissões em massa em grandes empresas do setor. Na ocasião, ele admitiu que um novo grande projeto AAA parecia distante e sinalizou que voltaria a se dedicar à arte.

Entre a arte e a inteligência artificial

Dead Space – Divulgação / EA

Não à toa, boa parte do foco atual de Schofield está justamente nas artes visuais e na inteligência artificial. O desenvolvedor tem se posicionado abertamente a favor do uso de IA no desenvolvimento de jogos, comparando os temores atuais a debates antigos, como o que cercou a captura de movimentos e o Photoshop no passado.

Segundo ele, a tecnologia sempre elevou o nível do trabalho e deve criar novas funções, ainda que difíceis de prever. Vale registrar, no entanto, que o tema divide a indústria: em meio à onda de demissões, muitos profissionais temem os efeitos da automação sobre os empregos. O próprio Schofield, ainda que entusiasta, já se mostrou cético em relação às promessas mais exageradas, como a de gerar um jogo inteiro do zero apenas com IA. Para ele, o caminho é encarar a ferramenta com naturalidade e aprender a trabalhar com ela.

Um legado que segue vivo

Independentemente dos altos e baixos, é inegável o tamanho da marca que Schofield deixa. Ao criar Dead Space, ele entregou uma das experiências de terror mais influentes já feitas, cujo DNA ecoa em inúmeros jogos até hoje. Com sua saída, o futuro da franquia passa a depender inteiramente da EA e do estúdio que ela venha a designar.

Ao se despedir, o veterano deixou claro que enxerga o presente com carinho e o futuro com esperança, torcendo pela próxima geração de criadores. Para quem cresceu se assustando nos corredores da nave Ishimura, fica a certeza de que o trabalho de Glen Schofield ajudou a definir o que o gênero de terror pode ser nos videogames.

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