Um dos maiores ícones da cultura pop japonesa quase teve um destino muito diferente. Conhecida mundialmente como símbolo da cultura kawaii, Hello Kitty atravessou décadas estampando produtos, coleções de luxo, parques temáticos e campanhas globais. Porém, segundo a designer Yuko Yamaguchi, houve um período em que a personagem enfrentou dificuldades comerciais e chegou a ter o futuro questionado dentro da própria Sanrio.
Em entrevista ao site Hobonichi, Yamaguchi relembrou os bastidores do processo que ajudou a transformar a personagem em um fenômeno internacional. A artista assumiu o comando criativo da gatinha em 1980, tornando-se a terceira designer oficial da marca.
Hello Kitty enfrentou baixa popularidade nos anos 1980
Quando entrou para a equipe da Sanrio, Yamaguchi revelou que inicialmente nem era fã da personagem. Ainda assim, aceitou o desafio de reposicionar a marca no mercado.
“Eu nem era fã”, afirmou a designer.
“Esse era meu maior objetivo desde o começo”, completou, ao explicar que queria transformar Kitty na personagem mais vendida da empresa.
Na época, outras criações da Sanrio dominavam a preferência do público, enquanto Hello Kitty era vista como simples demais. Segundo Yamaguchi, muitos consumidores sequer entendiam exatamente quem era a personagem.
“Comparada a eles, Kitty era tão sem graça”, contou.
“As pessoas perguntavam: ‘Quem é aquela gata?’ mesmo ela não sendo realmente uma gata.”
Designer ouviu críticas do público para reformular a personagem
Sem um departamento de marketing estruturado naquele período, Yamaguchi decidiu buscar opiniões diretamente com os consumidores. Ela chegou a distribuir desenhos feitos à mão em frente às lojas da Sanrio para entender como o público enxergava Kitty.
“Por favor, apoiem a Kitty”, dizia a designer aos clientes.
As respostas, segundo ela, eram bastante diretas. Muitos apontavam que o visual da personagem parecia repetitivo e pouco moderno.
“As roupas dela não são bonitas”, ouviu de alguns fãs.
“Ela não é fashion. O laço é sempre igual.”
Yamaguchi afirmou que levou todas as críticas em consideração durante o processo criativo.
“Se eu tivesse sido a criadora da Kitty, talvez não conseguisse ouvir palavras tão dolorosas. Mas, como designer, pensei: ‘Eles têm razão.’ Então consertei tudo o que pude.”
Criação de Tiny Chum ajudou a transformar Hello Kitty
Uma das grandes mudanças aconteceu após uma tendência envolvendo ursinhos de pelúcia dominar o Japão nos anos 1980. Inicialmente, Yamaguchi desenhou Kitty segurando um urso, mas o conceito ainda não parecia forte o suficiente.
Pouco depois, durante uma temporada de trabalho em San Francisco, nos Estados Unidos, a designer percebeu que o acessório precisava ganhar personalidade própria.
Foi assim que nasceu Tiny Chum, o urso amigo de Hello Kitty.
“Quando Tiny Chum apareceu, Kitty finalmente ganhou vida”, revelou.
O personagem ajudou a impulsionar a popularidade da marca não apenas no Japão, mas também em outros países da Ásia e nos Estados Unidos.
“Pela primeira vez, senti que Kitty estava respondendo para mim com felicidade.”
Mudanças visuais ajudaram personagem a se reinventar
A partir desse momento, a Sanrio passou a apostar em versões diferentes da personagem. Uma das ideias surgiu após uma fã sugerir que Kitty poderia aparecer vestida de abelha.
Mesmo com o amarelo sendo considerado uma cor pouco popular na época, a ideia acabou funcionando. O visual chamou atenção do público e abriu caminho para novas versões temáticas da personagem.
Com o passar dos anos, Hello Kitty também acompanhou tendências da moda, adotando diferentes estilos para se conectar com públicos variados, incluindo adolescentes e consumidores mais velhos.
Sanrio definiu limites para proteger imagem da personagem
Apesar das diversas adaptações e colaborações, Yamaguchi afirmou que sempre existiram restrições sobre quais tipos de produtos poderiam utilizar a imagem de Hello Kitty.
“Eu não quero que Kitty faça coisas que as pessoas odeiam. Ela nunca deve fazer ninguém se sentir mal. Essa é minha promessa aos fãs.”
A designer explicou ainda que alguns produtos nunca seriam aprovados pela Sanrio.
“Nós nunca vamos fazer isqueiros, preservativos ou bebidas alcoólicas fortes”, afirmou.
Segundo Yamaguchi, preservar a imagem de inocência e gentileza da personagem sempre foi uma prioridade da empresa.
Crise inicial ajudou Hello Kitty a virar fenômeno global
Ao revisitar a trajetória da personagem, Yamaguchi afirmou que os desafios enfrentados no início acabaram sendo fundamentais para o crescimento da marca. A estratégia de ouvir fãs e adaptar constantemente o design ajudou Hello Kitty a se transformar em um dos maiores símbolos da cultura pop japonesa.
Hoje, a personagem segue presente em diferentes áreas do entretenimento e do mercado global, incluindo moda, brinquedos, parques temáticos e campanhas internacionais.
Com décadas de história, Hello Kitty permanece como um dos personagens mais reconhecidos do mundo.



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