O ataque da Malenia que os jogadores de ‘Elden Ring’ mais odiaram tem uma lição de filosofia por trás

Luiz Gustavo Gonçalves

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Você provavelmente morreu para ele dezenas de vezes, mas já parou para pensar no que ele quer dizer? A Dança das Aves Aquáticas (Waterfowl Dance), o golpe mais temido da Malenia, em ‘Elden Ring’, é um dos ataques que mais irritam os jogadores.

Só que, por trás da frustração, existe uma leitura de lore sobre fluxo, estagnação e apego que dá um peso filosófico à luta. Vale deixar claro desde já: o que vem abaixo mistura descrições oficiais de itens com interpretação de fãs, e não uma “explicação oficial” do jogo. (Alerta de spoilers.)

Reprodução – FromSoftware / Bandai Namco

A água que corre e o mestre cego que selou a Podridão

A pista começa na descrição do Amuleto da Dançarina Azul (Blue Dancer Charm). O texto diz que a dançarina de azul representa uma fada que, segundo a lenda, concedeu uma espada de fluxo a um espadachim cego, e que, com a lâmina, o guerreiro selou um deus antigo, que era a própria Podridão.

O azul, nesse contexto, remete à água corrente, o oposto natural da água parada. Também é fato que a Malenia aprendeu seu estilo de combate com o Espadachim Cego, figura nômade ligada à lenda.

Reprodução – FromSoftware / Bandai Namco

A Dança das Aves Aquáticas é o ápice dessa tradição: uma sequência de golpes contínua e implacável, como o fluxo de um rio. A leitura que muita gente faz é a de que, para a Malenia, essa técnica não é só uma arma, mas uma disciplina de corpo e mente: enquanto ela se move e “flui”, a Podridão Escarlate que corrói o seu corpo não consegue se assentar. É uma interpretação (o jogo não afirma isso), mas ela combina com tudo o que a personagem representa.

Podridão como estagnação: o movimento cura, a paralisia apodrece

Nessa interpretação, a Podridão Escarlate funciona como a estagnação absoluta. Quando a água para de correr, ela perde oxigênio, acumula bactérias e apodrece, e, de forma parecida, a vida que se recusa a mudar, que se agarra ao passado ou paralisa de medo, acaba gerando podridão. Caelid vira o exemplo perfeito: uma terra onde o ciclo de morte e renascimento foi quebrado pela guerra, e o resultado foi um pântano vermelho e estagnado.

Aí entra a tragédia da Malenia. Para não perder a luta contra Radahn, ela liberou a Podridão em seu auge e, ao “florescer”, parou de correr como um rio e estagnou como um pântano, ou seja, cedeu ao apego ao poder. Daí vem a lição que muita gente enxerga no jogo: ficar preso a um momento, um trauma, uma glória passada ou ao medo do futuro é virar água parada, e quem tenta congelar o tempo acaba apodrecendo por dentro.

Por isso, a técnica que tanto nos faz sofrer pode ser lida como uma representação poética da pureza pelo movimento: a Malenia precisava dançar para não morrer por dentro, e nós, para sobreviver à sua dança, precisamos aprender a fluir com ela.

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