Dados de vendas nos Estados Unidos ajudam a explicar a decisão da Sony de aposentar os discos. No Brasil, especialistas alertam que o digital não deve ficar mais barato.
A polêmica decisão da Sony de encerrar a produção de jogos físicos de PlayStation a partir de janeiro de 2028 ganhou um novo capítulo, desta vez com números na mesa. Segundo o analista Mat Piscatella, diretor sênior da Circana, apenas sete jogos superaram a marca de 100 mil cópias físicas vendidas nos Estados Unidos no acumulado de 2026.
O dado mais impressionante talvez seja o recorte semanal. Na semana encerrada em 11 de julho, somente dois títulos de PlayStation venderam mais de 10 mil unidades em disco no mercado americano, conforme o levantamento do serviço de monitoramento de varejo da empresa.
O que os números incluem
Diante de questionamentos, o próprio analista fez questão de esclarecer o alcance da estatística. Os dados englobam o total do ecossistema PlayStation, ou seja, todos os jogos, de todas as publicadoras, em todas as plataformas da marca, e não apenas os exclusivos da Sony. Também entram na conta títulos antigos que seguem vendendo, não só lançamentos de 2026.
Estimativas não oficiais de outras consultorias sugerem que a lista dos sete estaria repleta de pesos-pesados recentes, com nomes como EA Sports FC 26, Resident Evil Requiem e 007 First Light entre os candidatos, embora a relação exata não tenha sido divulgada.
Uma queda de década e meia
O retrato de 2026 é o fim de uma longa curva descendente. Ainda de acordo com o analista, os americanos chegaram a gastar cerca de 11,5 bilhões de dólares por ano com jogos físicos em 2009. Em 2026, esse montante caiu para aproximadamente 1,6 bilhão de dólares. Vale lembrar que valores em dólar variam conforme o câmbio.
Os discos, portanto, viraram fatia pequena de um mercado que migrou em massa para as lojas digitais, movimento que o próprio Piscatella já monitorava quando as vendas digitais passaram a dominar os consoles nos Estados Unidos.
A revolta dos fãs continua
Os números foram divulgados justamente enquanto a comunidade protesta. Desde o anúncio do fim dos discos, publicações oficiais do PlayStation nas redes vêm sendo inundadas por comentários contrários à decisão, incluindo um trailer recente de Marvel’s Wolverine que acumulou mais de dez mil mensagens de crítica. Uma petição internacional pela reversão da medida também já reuniu centenas de milhares de assinaturas.
Ao comentar a mobilização, o analista adotou um tom pragmático. Ele reconheceu a importância de os jogadores usarem sua voz, mas ponderou que comentar custa pouco, sugerindo que a manifestação online não altera a realidade das vendas. Piscatella também levantou outro ponto provocativo: na visão dele, fatores como o preço do futuro PlayStation 6 podem pesar mais na decisão de compra do que a existência de discos, sobretudo se o console ultrapassar a marca dos mil dólares.
No Brasil, o alerta é sobre preços
Por aqui, o debate ganha contornos próprios, ligados à concorrência e ao bolso do consumidor. Em entrevistas ao site Voxel, especialistas avaliaram que a centralização das vendas no formato digital amplia o controle das fabricantes sobre a distribuição, sem garantia de preços menores.
O advogado Charles Nasrallah, especialista em Direito Empresarial, explicou que não existe qualquer obrigação legal de que jogos digitais custem menos que os físicos, já que a precificação está inserida na livre iniciativa das empresas. Na mesma linha, o especialista em mercado de games Marcelo Mattoso observou que o consumidor digital tem menos alternativas de compra, e que a concentração das vendas em uma única loja, embora legal, merece atenção do ponto de vista concorrencial.
Já o empresário Ricardo Vieira, dono de uma loja especializada, destacou o papel regulador da mídia física nos preços, lembrando que a competição saudável entre varejistas costuma render promoções com valores abaixo dos praticados nas lojas digitais.






Seja o primeiro a comentar