Power Rangers Hexagon: a temporada perdida que teria uma guerra civil de Rangers

Vinicius Miranda

Uma temporada cancelada teria reunido quase todos os heróis da franquia em uma única trama. O grande gancho seria um confronto ideológico entre Tommy e Jason.

Os fãs de Power Rangers estão voltando a olhar com carinho para a franquia, que nunca deixou de existir e segue caminhando ao lado de sua inspiração japonesa, o tokusatsu “Super Sentai”, que recentemente foi encerrada depois de 50 anos no ar. Ao longo das décadas, a versão ocidental criou uma mitologia própria, cheia de pontas soltas e mistérios mal explicados. Foi justamente para amarrar essas pontas que nasceu a ideia de “Power Rangers Hexagon”, uma temporada ambiciosa que, infelizmente, nunca saiu do papel. A seguir, entenda o que teria sido um dos maiores “e se” da história dos heróis coloridos.

O que seria Power Rangers Hexagon

Hurricaneger, o Super Sentai que inspiraria Hexagon – Divulgação / Toei Company

A proposta foi idealizada por Amit Bhaumik, produtor e roteirista de “Power Rangers Força Animal” (Power Rangers Wild Force). A ideia era adaptar a série japonesa “Ninpuu Sentai Hurricaneger” e transformá-la na 11ª temporada da franquia, logo após Força Animal. No entanto, havia um grande diferencial. Em vez de uma história isolada, Hexagon se dedicaria a concluir tramas abandonadas das temporadas anteriores.

Esse conceito não era totalmente inédito. Anos antes, “Power Rangers no Espaço” já havia reunido elementos das séries iniciais para fechar diversos arcos. Hexagon faria algo parecido, mas em escala ainda maior. O ponto de partida seria o episódio especial “Eternamente Vermelho” (Forever Red), de Força Animal, que juntou todos os Rangers Vermelhos contra os remanescentes do Império Máquina.

A base que reuniria todos os Rangers

Episódio Eternamente Vermelho de Power Rangers: Força Animal – Divulgação / Hasbro

O nome da série vem da base que daria sentido a tudo: o Hexagon. Diferentemente do Pentágono, essa estrutura teria seis pontas, em referência aos cinco Rangers de cada equipe somados a um sexto integrante. A organização funcionaria como um quartel-general global, reunindo veteranos e treinando novatos. Além disso, coordenaria missões em diversas partes do mundo e, possivelmente, em outros planetas.

À frente de tudo estaria Tommy Oliver, considerado por muitos o maior Power Ranger de todos. Ele assumiria um papel de mentor, semelhante ao de Zordon nas primeiras temporadas. Sob seu comando, o protagonismo ficaria com um novo trio de heróis baseados em Hurricaneger. Ainda assim, os Rangers antigos não seriam meras participações especiais. Joel, o Ranger Verde de “Power Rangers Lightspeed: O Resgate”, por exemplo, pilotaria a aeronave das missões.

Vilões antigos e o retorno das pendências

Nenhuma boa temporada de Power Rangers vive sem grandes vilões, e Hexagon caprichou nesse ponto. Pela primeira vez, a franquia teria mais de uma facção inimiga atuando ao mesmo tempo. Cada uma seria liderada por um antagonista que, no passado, ficou sem um desfecho adequado.

Entre os nomes cotados estavam Scorpina e Lokar, de “Mighty Morphin Power Rangers”, além do Príncipe Gasket e Archerina, de “Power Rangers Zeo”. O casal comandaria o que restou do Império Máquina. Para completar, vilões inéditos inspirados em Hurricaneger, com temática ninja, liderariam outras frentes. Dessa forma, o tradicional formato de “monstro por episódio” ganharia mais variedade.

A guerra civil dos Rangers, antes da Marvel

O verdadeiro coração da série, porém, não estaria nos vilões. O grande conflito viria de dentro da própria comunidade Ranger. Surgiria uma segunda facção de heróis, baseada nos Gouraigers, formada por dois Rangers conhecidos como Dark Red e Dark Blue. Eles agiriam por conta própria, mais como anti-heróis do que como soldados de uma organização.

Para espelhar o trio principal, os roteiristas até criariam uma Dark Yellow exclusiva da versão americana, já que essa personagem não existia no original japonês. Com o tempo, parte dos veteranos passaria a apoiar essa visão independente. Assim, a franquia se dividiria em dois lados. De um lado, Tommy e a mentalidade de unidade. Do outro, ninguém menos que Jason, o Ranger Vermelho original, agora retratado como um renegado.

Em “Reforços do Futuro”, Wes diz a Cole que existem outros Rangers pelo mundo, todos lutando por um objetivo comum.

Curiosamente, esse embate ideológico lembra muito a saga “Guerra Civil”, da Marvel, popularizada anos depois pelo filme “Capitão América: Guerra Civil”. Pela primeira vez, Rangers se enfrentariam por convicção própria, e não por controle mental ou manipulação. A intenção declarada era dividir também o público entre as duas filosofias.

O confronto final e o mistério do Ranger Verde

Shurikenger – Divulgação / Toei Company

O desafio derradeiro seria a adaptação americana do Shurikenger, descrito como o Ranger mais poderoso de todos. Segundo os planos predominantes, esse herói seria o próprio Tommy, em uma releitura dourada de seu icônico uniforme verde. Há registros, porém, de uma versão alternativa, em que o Ranger Verde seria um agente duplo inédito chamado Derek, infiltrado nas duas facções a mando de uma terceira organização.

De qualquer forma, o desfecho seria agridoce. Com o passar dos episódios, Tommy perderia o controle do Hexagon, que se tornaria uma burocracia cheia de regras limitadoras. No clímax, heróis e renegados se uniriam para enfrentá-lo, em um arco que homenagearia a clássica saga do Ranger Verde de Mighty Morphin. No fim, Tommy reconheceria seus erros, o Hexagon seria desfeito, e cada equipe seguiria seu caminho, sem vencedores absolutos.

Por que Hexagon nunca aconteceu

Apesar do enorme potencial, o projeto era apenas um dos vários esboços considerados para a nova fase da franquia. A possibilidade desapareceu de vez quando a Disney comprou os direitos de Power Rangers, fechou a produtora original e levou as filmagens para a Nova Zelândia. No lugar de Hexagon, Hurricaneger virou “Power Rangers Tempestade Ninja” (Power Rangers Ninja Storm), uma temporada mais autossuficiente e sem nenhuma ligação com aquele plano.

Mesmo assim, alguns conceitos parecem ter sobrevivido em outras séries. Tommy voltou como mentor e novo Ranger em “Power Rangers Dino Trovão” (Power Rangers Dino Thunder). A ideia de múltiplas facções inimigas apareceu em “Power Rangers Operação Ultraveloz” (Power Rangers Operation Overdrive). Já o grande exército de veteranos liderado por Tommy ganhou vida em “Power Rangers Super Megaforce”, ainda que inspirado diretamente em “Kaizoku Sentai Gokaiger”.

Power Rangers Super Megaforce – Divulgação / Hasbro

Para o público de longa data, Hexagon representa o maior tesouro perdido da franquia. Afinal, seria a chance de ver tantos heróis e vilões interagindo em uma única trama, e não apenas em crossovers pontuais. Por isso, ainda há quem sonhe com um eventual resgate da ideia, agora que a marca voltou para as mãos da Saban.

Na prática, contudo, esse retorno parece improvável. O modelo atual aposta em temporadas independentes, que apenas acrescentam elementos sem mexer no passado. Em outras palavras, as pendências que Hexagon prometia resolver seguem vivas apenas nas teorias dos fãs. Mesmo assim, a esperança não morre. Talvez, um dia, a visão original de Amit Bhaumik ainda chegue às telas de alguma forma.

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