Trailer de Vingadores Doutor Destino bate recorde e reabre debate sobre nostalgia

Vinicius Miranda

A primeira prévia completa do novo Vingadores quebrou marcas históricas em 24 horas. Ao mesmo tempo, parte da crítica vê no filme uma resposta aos tropeços da era do streaming da Marvel.

O primeiro trailer de Vingadores: Doutor Destino (Avengers: Doomsday) finalmente chegou, e o impacto foi imediato. Divulgada em 20 de julho, a prévia mostrou Robert Downey Jr. como o vilão Doutor Destino, reuniu Vingadores, Quarteto Fantástico, Wakanda e os X-Men da era Fox, e disparou uma onda de reações que vai da pura empolgação a uma discussão espinhosa sobre o estado atual da Marvel.

No vídeo, Thor faz um discurso sombrio sobre a nova ameaça, sugerindo temê-la mais do que a enfrentada pelos Vingadores originais. O vilão de Downey Jr. aparece em momentos de impacto, incluindo a cena em que detém o Stormbreaker, o machado do deus do trovão, sem esforço aparente.

Números que quebraram recordes

Comecemos pelos fatos. Segundo a Variety, o trailer alcançou impressionantes 503 milhões de visualizações em 24 horas, tornando-se a maior estreia de trailer da história da Disney, superando a prévia de Deadpool & Wolverine exibida no Super Bowl de 2024. No ranking geral do cinema, fica atrás apenas de Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day), da Sony.

A pré-venda acompanhou o ritmo. O filme arrecadou cerca de 16,5 milhões de dólares em ingressos antecipados no primeiro dia, com sessões premium de estreia praticamente esgotadas nos Estados Unidos, mesmo com a venda limitada a cerca de mil salas. Vale lembrar que valores em dólar variam conforme o câmbio. A estreia está marcada para 18 de dezembro de 2026.

A leitura crítica: nostalgia como salvação

Ao mesmo tempo, o lançamento reacendeu um debate que acompanha o estúdio há anos. Em análise publicada pelo site TheGamer, o crítico Jade King argumenta que o filme, por mais empolgante que seja, dependeria fortemente da nostalgia e do retorno de rostos conhecidos para reconquistar um público que se afastou.

Na visão do autor, os épicos Guerra Infinita e Ultimato foram eventos globais porque coroaram uma década de filmes consistentes, enquanto o novo longa tentaria fazer o público esquecer os últimos cinco anos de produções irregulares. O texto compara a estratégia à de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, que na avaliação do crítico se apoiou nos retornos de Tobey Maguire e Andrew Garfield mais do que na própria história.

A era do streaming na berlinda

Mística em Vingadores: Doutor Destino – Divulgação / Marvel Studios

O centro da crítica está na estratégia de conteúdo pós-Ultimato. Para o autor, a Marvel foi usada pela Disney como carro-chefe do lançamento de seu serviço de streaming, produzindo uma enxurrada de séries de qualidade desigual. Algumas foram bem recebidas, caso de WandaVision, Loki e Cavaleiro da Lua, enquanto outras, como Mulher-Hulk, dividiram até os espectadores mais dedicados.

O argumento é que muita gente encarou Ultimato como o desfecho natural da grande história e não viu razão para acompanhar dezenas de horas de conteúdo adicional, ainda mais com custos extras envolvidos. A sobrecarga teria diluído a sensação de evento que definia a leva de séries lançadas no Disney+.

O próprio Feige reconhece os erros

Curiosamente, o presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, tem alimentado essa leitura. Em entrevista recente à Variety, ao explicar por que o reboot de Blade com Mahershala Ali nunca saiu do papel, ele revelou a régua adotada pelo estúdio após o período de saturação.

Caiu na época em que começamos a recuar e dizer: só aceitem o insanamente ótimo. E não estava insanamente ótimo naquele momento (tradução livre)

Para a crítica, a fala funciona como admissão de que o estúdio passou dos limites na produção de conteúdo. Em outra entrevista, ao podcast Happy Sad Confused, Feige chegou a dizer que se sente fracassado por não ter conseguido tirar o projeto do chão, num raro momento de autocrítica pública do executivo que já prometia grandes crossovers desde o planejamento das fases anteriores.

Sucesso garantido, futuro em aberto

O mais interessante é que nem os críticos mais duros duvidam do desempenho comercial. O próprio texto da TheGamer prevê que o longa será um blockbuster bem-feito e lotará salas na estreia, seja pela nostalgia, seja pela curiosidade, seja por ser visto como o verdadeiro sucessor de Ultimato. Os números do trailer, aliás, sugerem exatamente isso.

A dúvida que fica é sobre o dia seguinte. O filme antecede Vingadores: Guerras Secretas, previsto para dezembro de 2027, e parte da imprensa se pergunta se o modelo de apostar em rostos do passado é sustentável depois que essa carta for jogada. É um debate legítimo, e a resposta só virá nos cinemas.

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