Remakes da Nintendo preparam terreno para grandes jogos

Vinicius Miranda

A semana da Nintendo teve duas Directs recheadas de anúncios, com “Ocarina of Time” como grande destaque. Mas o verdadeiro sinal de que a estratégia da empresa está funcionando veio de outro lugar. “Metroid Ravenous” é um jogo original que só existe graças a um remake anterior.

Uma semana movimentada, mas com destaques desiguais

The Legend of Zelda: Ocarina of Time Remake
The Legend of Zelda: Ocarina of Time Remake – Divulgação / Nintendo

As duas Nintendo Directs recentes deram bastante pano para manga entre os fãs, ainda que nem toda novidade tenha empolgado da mesma forma. O grande nome da semana foi, obviamente, “The Legend of Zelda: Ocarina of Time”. O primeiro vislumbre mais completo do remake de Switch 2 gerou reações divididas. O estilo visual polarizador e a adição de um botão de pulo inédito na franquia dividiram opiniões.

Independentemente da recepção, o remake deve ser o maior lançamento do Switch 2 até agora. Ainda assim, o jogo que realmente ficou na cabeça depois da semana cheia de anúncios foi outro: “Metroid Ravenous”.

Metroid Ravenous e o retorno de Samus em 2D

A nova aventura 2D de Samus Aran está marcada para chegar em 28 de janeiro de 2027. O jogo deve liderar os lançamentos do ano que vem no Switch 2. O trailer de revelação mostra a heroína devorando inimigos para sobreviver. Com base nisso, o jogo já parece um dos exclusivos mais estilosos e ambiciosos da plataforma.

Só será possível confirmar se o jogo está à altura de seu antecessor, o aclamado “Metroid Dread”, depois do lançamento. Mesmo assim, o simples fato de “Metroid Ravenous” existir já reforça algo importante: a estratégia de remakes da Nintendo está gerando frutos no longo prazo.

Tudo começou com o remake de Metroid 2

O caminho até “Metroid Ravenous” começou de forma inesperada, na E3 de 2017. Naquele ano, a Nintendo surpreendeu os fãs. Ela anunciou um remake completo de “Metroid 2: Return of Samus” para o Nintendo 3DS, batizado de “Metroid: Samus Returns”.

Mais surpreendente ainda foi a escolha do estúdio responsável pelo projeto: a MercurySteam, sem qualquer vínculo prévio com a Nintendo. A decisão fazia sentido, no entanto. O estúdio espanhol havia desenvolvido “Castlevania: Lords of Shadow”, bem recebido em 2010, e já entendia bem o gênero Metroidvania.

Uma aposta que se transformou em Metroid Dread

A aposta valeu a pena. “Metroid: Samus Returns” foi elogiado pela crítica e ajudou a reviver uma franquia que parecia praticamente esquecida. Uma publicadora menos ambiciosa poderia ter mantido a MercurySteam apenas fazendo remakes, talvez de “Super Metroid”. A Nintendo, porém, deu ao estúdio liberdade total para criar um jogo original na sequência.

Tudo o que a MercurySteam aprendeu remakeando “Metroid 2” foi aproveitado em “Metroid Dread”. O jogo expandiu o combate e a exploração da série, além de investir pesado na direção cinematográfica. Dificilmente esse salto de qualidade teria acontecido sem o aprendizado passado pelo remake.

Um padrão que a Nintendo repete com sucesso

The Legend of Zelda: Link’s Awakening Remake – Divulgação / Nintendo

Esse é um roteiro que a Nintendo vem repetindo com bons resultados na última década. Os remakes da empresa funcionam quase como um terreno de testes para parceiros externos. Eles ganham a chance de provar seu valor dentro do ambiente mais seguro de um projeto já validado pelo público.

Foi assim com a Grezzo, estúdio por trás do remake de “The Legend of Zelda: Link’s Awakening”, lançado em 2019. Depois de passar no teste com louvor, a equipe avançou para um projeto bem mais experimental. Trata-se de “The Legend of Zelda: Echoes of Wisdom”, jogo original que reinventou a fórmula clássica da série. A grande mudança foi colocar a própria Zelda no controle, com foco ainda maior em quebra-cabeças.

Onde Metroid Ravenous se encaixa nesse ciclo

“Metroid Ravenous” representa a continuação natural desse mesmo ciclo. A MercurySteam consolidou uma posição de confiança grande o suficiente para receber liberdade criativa novamente, em vez de simplesmente lançar outro remake. Embora a Nintendo ainda não tenha confirmado oficialmente o estúdio por trás do projeto, tudo indica que a MercurySteam segue no comando.

A nova mecânica de absorver energia dos inimigos parece um jeito interessante de evoluir a base construída em “Samus Returns”. A ideia é fazer isso sem simplesmente repetir fórmulas já conhecidas. Isso é o suficiente para gerar mais empolgação do que o remake de “Ocarina of Time”. Ao menos na jogabilidade, esse remake não parece alterar muito a experiência original.

O pipeline ideal para remakes de videogame

Por mais cansativos que possam parecer para quem não quer revisitar jogos antigos, remakes bem-feitos conseguem preparar terreno para algo bem mais interessante no futuro. O remake de “Star Fox 64” deste ano, por exemplo, não empolga tanto por si só. Ainda assim, ele mostra que a Velan Studios domina bem os fundamentos da série. O estúdio também consegue explorar melhor a narrativa e até criou um modo multiplayer divertido.

O ideal seria ver a Velan Studios receber as rédeas da franquia para transformar tudo isso em algo original. O mesmo vale para a ArtePiazza, responsável por um remake competente, ainda que bastante conservador, de “Super Mario RPG” em 2023.

Vale lembrar dessa lógica na próxima vez que a Nintendo anunciar um projeto como o remake de “Ocarina of Time”. Gostando ou não da ideia, a empresa já provou que sua estratégia de remakes traz retorno no longo prazo. O que parece apenas mais uma revisão nostálgica hoje pode ter um efeito maior no futuro. Ele pode muito bem preparar o terreno para o anúncio mais empolgante de uma Nintendo Direct daqui a cinco anos.

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