Rockstar é acusada de forçar equipe a trabalhar horas extras exaustivas via cláusulas de contrato

Vinicius Miranda

A poucos meses do aguardado lançamento de “GTA 6”, a Rockstar Games voltou ao centro de uma polêmica trabalhista. Desenvolvedores que buscam o reconhecimento de um sindicato afirmam que o problema de crunch na empresa seria tão enraizado que teria sido incorporado aos próprios contratos.

Segundo essas fontes, a prática funcionaria como uma forma de contornar regulamentações trabalhistas. As acusações são graves e reacendem um debate antigo sobre as condições de trabalho no estúdio responsável por alguns dos maiores jogos da história.

O que é o crunch e por que ele preocupa?

Antes de tudo, vale explicar o termo para quem não é do meio. O crunch é a prática, amplamente criticada, de forçar os funcionários a cumprirem cargas horárias extenuantes. O objetivo costuma ser finalizar um jogo a tempo do lançamento.

Diversos desenvolvedores conversaram com o site especializado Game Developer sobre as metas do Rockstar Game Workers Union (RGWU). Entre os principais objetivos do grupo, estão o reconhecimento sindical voluntário e, claro, o combate a essa cultura de jornadas excessivas. Vale reforçar que esses funcionários pediram anonimato por medo de represálias.

A polêmica cláusula nos contratos

Aqui mora o ponto mais delicado das acusações. Segundo um dos desenvolvedores ouvidos, o crunch seria tão comum que a empresa teria incluído nos contratos, como padrão, uma cláusula específica. Ela seria uma renúncia às chamadas Working Time Regulations.

Para contextualizar, essa é uma lei trabalhista do Reino Unido. De forma geral, e com algumas exceções, ela determina que as pessoas não podem trabalhar mais do que 48 horas semanais, em média. A norma também permite que o funcionário abra mão desse limite de forma voluntária.

No entanto, é justamente esse direito que estaria sendo contornado. De acordo com as fontes, ao aceitar os termos do contrato para conseguir o emprego, o funcionário automaticamente se exporia a uma carga pesada de horas extras. Ou seja, a renúncia viria como parte do pacote padrão.

A resposta do sindicato

Diante desse cenário, o sindicato teria agido. Segundo o relato, o grupo conduziu uma campanha bem-sucedida para informar os trabalhadores de que eles poderiam voltar a aderir às regras a qualquer momento.

Como resultado, a gestão da Rockstar teria simplificado o processo, removendo inclusive a obrigatoriedade de uma reunião com o RH. Ainda segundo a fonte, parte do problema é que não existe uma definição acordada para o que seria o crunch. Assim, a empresa poderia argumentar que oferecer uma compensação específica pelas horas extras descaracterizaria a prática.

Acusações de desigualdade salarial e bônus

GTA 6 – Divulgação / Rockstar Games

As denúncias, contudo, não param nas jornadas de trabalho. Os desenvolvedores também alegam que a Rockstar teria tolerado uma cultura de remuneração desigual. Segundo eles, a diferença salarial mediana entre gêneros teria aumentado no estúdio, em meio ao suposto cancelamento de iniciativas para equilibrá-la.

Outro ponto sensível envolve os bônus. De acordo com os relatos, parcelas significativas dos salários seriam retidas de forma inconsistente. Em alguns casos, até 20% da remuneração esperada poderia desaparecer por motivos pouco claros. As fontes citam critérios supostamente subjetivos ou até retroativos como justificativa.

Vale ressaltar que o crunch, atualmente, seria desigual dentro da empresa. Enquanto algumas equipes conseguiriam evitá-lo, funcionários de outras áreas parecem nunca conseguir escapar dele, segundo as denúncias.

A resposta da Take-Two

Procurada, a Take-Two Interactive, dona da Rockstar, se posicionou sobre o assunto. Em nota, a empresa afirmou buscar oferecer os melhores ambientes de trabalho e oportunidades de carreira para suas equipes.

A companhia destacou ainda ter construído uma cultura focada em trabalho em equipe, excelência e gentileza, com remuneração e benefícios competitivos. Por fim, confirmou ter recebido o pedido de reconhecimento voluntário do sindicato e afirmou que valoriza um diálogo aberto, comprometendo-se a marcar uma reunião.

GTA 6 – Divulgação / Rockstar Games

Analisando o cenário, essa disputa expõe uma tensão crescente na indústria de games. De um lado, temos “GTA 6”, projetado para ser um dos jogos mais lucrativos da história. De outro, os trabalhadores que o constroem afirmam não sentir esse retorno de forma justa.

Para os fãs, a situação gera um dilema. Muitos amam os jogos da Rockstar, mas se preocupam com o custo humano por trás de produções tão grandiosas. Consequentemente, o debate sobre condições de trabalho ganha cada vez mais força junto ao público.

Do ponto de vista do mercado, o movimento sindical representa um marco importante. Caso a Rockstar reconheça o grupo, seria um passo significativo para os direitos trabalhistas no setor de games no Reino Unido.

E você, acredita que a indústria precisa mudar sua relação com o crunch? Deixe sua opinião nos comentários!

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