O lendário diretor que chamou a Marvel de “parque de diversões” agora apoia a inteligência artificial. A guinada do cineasta levantou um debate acalorado sobre os rumos da arte no cinema.
Poucos nomes carregam tanto peso na história do cinema quanto Martin Scorsese. Por isso, sua recente aproximação com a inteligência artificial generativa causou tanto barulho. O diretor de “Os Bons Companheiros” (Goodfellas) e “Taxi Driver” anunciou que se tornou consultor e parceiro de uma startup de IA, defendendo a tecnologia como ferramenta criativa. Para muitos fãs e profissionais da indústria, a notícia soou como uma contradição difícil de engolir.
O que Martin Scorsese disse sobre a inteligência artificial?
Conforme noticiado pelo The New York Times e por veículos como a Variety, Scorsese passou a atuar como conselheiro da Black Forest Labs, empresa alemã responsável pelos modelos de geração de imagens conhecidos como FLUX. O cineasta de 83 anos contou que usou a ferramenta durante a pré-produção de um novo projeto, especificamente para criar storyboards, aqueles desenhos que mapeiam as cenas antes das filmagens.
Em comunicado, o diretor justificou sua escolha apontando para a própria evolução do meio. Veja o que ele declarou:
Lembrem-se, o cinema é um meio jovem, com apenas cerca de 125 anos, então precisamos estar abertos a como ele pode evoluir.
Scorsese ainda comparou o uso da IA com outras tecnologias que adotou ao longo da carreira, como o 3D em “A Invenção de Hugo Cabret” (Hugo) e o rejuvenescimento digital em “O Irlandês” (The Irishman). Segundo ele, a nova ferramenta tornou o processo mais ágil sem comprometer a qualidade do trabalho.

Por que a postura do diretor gerou tanta polêmica?
A grande ironia, apontada por boa parte da imprensa, está no histórico do próprio Scorsese. Afinal, em 2019, o diretor virou alvo de debate ao afirmar que os filmes da Marvel se pareciam mais com parques de diversão do que com cinema de verdade. Na época, sua crítica mirava justamente a transformação da arte em produto industrial, calculado para maximizar lucros.
Agora, ao apoiar uma tecnologia cujo apelo principal para os estúdios é cortar custos e acelerar processos, o cineasta parece, aos olhos de muitos, contradizer aquele discurso. Como destacou o veículo europeu Euronews, diversos críticos resgataram a antiga declaração sobre a Marvel para apontar uma suposta hipocrisia na nova posição do diretor.
Como a indústria reagiu ao anúncio?
A reação foi rápida e, em boa parte, negativa. Diversos artistas que trabalham justamente com a criação manual de storyboards e conceitos visuais se sentiram ameaçados. A ilustradora e artista conceitual Karla Ortiz criticou duramente a decisão, argumentando que esse tipo de ferramenta é treinada com o trabalho dos próprios profissionais que pode acabar substituindo.
O cineasta Boots Riley também foi às redes sociais expressar sua revolta. Ele chegou a especular, sem apresentar provas, que a adesão de Scorsese teria motivação financeira, uma teoria que permanece no campo da suposição. Vale lembrar que o diretor sempre criou seus próprios storyboards e raramente contratou terceiros para essa função, o que torna o debate ainda mais complexo.
O que isso significa para o futuro do cinema?
O caso de Scorsese expõe uma tensão que vem crescendo em Hollywood. Em 2023, lembremos, a indústria foi paralisada por greves históricas de roteiristas e atores, nas quais a proteção contra a IA generativa figurava entre as principais reivindicações. O sindicato dos atores, o SAG-AFTRA, mantém a posição de que a criatividade deve permanecer centrada no ser humano.
Por outro lado, o cenário tem mudado. Estúdios como Netflix e Amazon já anunciaram produções desenvolvidas com auxílio de inteligência artificial. Nesse contexto, quando um dos diretores mais respeitados do planeta legitima a tecnologia, ainda que de forma limitada, o gesto carrega um peso simbólico enorme. Esse é o ponto que mais preocupa os críticos.
De fato, há quem defenda que usar IA apenas para visualizar ideias na pré-produção é inofensivo, já que não substitui atores nem roteiristas. No entanto, outros temem que essa normalização gradual abra portas para usos cada vez mais amplos no futuro. O debate, portanto, está longe de um consenso.
Quais são os próximos projetos de Scorsese?
Apesar de toda a polêmica, não há indicação de que o diretor pretenda usar imagens geradas por IA em seus filmes. Atualmente, Scorsese trabalha na pós-produção de “What Happens at Night”, um suspense estrelado por Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence e Mads Mikkelsen, adaptação do romance de Patrick Marber.
Enquanto o longa não chega às telas, o episódio reforça que a relação entre arte e tecnologia seguirá rendendo discussões intensas. Para quem acompanha o tema, vale conferir também a opinião de outros nomes da indústria sobre o assunto, como na matéria em que debatemos os rumos de grandes franquias e seus astros. O futuro do cinema, ao que tudo indica, será decidido nessa fronteira delicada entre o humano e o artificial.





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