Quem assistiu a Spider-Noir, nova série do Homem-Aranha no Prime Video, talvez tenha notado algo curioso: o sotaque de Nicolas Cage não se mantém o mesmo ao longo dos oito episódios. Longe de ser um descuido, a escolha foi proposital.
O showrunner Oren Uziel explicou que as variações na voz do protagonista, Ben Reilly, têm uma justificativa narrativa profunda, ligada diretamente à natureza do personagem. A revelação ajuda a entender uma das atuações mais peculiares da carreira do ator.
A explicação do showrunner
Antes da estreia, o próprio Nicolas Cage já havia descrito sua interpretação como uma mistura inusitada, algo em torno de 70% do astro clássico Humphrey Bogart e 30% do personagem de desenho Pernalonga. As mudanças de tom acontecem de forma proposital, sem contar os momentos em que Ben está disfarçado durante as investigações.
Em entrevista ao site SlashFilm, Uziel detalhou que as oscilações refletem a jornada do personagem para reaprender a ser humano. Segundo ele, é como se Ben estivesse se educando, num processo comparável a treinar em uma academia.
“É tudo sobre o personagem dele. Ele se torna O Aranha e fica mais aranha do que homem, e precisa reaprender a ser humano. Então isso é ele se educando. Por isso ele imita Bogart, ou Cagney, ou Peter Lorre. Foi muito divertido.”
A origem trágica de Ben Reilly
Para entender a explicação, é preciso conhecer a história do herói nesta versão.
Diferentemente dos quadrinhos, onde Ben Reilly é um clone de Peter Parker, a série optou por torná-lo um personagem independente, sem ligação direta com o Homem-Aranha original. Isso deu liberdade aos roteiristas para criar um novo passado.
De acordo com a trama, a vida de Ben mudou para sempre durante a Primeira Guerra Mundial, quando ele ajudou a libertar um campo de prisioneiros onde experimentos genéticos eram realizados. Ali, foi picado por um híbrido de homem e aranha que havia se tornado completamente selvagem.
As consequências foram irreversíveis: Ben passou a desenvolver poderes acompanhados de um comportamento cada vez mais aracnídeo.

Imitar atores para parecer humano
É nesse ponto que os sotaques fazem sentido. Para reprimir o lado aranha que passou a fazer parte de sua essência, Ben recorreu ao cinema. Ele estudou e passou a imitar grandes astros de Hollywood da época, como Bogart, James Cagney e Peter Lorre, replicando suas falas e maneirismos como forma de resgatar a própria humanidade.
Conforme o protagonista revela a uma personagem ao longo da série, essa imitação constante o ajuda a manter sob controle a metade não humana de seu ser. Na prática, isso permitiu que Nicolas Cage explorasse seu talento de uma forma rara em sua carreira, transitando entre diferentes vozes dentro de um mesmo papel.
O resultado é uma performance camaleônica que se tornou marca registrada da produção.
O que esperar da série
Ambientada na sombria Nova York dos anos 1930, Spider-Noir aposta em um tom investigativo e adulto, bem diferente das demais adaptações do herói. A série foi desenvolvida por Oren Uziel e conta com Phil Lord e Chris Miller, da animação Homem-Aranha no Aranhaverso, entre os produtores.
Curiosamente, foi naquele filme que Cage deu voz a uma versão do personagem, papel que ele deve reprisar em Homem-Aranha: Além do Aranhaverso.
O elenco ainda inclui Lamorne Morris como Robbie Robertson, Brendan Gleeson como o mafioso Cabelo de Prata e Li Jun Li como Cat Hardy. Bem recebida pela crítica, a produção foi elogiada como uma adição interessante ao lado live-action do Homem-Aranha, embora ainda não haja confirmação sobre uma segunda temporada.
Os oito episódios de Spider-Noir já estão disponíveis no Prime Video, em versões coloridas e em preto e branco.




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