Audiolivro conta como leitura? Stephen King responde

Andre Luiz

Poucos assuntos dividem tanto os amantes de livros quanto uma pergunta simples: ouvir um audiolivro conta como leitura? A discussão ressurge com força em espaços como BookTok e Reddit. E, para surpresa de muitos, Stephen King já havia cravado sua posição sobre o tema muito antes da polêmica virar tendência online.

A posição de Stephen King sobre audiolivros

Ainda no ano 2000, em seu livro sobre o ofício da escrita, Sobre a Escrita, o autor defendeu os audiolivros com entusiasmo. Na época, ele chegou a chamá-los de uma revolução, mesmo quando ainda existiam em fitas e CDs.

Segundo King, o formato é uma forma prática de aproveitar melhor o tempo de leitura, seja dirigindo, limpando a casa ou caminhando. O escritor afirma consumir vários títulos em áudio a cada ano, encaixando-os na rotina sempre que possível.

Na obra, o escritor resume seu ponto de vista de maneira direta:

Você pode até ler enquanto dirige, graças à revolução dos audiolivros.

Uma defesa antiga que virou tradição

A posição do autor não parou por aí. Em 2007, num ensaio publicado na revista Entertainment Weekly, King reforçou que discorda totalmente de quem despreza a escuta como uma forma de leitura. Para ele, reconhecer que ouvir e enxergar um texto são processos diferentes é válido, mas colocar um acima do outro seria um equívoco.

Vale lembrar que King é um dos autores mais prolíficos e lidos das últimas décadas. Além de escrever sem parar, ele é conhecido por ser um leitor voraz, algo evidente em sua vasta lista de obras aclamadas. Por isso, sua opinião carrega bastante peso na comunidade literária.

Bill Skarsgård em “It: A Coisa”, adaptação da obra mais famosa de Stephen King – Foto: Brooke Palmer/Warner Bros. Entertainment Inc

Os dois lados do debate

De um lado, quem concorda com Stephen King argumenta que os audiolivros ampliam o acesso à leitura. Afinal, eles ajudam pessoas que têm dificuldade em acompanhar textos na página e são essenciais para leitores com deficiência visual. Muitos ainda misturam os formatos, ouvindo um capítulo no trajeto e lendo outro à noite.

Por outro lado, os críticos sustentam que ler e ouvir são atos cognitivos fundamentalmente distintos. Segundo essa visão, a leitura exigiria mais engajamento mental, enquanto a escuta costuma acontecer em meio a outras tarefas, o que poderia prejudicar a absorção do conteúdo. Assim, apesar da defesa antiga de King, a discussão segue longe de um consenso.

Uma tradição mais antiga que a própria escrita

Há ainda um argumento histórico a favor da escuta. Afinal, a literatura começou com a tradição oral, e a escrita veio depois. A recitação sempre foi parte fundamental das artes literárias, tanto que os autores costumam ler trechos de suas obras em turnês de divulgação.

Não à toa, o próprio King narra a versão em áudio de Sobre a Escrita. E vale destacar que boa parte de sua extensa produção literária, de O Iluminado a It: A Coisa, também ganhou vida em formato de audiolivro ao longo dos anos.

No fim das contas, a melhor maneira de consumir um livro talvez seja simplesmente aquela que aproxima cada pessoa das histórias. Cada leitor tem seus próprios hábitos, e o importante é manter o contato com a literatura. E, nesse ponto, poucos defenderam a causa por tanto tempo quanto o mestre do terror.

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