O ator escalado para o Wolverine que teria mudado o multiverso da Marvel e da DC

Andre Luiz

Recastings acontecem o tempo todo em Hollywood, e quase nunca fazem diferença alguma no resultado final. Mas houve um caso, no outono de 1999, bem diferente.

O estúdio já havia anunciado seu ator. Os executivos já haviam declarado publicamente como aquela escolha estava certa. As câmeras já giravam em Toronto. Só que o protagonista continuava preso no set de outra pessoa, do outro lado do planeta.

O papel em questão era o Wolverine, o mutante de garras retráteis e cura acelerada que está no centro da franquia X-Men. O ator originalmente escalado era Dougray Scott, astro escocês que vinha de Ever After.

Scott nunca chegou a filmar uma cena sequer. Hugh Jackman assumiu o papel semanas depois do início das filmagens. Ele interpretou o personagem por vinte e quatro anos, em dez filmes, tornando-se a escalação mais duradoura da história do gênero. O motivo pelo qual Scott perdeu o papel, porém, muda dependendo de quem conta a história. Depois de 27 anos, as duas versões nunca foram reconciliadas.

Um acordo que já parecia certo

O acordo com Scott era real e havia sido tornado público. Os veículos especializados noticiaram sua escalação em 1999, com opção de contrato para uma sequência. Tom Rothman, então presidente da 20th Century Fox, chegou a assinar um comunicado elogiando o carisma, o físico e a intensidade do ator, além de mencionar o quão exigente o diretor Bryan Singer havia sido na escolha de quem poderia viver o papel. Estúdios só fazem esse tipo de declaração quando consideram a decisão praticamente encerrada.

O problema era que Scott já estava trabalhando em outro projeto. Tom Cruise havia escolhido pessoalmente o ator para interpretar o vilão de Missão: Impossível 2. Aquela produção atrasou bastante ao longo de 1999. Em outubro, a imprensa especializada relatava que Scott ainda estava no set de M:I-2, lesionado no ombro, enquanto a Fox precisava dele em duas semanas. A Paramount não o liberou. A Fox começou a fazer um novo teste de elenco com seu próprio filme já em produção.

Duas versões que nunca se encaixaram

É aqui que a história se divide, e importa bastante em qual versão o leitor decide acreditar. Segundo o relato de Scott, dado em 2020, o motivo teria um único responsável:

O Tom Cruise não me deixou fazer. Estávamos fazendo Missão: Impossível e ele meio que disse: você tem que ficar e terminar o filme. Eu disse que faria, mas também iria fazer esse outro trabalho. Por algum motivo, ele disse que eu não podia.

Dougray Scott em Missão: Impossível 2 – reprodução/Paramount

Scott reforçou essa versão um ano depois. Segundo ele, só Cruise não conseguia enxergar uma forma de encaixar os dois cronogramas, enquanto os chefes dos dois estúdios estariam dispostos a ceder. Esse relato nunca foi respondido diretamente. Nem Cruise, nem a Paramount, nem a produtora do próprio ator se manifestaram sobre o assunto nos seis anos seguintes. Trata-se da lembrança de uma conversa contada por apenas um dos lados, sem testemunhas registradas. Vale a pena pesar essa versão contra outros dois relatos.

O roteirista de X-Men, David Hayter, contou uma história bem diferente. Segundo ele, Singer ficou desconfiado com os atrasos e enviou o figurinista do filme até a Austrália para investigar o que estava acontecendo. A equipe descobriu que Scott havia se acidentado de moto durante as filmagens do clímax de M:I-2, ficando bastante machucado.

Nessa versão, o obstáculo é apenas um ator ferido que a produção não conseguia contatar, sem qualquer menção a Cruise. Curiosamente, o próprio Scott já havia contado a história dessa forma antes, em 2013, sete anos antes do nome de Cruise entrar no relato: seu filme atrasou, e ele precisou desistir, sem qualquer vilão na história.

O ator “errado” que se tornou definitivo

Enquanto isso, Jackman já havia testado para o papel, ao lado de um jovem Kevin Feige, hoje presidente da Marvel Studios, e havia sido recusado, em parte por ser considerado alto demais para o personagem. A biografia oficial da Marvel descreve o Wolverine com 1,60m; Jackman tem 1,88m.

Quando a Fox precisou de um substituto às pressas, o homem “errado” para o papel acabou ficando com ele mesmo assim, e passou um quarto de século consolidando essa versão como definitiva, incluindo a indicação ao Oscar de roteiro por Logan, em 2018, e o sucesso estrondoso de Deadpool & Wolverine, em 2024.

Scott acabou conseguindo seu papel de quadrinhos, só que na DC. Ele interpretou o Coronel Jacob Kane, pai de Kate Kane, em duas temporadas de Batwoman. O que fica claro, décadas depois, é que Jackman construiu uma carreira inteira em torno daquele papel. As próprias declarações do ator sobre o carinho pelo personagem reforçam isso com frequência. Não existe teste de elenco capaz de replicar esse tipo de trajetória.

COMPARTILHE Facebook Twitter WhatsApp

Leia Também

ASSINE A NEWSLETTER

Aproveite para ter acesso ao conteúdo da revista e muito mais.

ASSINAR AGORA