Xbox nega cortar investimento em games mesmo com demissões

Vinicius Miranda

A empresa afirma que vai investir em jogos o mesmo valor do ano passado. A declaração vem na véspera de uma das maiores ondas de cortes de sua história.

Em meio ao clima de tensão por conta dos cortes iminentes, a Xbox resolveu se defender. A empresa afirmou que não está reduzindo seu “investimento total” em jogos, justamente enquanto seus funcionários se preparam para uma grande leva de demissões prevista para a próxima semana. A declaração tenta acalmar os ânimos, mas levanta uma pergunta inevitável: como conciliar esse discurso com os relatos de fechamentos de estúdios e cancelamentos de projetos? Para muitos, a fala da Microsoft soa, no mínimo, contraditória.

O que a Xbox afirmou

O posicionamento veio à tona em meio ao fim de um acordo com a IO Interactive, estúdio de Hitman, que confirmou ter perdido um parceiro externo em um RPG em desenvolvimento. Em nota enviada à Bloomberg, um representante da Xbox disse que a companhia está “dando uma nova olhada” em onde investe, de modo a concentrar esforços em suas prioridades mais altas.

Segundo a empresa, não há redução no investimento geral em games. A expectativa, inclusive, é aplicar em conteúdo um valor parecido com o do ano anterior. O que mudaria, na prática, seria o destino desse dinheiro e o tipo de projeto apoiado. Em outras palavras, a Microsoft afirma que vai gastar o mesmo, só que de forma diferente.

O “reset” de Asha Sharma

Asha Sharma – Reprodução

Toda essa movimentação faz parte de um amplo “reset” comandado pela CEO da divisão, Asha Sharma. A executiva, que assumiu o cargo em fevereiro de 2026, sucedendo Phil Spencer, deixou claro que pretende reestruturar o negócio por considerá-lo fora de um estado saudável. A reformulação foi anunciada em um comunicado público, assinado também pelo chefe de conteúdo Matt Booty.

No texto, Sharma adotou um tom incomumente franco sobre os problemas da empresa. A mensagem central era direta: seguir do jeito que está se tornou insustentável. Para ela, a transparência sobre as dificuldades é o primeiro passo para a virada:

Não vamos ter sucesso escondendo verdades difíceis, nem fazendo a mesma coisa e esperando resultados diferentes.

Os números por trás da crise

O comunicado também trouxe dados que ajudam a entender a dureza das decisões. Segundo a empresa, a Xbox deve encerrar o ano fiscal com uma margem de lucratividade interna de cerca de 3%, considerada baixa. Além disso, ao longo dos últimos cinco anos, e sem contar a aquisição da Activision Blizzard King, a divisão teria investido mais de 20 bilhões de dólares em conteúdo, plataforma e subsídio de hardware.

O problema é o retorno. No mesmo período, a receita anual teria caído quase meio bilhão de dólares. Para completar, a empresa cita uma crise de componentes que encareceu o hardware, com custos que mais que dobraram e que podem chegar a níveis muito mais altos até 2027. A Microsoft ainda admite que seu sistema de estúdios ficou “sobrecarregado”, sem financiamento adequado para competir. Vale ressaltar que esses valores são informados pela própria companhia.

A onda de cortes que se aproxima

Apesar do discurso tranquilizador, o cenário para os trabalhadores é preocupante. De acordo com relatos da imprensa, os cortes na Xbox devem começar em 6 de julho e podem incluir fechamentos de estúdios, vendas, fusões e jogos cancelados. Os primeiros estúdios apontados como ameaçados foram Compulsion Games, Double Fine e Ninja Theory, com a Undead Labs citada em seguida.

A lista, porém, não parou por aí. Recentemente, a Arkane Studios, sediada na França e conhecida pela série Dishonored, também entrou no radar de possível fechamento, caso a Microsoft não encontre um comprador. Há ainda relatos não confirmados de que o total de demitidos poderia chegar à casa do milhar, o que tornaria essa a maior redução já vista na história da marca.

A resposta dos trabalhadores

Diante de tudo isso, os funcionários não ficaram em silêncio. Trabalhadores sindicalizados da Xbox se manifestaram sobre as demissões planejadas, deixando um recado firme à empresa. Segundo eles, a categoria não aceitará ser “tratada como descartável” durante o processo.

Essa reação evidencia a outra face da reestruturação. Por trás das planilhas e dos números bilionários, existem pessoas reais, com carreiras e famílias diretamente afetadas. É um lembrete de que, no fim, qualquer “reset” tem um custo humano considerável.

Discurso contra realidade

No fim das contas, o caso expõe uma tensão clara entre o que a empresa diz e o que ela faz. Afinal, manter o mesmo nível de investimento, mas fechar estúdios e demitir centenas de pessoas, é uma equação difícil de explicar para o público. A leitura mais provável é a de que a Microsoft está, de fato, mudando o foco, e não necessariamente cortando gastos.

Esse novo foco aponta para frentes como o futuro do hardware da Xbox e a busca por novas fontes de receita, como já tentou ao mirar o mercado de jogos para celular. Ao mesmo tempo, a pressão dos custos, semelhante à que faz o preço dos consoles disparar no setor, ajuda a explicar a urgência da reformulação.

Por enquanto, resta aguardar a confirmação oficial dos cortes e descobrir, na prática, o que esse “investimento igual, porém diferente” realmente significa. O Ei Nerd seguirá acompanhando o desenrolar dessa história e trará novidades assim que a Microsoft se posicionar de forma concreta.

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