O que a compra bilionária da EA revela sobre seu futuro

Vinicius Miranda

Na semana passada, a aquisição privada da Electronic Arts finalmente se concretizou. Depois de meses de análises governamentais e debates, uma das maiores publishers da indústria de games passou a ser controlada de forma privada, com participação conjunta de fundos de private equity e do Fundo Público de Investimento (PIF) da Arábia Saudita.

Isso já seria, por si só, um marco importante na história da empresa. Mas talvez o detalhe mais relevante não seja o fato de a EA ter sido comprada — e sim como essa compra aconteceu. Em vez de pagar o valor integral à vista, a operação foi estruturada como um leveraged buyout (aquisição alavancada): cerca de US$ 20 bilhões foram emprestados junto ao banco Morgan Stanley, e a expectativa agora é que a própria EA pague algo em torno de US$ 1,8 bilhão por ano só em juros dessa dívida.

Sinais de mudanças internas ainda não confirmadas oficialmente

Essa pressão financeira adicional já alimenta previsões de mudanças significativas dentro da empresa. Termos como “eficiências de estúdio” e “eficiências operacionais” vêm circulando, mas nada foi anunciado oficialmente até o momento. Para muitos analistas, esse tipo de linguagem corporativa costuma ser sinônimo de demissões. O site Eurogamer chegou a procurar a EA para comentar se cortes de pessoal estão nos planos agora que a empresa se tornou privada, mas não obteve resposta até a publicação.

Para entender melhor o que está por trás dessa operação, e o que ela pode significar para o futuro da EA, conversei com três especialistas de áreas diferentes: finanças corporativas, economia do futebol e a intersecção entre governos e a indústria de games.

Como funciona um leveraged buyout, segundo um especialista financeiro

Mass Effect – Divulgação / EA

Adrian Fernandez-Perez, professor de finanças na Michael Smurfit Graduate Business School, da Universidade de Dublin, explica que esse tipo de operação permite que compradores adquiram empresas grandes sem usar todo o próprio capital — um investimento relativamente pequeno que pode gerar lucro expressivo no futuro, seja através da revenda da empresa, seja pelos lucros que ela venha a gerar.

O problema, segundo ele, é que quem realmente precisa pagar essa dívida é a empresa comprada, não quem fez a aquisição. Isso significa que pagar essa dívida se torna a prioridade número um — e qualquer outro plano, como desenvolvimento de novos jogos ou investimento em pesquisa, tende a ficar em segundo plano até que esse compromisso financeiro seja equacionado.

Os benefícios existem, mas nem sempre são para quem trabalha na empresa

Segundo Fernandez-Perez, há sim benefícios operacionais possíveis nesse tipo de transação — só que voltados à empresa como negócio, não necessariamente aos funcionários. Entre eles estão a possibilidade de tornar a operação mais enxuta, cortando gastos desnecessários (o que pode significar demissões) e eliminando áreas pouco lucrativas para tornar o conjunto da empresa mais rentável.

O comprador também pode trazer conhecimento adicional sobre o setor, ajudando a identificar formas de operar com mais eficiência. Executivos também costumam ter incentivos financeiros atrelados a esse processo, recebendo bônus expressivos caso consigam aumentar a lucratividade da companhia.

O que a EA pode fazer no curto prazo

Dragon Age: The Veilguard – Divulgação / EA

Questionado sobre possíveis caminhos para lidar com a dívida, Fernandez-Perez sugere que o mais lógico seria a empresa se especializar naquilo que já é mais lucrativo, abandonando ou reduzindo projetos mais nichados que gerem menos retorno financeiro, além de cortar despesas com folha de pagamento e gastos considerados desnecessários.

Atualmente, os produtos mais rentáveis da EA são, sem dúvida, seus jogos como serviço. Segundo o mais recente relatório financeiro trimestral da empresa (10-Q), a receita do último trimestre foi de US$ 1,98 bilhão, dos quais US$ 1,47 bilhão vieram justamente desses jogos com monetização contínua. Se a pressão financeira aumentar, é bastante provável que o foco da empresa se volte ainda mais para esse tipo de receita recorrente, em detrimento de jogos solo menores — exatamente o caminho sugerido por Fernandez-Perez.

O paralelo com o futebol: o caso Manchester United

Saindo do universo puramente financeiro dos games, vale olhar para outro setor que também conhece bem os riscos de aquisições alavancadas: o futebol — esporte que, aliás, a própria EA conhece intimamente através de sua franquia esportiva.

Um dos exemplos mais citados quando o assunto é risco financeiro é a compra do Manchester United pela família Glazer, em 2005. Na época, os Glazers tomaram emprestado entre US$ 540 milhões e US$ 550 milhões para adquirir o clube, incluindo empréstimos de alto risco conhecidos como PIK (Payment-in-Kind). Segundo relatos, essa operação acabou custando ao clube cerca de £1,2 bilhão ao longo dos anos.

Os riscos, na visão de um especialista em finanças do futebol

Kieran Maguire, autor do livro The Price of Football e uma referência quando o assunto é economia dos clubes de futebol, destaca que instituições como um clube deveriam representar identidade e senso de comunidade — colocar isso em risco financeiro, como aconteceu no caso do Manchester United, é algo que ele considera problemático, dado o tamanho da dívida envolvida. Segundo ele, os juros dos empréstimos PIK chegaram a 14,25% em determinado momento, um número que já indicava o nível de risco que o próprio mercado enxergava naquela operação.

Felizmente para o Manchester United, o clube conseguiu sobreviver à turbulência financeira gerada por essa aquisição — o que, de certa forma, pode servir de consolo para fãs e funcionários da EA, dado o sucesso financeiro contínuo da empresa. Ainda assim, Maguire reforça que existem custos reais: segundo ele, o sucesso esportivo do time — impulsionado por um técnico excepcional à época — ajudou a compensar boa parte do estrago causado pela dívida, mas mais de £1 bilhão em juros e dividendos saíram do clube desde a aquisição, dinheiro que, em sua opinião, poderia ter sido investido em infraestrutura ou nas operações do próprio clube.

Quando o desfecho não é tão sortudo: o caso Burnley

Nem todo clube tem a mesma sorte do Manchester United. Maguire cita o Burnley Football Club como um exemplo mais recente dos riscos envolvidos. Segundo ele, o clube foi rebaixado recentemente e agora precisa pagar cerca de £10 milhões por ano apenas em juros de empréstimos. Mesmo contando com pagamentos de “paraquedas” financeiros e ativos negociáveis, como o próprio elenco de jogadores, o cenário exige uma avaliação de risco mais ampla.

Maguire menciona ainda um acordo entre Burnley e o Everton, relacionado a violações de regras financeiras da Premier League, que deve render ao Burnley cerca de £35 milhões — um valor praticamente vital para as finanças do clube. O problema é que o Everton está recorrendo dessa decisão, e existe preocupação real de que, caso vença o recurso, o Burnley pode não ter recursos suficientes para devolver esse dinheiro — uma consequência direta, segundo Maguire, do tipo de aquisição alavancada que o clube sofreu no passado.

Por que comprar dessa forma, afinal?

Diante de tantos riscos, cabe perguntar: por que optar por esse modelo de aquisição? Segundo Fernandez-Perez, esse tipo de operação costuma ser feito com o objetivo de revender a empresa no futuro por um valor bem mais alto.

O detalhe é que a Arábia Saudita, historicamente, não tem vendido as empresas de games que vem adquirindo ao longo dos últimos anos — o que sugere motivações que vão além do simples lucro financeiro imediato.

A peça central da estratégia saudita para os games

George Osborn, criador do informativo Video Games Industry e autor do livro Power Play: Video Games, Politics, and the Battle for Global Influence, é especialista na relação entre interesses governamentais e a indústria de games. Segundo ele, a EA deve se tornar a peça central da estratégia saudita para o setor.

Osborn lembra que, em 2022, a Arábia Saudita publicou as metas do seu programa Visão 2030, que incluía um segmento dedicado especificamente à indústria de games e esports — com objetivos como gerar 51 bilhões de riais sauditas (cerca de £10 bilhões) em valor econômico e criar mais de 39 mil empregos.

Na época, essas metas pareciam bastante ambiciosas, mas, segundo Osborn, a aquisição da EA pode acelerar drasticamente esse processo. Ele destaca que aquisições anteriores, como as de Niantic e Scopely, foram relevantes, mas estão em outra escala: a EA teve receita líquida total de aproximadamente US$ 7,5 bilhões no último ano fiscal, e seus jogos alcançam cerca de 700 milhões de pessoas — números que se encaixam perfeitamente nos objetivos sauditas para esports e jogos competitivos.

Uma nova via de influência no mundo esportivo

A aquisição também pode abrir uma nova frente de influência para os investimentos esportivos sauditas. Nos últimos anos, o país investiu pesado em golfe, futebol, futebol americano e outras modalidades, buscando melhorar sua reputação internacional — nem sempre com sucesso. O LIV Golf, por exemplo, tem enfrentado dificuldades reais para conquistar espaço relevante no circuito tradicional de golfe.

Segundo Osborn, a Arábia Saudita estaria perdendo um pouco do entusiasmo com esse tipo de investimento direto em ligas e competições, e a influência que a EA exerce sobre múltiplos esportes através de seus jogos pode ser a solução que faltava. Isso porque a EA mantém relações comerciais com milhares de atletas profissionais, centenas de clubes e dezenas de ligas ao redor do mundo através de franquias populares — o que naturalmente cria um interesse comum de todas essas partes no sucesso desses jogos, explicando por que tantos clubes divulgam seus próprios lançamentos em EA Sports FC, ou por que pilotos de Fórmula 1 participam de desafios de simulação promovidos pela EA.

As conexões com o universo da FIFA

EA Sports FC 27 – Divulgação / EA

Osborn também chama atenção para uma sobreposição curiosa entre os envolvidos no negócio da EA e figuras ligadas a propostas de negócios em torno da própria FIFA. Segundo ele, o JP Morgan, banco que forneceu parte da estrutura de dívida para o negócio da EA, também é responsável por preparar material estratégico para iniciativas comerciais que a presidência da FIFA pretende divulgar. Já Jared Kushner está envolvido na aquisição da EA, enquanto seu irmão, Joshua Kushner, aparece ligado a uma proposta de venda da FIFA para investidores privados.

Com a Arábia Saudita sediando a Copa do Mundo de 2034, Osborn considera especialmente interessante observar se EA Sports FC vai firmar algum tipo de licenciamento oficial com a FIFA nos próximos cinco anos — não necessariamente retomando o antigo nome “FIFA” nos games, já que a EA construiu uma identidade de marca forte por conta própria, mas talvez através de algo como um modo oficial dedicado à Copa do Mundo.

O que vem a seguir: expansão saudita e possíveis cortes geográficos

Outras empresas de games já expandiram sua presença no país após receberem investimentos sauditas relevantes — a Scopely abriu um escritório por lá em 2024, e o grupo de esports ESL Faceit fez o mesmo em 2025. Segundo Osborn, seria bastante estranho se a EA não seguisse esse mesmo caminho, seja abrindo uma base comercial para fortalecer sua presença na região do Oriente Médio e Norte da África, seja através de uma estrutura voltada a esports, já que a Esports World Cup costuma ser realizada justamente em Riade.

Osborn também especula que, caso demissões realmente aconteçam na EA, é bem possível que elas se concentrem em regiões mais caras, como os Estados Unidos, especialmente em áreas onde o foco futuro da empresa deve ser menor. Segundo ele, contratar desenvolvedores na Arábia Saudita custa consideravelmente menos do que nos EUA, e o país já conta com uma base relevante de profissionais formados em ciência da computação — o que poderia abrir espaço para o surgimento de um novo polo de desenvolvimento saudita dentro da estrutura da empresa.

Águas turvas para a EA

Diante de tudo isso, fica claro que a EA está entrando em um período bastante incerto. Dada a popularidade de seus principais jogos, é bem provável que a empresa consiga suportar o peso financeiro trazido por essa aquisição alavancada.

A grande dúvida é justamente quanto da estrutura atual da empresa vai permanecer intacta, e quanto será realocado para outras partes do mundo ou simplesmente cortado. Some-se a isso outra questão relevante, que vai além das finanças: o possível impacto dessa mudança de controle sobre a abordagem política e temática dos jogos da EA — incluindo histórias, desenvolvedores e fãs ligados à comunidade LGBT+. Diante de tantas incertezas, parece pouco provável que a EA que conhecemos hoje seja exatamente a mesma empresa daqui a alguns anos.

COMPARTILHE Facebook Twitter WhatsApp

Leia Também


ASSINE A NEWSLETTER

Aproveite para ter acesso ao conteúdo da revista e muito mais.

ASSINAR AGORA