Os trabalhadores que assinaram as fases subaquáticas de Black Flag Resynced protestam contra cortes que atingem quase um terço do estúdio. A empresa afirma que ainda se trata de uma proposta.
Funcionários da Ubisoft Barcelona cruzaram os braços em protesto contra a proposta de demitir 51 pessoas do estúdio. A paralisação é organizada pela Coordinadora Sindical del Videojuego (CSVI) e acontece justamente durante as negociações sobre os cortes. O número não é pequeno: representa perto de um terço do quadro da unidade espanhola.
A ironia por trás dos cortes
O momento escolhido pesa. O estúdio de Barcelona acabou de encerrar seu trabalho em Assassin’s Creed Black Flag Resynced, jogo que a própria Ubisoft comemorou ter vendido 2 milhões de cópias logo no primeiro dia.
Segundo Manel Cota, animador técnico e de jogabilidade da equipe, foi justamente esse time que construiu todas as fases subaquáticas do jogo.
E essa mesma equipe está sendo demitida agora, porque a Ubisoft acha que é isso que a gente merece. (tradução livre)
O sindicato reforça o contraste. Em nota, a CSVI afirma que, apesar do sucesso comercial do jogo, 51 pessoas perderão o emprego nas próximas semanas, e que a empresa alega uma mudança estratégica para justificar a decisão após um ciclo intenso de produção. A entidade descreve o sentimento de quem nunca verá o fruto do próprio trabalho.
O que a Ubisoft responde
Procurada, a empresa afirmou estar ciente da paralisação e disse respeitar o direito dos funcionários de se manifestarem. Um porta-voz explicou que a reestruturação faz parte de um esforço mais amplo de redução de custos e de concentração de recursos em prioridades estratégicas.
Pela proposta, o estúdio passaria a trabalhar exclusivamente em projetos da franquia Rainbow Six, o que poderia afetar até 51 pessoas. A companhia fez questão de frisar que a medida ainda é uma proposta e que nenhuma decisão final será tomada antes do encerramento do processo de consulta coletiva. Também afirmou estar comprometida com o diálogo e com o apoio aos funcionários durante o período.
As reivindicações dos trabalhadores
A pauta da greve tem quatro eixos. O primeiro e mais importante é o cancelamento das 51 demissões propostas. Em seguida, os trabalhadores pedem garantias mais firmes de estabilidade, com um compromisso de blindagem contra novas demissões coletivas por pelo menos cinco anos.
Há também demandas ligadas ao cotidiano. O grupo quer o retorno da política anterior de trabalho remoto, que permitia até 60% da jornada fora do escritório e foi substituída por um regime presencial integral no início do ano. Por fim, cobram o cumprimento de promoções internas e reajustes salariais que, segundo eles, haviam sido prometidos e depois congelados.
Um problema maior que Barcelona
Os cortes não surgiram do nada. Ainda em junho, a Ubisoft anunciou o fechamento dos estúdios de Winnipeg e Belgrado, além da reorganização da unidade catalã. No total, até 380 pessoas poderiam ser afetadas pelo pacote.
O pano de fundo financeiro ajuda a entender. No balanço divulgado em maio, referente ao ano fiscal encerrado em março, a empresa reportou prejuízo na casa de 1,3 bilhão de euros, com queda de 17,4% nas reservas líquidas. Valores em reais variam conforme o câmbio do dia. Não é um cenário confortável para ninguém.
O custo humano da reestruturação
Aqui é preciso separar as duas leituras, porque ambas têm fundamento. Do ponto de vista corporativo, a Ubisoft atravessa a pior crise de sua história recente e argumenta que concentrar esforços em franquias lucrativas é a única rota de sobrevivência. Empresas em prejuízo bilionário, de fato, costumam cortar.
Do outro lado está o custo humano, e ele não é abstrato. São 51 profissionais, com famílias e contas, entregando um jogo bem-sucedido e recebendo a demissão como recompensa. Em um mercado que vive a maior onda de cortes de sua história, recolocação não é simples. Esse desalinhamento entre o sucesso do produto e o destino de quem o construiu é exatamente o que move a mobilização sindical.
Vale registrar, com honestidade, que nada está decidido. A empresa insiste que o processo de consulta segue aberto, e a legislação espanhola prevê negociação coletiva antes de qualquer desligamento. O resultado dependerá dessa mesa.
A paralisação segue durante o período de negociação. Não há definição sobre o desfecho, e ambos os lados sinalizam disposição para conversar. Para as 51 pessoas envolvidas, porém, cada dia de indefinição pesa. É o tipo de história que os números de vendas nunca contam.






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