Homem-Aranha: Um Novo Dia resolveu problema da Marvel com vilões

Andre Luiz

Nem todo vilão precisa surgir da galeria clássica do herói para funcionar. É esse o argumento que Homem-Aranha: Um Novo Dia sustenta com a escalação de Sadie Sink como Jean Grey.

A personagem chegou tarde ao roteiro, segundo revelaram os roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers em entrevista ao site The Wrap. Eles já tinham a ideia de controle mental e a metamorfose de Peter Parker desenhadas, mas faltava alguém para carregar aquele arco. Foi só quando Jean entrou na equação que as peças se encaixaram.

A fórmula do “vilão espelho” que a Marvel repete desde 2008

Desde Homem de Ferro, o MCU adotou um padrão recorrente: o antagonista quase sempre reflete o próprio herói. Tony Stark enfrentou outro industrial fardado de armadura. O Hulk trocou socos com outros monstros radioativos. O Capitão América passou a vida combatendo supersoldados e ideologias fascistas nascidas na mesma guerra que o formou. Thor, por sua vez, colecionou deuses e assassinos de deuses como rivais.

A lógica por trás dessa escolha é compreensível: transformar o vilão em comentário visual do que o próprio herói poderia ter se tornado.

O problema é que esse modelo raramente exige aprofundamento desses antagonistas como personagens à parte. Quanto mais próximo do herói, mais relevante o vilão parecia, e o resto virava plateia. Performances marcantes salvaram alguns nomes, caso de Loki nas mãos de Tom Hiddleston.

Roteiros bem construídos elevaram outros, como o Killmonger de Pantera Negra. Ainda assim, foram exceções raras. Não à toa, Thanos se tornou o grande destaque da Saga do Infinito justamente por quebrar esse padrão: ele virou protagonista da própria história.

Uma tentativa recente que não deu certo

A Marvel já vinha tentando escapar dessa armadilha. Capitão América: Admirável Mundo Novo colocou Sam Wilson contra um Hulk literal, um confronto propositalmente desequilibrado para fugir da fórmula. A ideia era interessante, ainda mais ao recorrer a um vilão vindo de outro canto do MCU, o Hulk Vermelho de Harrison Ford.

Hulk Vermelho
Thaddeus “Thunderbolt” Ross transformado no Hulk Vermelho – Marvel Studios

Só que o roteiro não sustentou essa ambição: as peças nunca se encaixaram de forma coesa, e mesmo um ator do calibre de Ford não conseguiu tornar o confronto memorável por si só. No fim, o terceiro ato virou uma briga tradicional, com direito à destruição da Casa Branca, mas pouco impacto emocional além disso. Isso apesar de as expectativas iniciais para o projeto serem bem altas.

Por que Jean Grey funciona onde o Hulk Vermelho falhou

Um Novo Dia segue a mesma lógica de buscar um vilão fora da galeria tradicional do herói, mas com uma execução muito mais sofisticada. Jean e Peter nunca tiveram proximidade real nos quadrinhos ou nas telas até este filme. Isso tornou a escolha estranha para parte do público, que reclamou de um filme do Aranha sem vilão do Aranha.

O detalhe que essa crítica ignora, porém, é que a conexão entre os dois não está nos poderes, e sim no tema: ambos lidam com perda de conexão emocional. É justamente esse paralelo que sustenta a cena final do filme, quando os dois finalmente se encontram de verdade.

Tínhamos o controle mental e essa história sobre a metamorfose do Peter que adorávamos. O controle mental estava funcionando bem, mas não tínhamos o personagem certo para aquela história. Foi a Jean que realmente destravou tudo. Ela era a peça que faltava, a peça que o filme precisava desesperadamente. Assim que a conseguimos, tudo começou a se encaixar.

Uma lição para o futuro do MCU

Não é preciso recorrer à galeria clássica de um herói para construir um antagonista de peso. Basta olhar para a jornada do protagonista e construir, a partir dali, uma ameaça cujos temas conversem com aquela história. Onde Admirável Mundo Novo colidiu bonecos de ação, Um Novo Dia colocou duas pessoas desconectadas em rota de encontro genuíno.

O resultado ajuda a explicar o carinho do público pelo filme, que já soma 98% de aprovação no Rotten Tomatoes. Resta saber se a Marvel vai aprender essa lição para o restante da Saga do Multiverso. Se aprender, talvez a tão falada fadiga de super-heróis realmente comece a ficar para trás.

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