Criado em 1902 no jornal Chicago Tribune, o forçudo bonachão antecipou o gênero em 36 anos. Conheça a história do herói esquecido que ressurgiu em obras recentes.
Muito antes de Superman, Batman ou Homem-Aranha, um cavalheiro de chapéu já erguia elefantes nas páginas dos jornais americanos. Estamos falando de Hugo Hercules, personagem apontado por historiadores como o primeiro super-herói dos quadrinhos e, potencialmente, de toda a ficção. A tira surgiu em 1902, décadas antes de a palavra super-herói sequer existir, e virou objeto de redescoberta entre fãs e pesquisadores nos últimos anos.
Quando e onde ele nasceu

Hugo estreou em 7 de setembro de 1902, no suplemento dominical do jornal Chicago Tribune. A tira semanal foi escrita e desenhada por Wilhelm Heinrich Detlev Körner, imigrante alemão criado no estado de Iowa que trabalhava como ilustrador do diário.
A trajetória, contudo, foi curta. Foram apenas 17 tiras publicadas, com a última saindo em 11 de janeiro de 1903. Apesar da vida breve, o personagem plantou uma semente que mudaria a cultura pop para sempre.
A premissa: força absurda, problemas banais

A fórmula de Hugo era o oposto do que conhecemos hoje. Nada de uniforme, identidade secreta, história de origem ou vilões apocalípticos. O protagonista era um sujeito bonachão e educado, dotado de força sobre-humana, que perambulava pela cidade ajudando pessoas comuns em apuros do dia a dia. Entre seus feitos, ele ergueu um elefante e chutou uma casa como se fosse uma bola de futebol.
O herói também usou um canhão como pistola e levantou uma locomotiva dos trilhos. Depois de cada proeza, soltava seu bordão característico, o despretensioso Just as easy, algo como assim, bem facinho. Curiosamente, uma das tiras trouxe até um crossover. Nela, Hugo salvou personagens de outra tira do Tribune de um incêndio, antecipando um recurso que viraria marca registrada do gênero.
Por que ele é considerado o primeiro
O debate é saboroso entre os pesquisadores. Alguns preferem o termo proto-herói, já que Hugo não tinha os elementos visuais clássicos, como capa e uniforme. Entretanto, a essência já estava toda lá: um homem com superpoderes usando suas habilidades para o bem, sem pedir nada em troca.
Outros personagens surgiram depois, como o Fantasma, o Sombra e o Besouro Verde. Mas eles não tinham super poderes, sendo vigilantes que usam atributos humanos para combater o crime. Logo, o termo “super” não necessariamente se aplica.
A fórmula só seria consagrada em 1938, quando Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o Superman na Action Comics. Uma ironia do destino marca essa linha do tempo: Wilhelm Heinrich Detlev Körner faleceu justamente em 1938, o ano em que o gênero que ele antecipou finalmente explodiu.
O criador que trocou os heróis pelo Velho Oeste
Körner abandonou a tira após cinco meses, sem enxergar potencial no conceito. Em seguida, deixou os quadrinhos para estudar belas-artes com o lendário ilustrador Howard Pyle.
A aposta deu certo. O artista se tornou um dos maiores pintores do Velho Oeste americano, com trabalhos célebres para a revista The Saturday Evening Post. Suas telas alcançaram tamanho prestígio que algumas chegaram a decorar a Casa Branca.
As obras mais recentes do personagem

Em domínio público, Hugo ganhou uma segunda vida. Sua aparição moderna de maior destaque aconteceu nas páginas de A Liga Extraordinária (The League of Extraordinary Gentlemen), de Alan Moore e Kevin O’Neill. A célebre série resgatou o forçudo na reta final da saga.
Além disso, as 17 tiras originais foram digitalizadas e circulam livremente em acervos online, enquanto sites especializados revisitam sua história com frequência. Assim como a Sociedade da Justiça abriu caminho para as equipes de heróis, Hugo abriu a porta para o gênero inteiro. Nada mal para um sujeito que resolvia tudo assim, bem facinho.





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