Falta Muito Para Ser ‘Avatar’! Os Maiores Defeitos da Nova Temporada de ‘Avatar’ da Netflix!

Luiz Gustavo Gonçalves

Depois de muitos elogios à nova temporada de ‘Avatar: O Último Mestre do Ar’, chegou a hora de falar sobre os maiores problemas da adaptação da Netflix. Apesar de cenas visualmente impressionantes, boas atuações e momentos emocionantes, algumas escolhas de direção, roteiro e fotografia acabam comprometendo justamente aquilo que tornou a animação original um clássico.

O problema é que muitos desses defeitos não são exclusivos de ‘Avatar’. Eles fazem parte de uma tendência crescente nas produções modernas, principalmente aquelas pensadas para viralizar nas redes sociais. E isso acaba afetando desde a composição das cenas até a forma como a história é contada.

A direção moderna está deixando as séries visualmente mais pobres

Existe uma tendência muito forte nas produções atuais de desfocar completamente o cenário para destacar apenas o personagem principal. A intenção parece boa: chamar a atenção do público para quem está falando. Mas, na prática, isso acaba sacrificando um dos elementos mais importantes de qualquer obra audiovisual: a ambientação.

‘Avatar’ sempre foi uma série em que o mundo é praticamente um personagem. Cada floresta, templo, montanha ou cidade ajuda a contar a história. Só que, quando tudo atrás dos atores vira um borrão, o espectador simplesmente deixa de perceber boa parte desse trabalho. É quase como investir milhões em cenários, efeitos especiais e direção de arte para depois esconder tudo com um filtro de câmera.

Divulgação – Netflix

Outro problema é a obsessão por manter os personagens sempre centralizados na tela. Essa escolha facilita cortar pequenos trechos para TikTok, Instagram e Shorts, mas empobrece demais a linguagem cinematográfica. Uma boa composição muitas vezes coloca o personagem no canto da tela para transmitir solidão, medo ou inferioridade diante do ambiente. Quando tudo vira um “close bonito”, perde-se grande parte da narrativa visual.

Um exemplo claro aparece na cena entre Sokka e Suki. Os dois têm uma química excelente, talvez uma das melhores da temporada. Mas, na hora em que seguram as mãos olhando para o mar, a fotografia lembra mais um comercial de perfume do que um momento íntimo entre dois personagens. O cenário praticamente desaparece, o fundo fica totalmente escuro e desfocado e toda a magia da paisagem some.

Curiosamente, essa crítica também apareceu recentemente em relação ao live-action de ‘Moana’. Cada vez mais produções parecem depender de fundo verde e cenários digitais, deixando de aproveitar locações naturais. É uma tendência que pode acabar envelhecendo muito rápido.

Divulgação – Netflix

Erros de continuidade e mudanças que quebram toda a lógica de ‘Avatar’

Além da direção de fotografia, a série também apresenta erros técnicos bastante estranhos. Na batalha do começo da temporada, por exemplo, é possível perceber figurantes caindo sem sequer serem atingidos durante a coreografia. Em outro momento, um soldado leva uma bola de fogo nas costas. Logo depois, sua roupa aparece completamente intacta. Alguns segundos mais tarde, a roupa surge rasgada e queimada, como se o fogo tivesse resolvido agir minutos depois.

São detalhes que podem parecer pequenos, mas acabam passando a sensação de descuido. Ainda mais em uma produção desse tamanho e orçamento.

Outro problema aparece na forma como a série trata as dobras, principalmente a dobra de fogo. Em ‘Avatar’, as técnicas nunca foram apenas poderes mágicos. Elas são baseadas em artes marciais reais e dependem de movimentos específicos para canalizar energia.

Por isso causa estranheza quando Azula simplesmente dispara raios praticamente sem preparação nenhuma. No desenho original, até o Senhor do Fogo precisava canalizar energia antes de utilizar essa técnica durante o Cometa de Sozin. Retirar esse processo tira boa parte da profundidade cultural construída ao longo da franquia.

Esse tipo de simplificação lembra outras adaptações que sofreram por ignorar a essência da obra original, como ‘Death Note’ da Netflix ou ‘Dragon Ball Evolution’. Não basta copiar personagens famosos; tem que entender a filosofia que existe por trás daquele universo.

A série corre demais e perde justamente aquilo que faz ‘Avatar’ ser especial

Talvez o maior problema da nova temporada seja seu ritmo acelerado. A sensação é de que o live-action funciona como um grande resumo da animação, cortando justamente as pequenas histórias que enriqueciam aquele mundo.

No desenho, a jornada até Omashu, por exemplo, é tão importante quanto a chegada ao reino. No live-action, Aang simplesmente voa até lá, quase como se tivesse usado um sistema de fast travel de videogame. A aventura deixa de existir, e com ela desaparece boa parte da construção emocional da história.

O mesmo acontece com o Rei Bumi. Na animação, ele aparece preso de maneira extremamente pesada, reforçando o preço que pagou por sua decisão durante a guerra. Já na série, ele praticamente cumpre uma prisão domiciliar confortável, cercado de frutas e comodidades. A consequência emocional da escolha simplesmente perde força.

Reprodução – Nickelodeon

Outra possível vítima dessas mudanças é a história da Dama Pintada. No desenho, ela representa o sofrimento da própria Nação do Fogo, mostrando que nem mesmo o lado vencedor da guerra está livre das consequências da destruição ambiental causada pelo conflito. Ao alterar sua localização e reorganizar esses acontecimentos, o live-action corre o risco de eliminar uma das mensagens mais importantes da obra.

Até mesmo Zuko sofre alterações questionáveis. No segundo episódio, ele rouba comida de uma mulher grávida em plena guerra. O problema não é mostrar um personagem imperfeito, mas sim exagerar tanto suas atitudes que isso acaba dificultando sua futura redenção, um dos pilares mais importantes de toda a sua jornada.

Apesar dos defeitos, ainda existem momentos que mostram o potencial da série

Nem tudo é motivo de crítica. A temporada também entrega cenas que conseguem capturar parte da magia de ‘Avatar’.

Uma delas é a sequência do Caminho da Serpente, quando Aang e Katara utilizam suas dobras em conjunto para enfrentar a criatura marinha. A cena consegue transmitir aquela sensação de espetáculo que sempre marcou a franquia, principalmente pela forma como os elementos interagem durante o combate.

Também chama atenção o cuidado em desenvolver alguns personagens. Katara demonstra uma evolução clara de poder, enquanto Aang enfrenta seus próprios medos ao precisar usar suas habilidades para curar alguém. Ao mesmo tempo, Sokka continua lidando com os traumas deixados pelos acontecimentos do Norte, enquanto Zuko segue avançando lentamente em seu processo de transformação.

Esses momentos mostram que o potencial da adaptação continua existindo. O problema é que ele frequentemente fica escondido atrás de decisões questionáveis de direção, fotografia e roteiro. Se a Netflix conseguir corrigir esses pontos nas próximas temporadas, o live-action ainda pode se aproximar muito mais da grandiosidade da animação original. Hoje, porém, a sensação é que ‘Avatar’ continua sendo uma boa série… mas ainda está longe de alcançar a riqueza narrativa e visual que fez do desenho um dos maiores clássicos da história da animação.

VEJA MAIS Anime Avatar Netflix otaku
COMPARTILHE Facebook Twitter WhatsApp

Leia Também


ASSINE A NEWSLETTER

Aproveite para ter acesso ao conteúdo da revista e muito mais.

ASSINAR AGORA