Ex-chefe da PlayStation critica recuo da Sony no PC

Vinicius Miranda

Shawn Layden, criador da estratégia de levar exclusivos ao PC, diz que abandonar o plano é um erro. Segundo ele, os ports nunca custaram uma única venda de console.

Nos últimos anos, antigos exclusivos de PlayStation 4 e PlayStation 5, como “God of War”, “The Last of Us”, “Marvel’s Spider-Man” e “Ghost of Tsushima”, chegaram ao PC. Contudo, uma recente mudança de estratégia da Sony promete encerrar essa era. Agora, o ex-presidente da companhia, Shawn Layden, veio a público criticar duramente a decisão. Para ele, recuar dos ports para PC é um erro, já que a prática nunca teria prejudicado a marca nem as vendas de hardware. As declarações reacenderam o debate sobre o futuro dos grandes jogos single-player da empresa.

O que mudou na estratégia da PlayStation

Para entender a polêmica, é preciso conhecer o contexto. A mudança foi confirmada oficialmente na semana passada pelo atual presidente da Sony Interactive Entertainment, Hideaki Nishino. De acordo com a nova diretriz, apenas jogos multiplayer e de serviço ao vivo, os chamados live-service, serão portados para o PC a partir de agora.

Na prática, isso significa que grandes aventuras narrativas devem permanecer exclusivas do console por muito mais tempo. Foi justamente essa reversão que motivou as críticas de Layden, o executivo que idealizou a antiga estratégia durante seu tempo na empresa.

A verdadeira razão por trás dos ports

Segundo Layden, o objetivo original nunca foi diretamente o lucro. Na visão dele, levar os jogos ao PC funcionava como uma poderosa ferramenta de marketing para as propriedades intelectuais da PlayStation. Em entrevista ao canal PSI, o executivo detalhou seu raciocínio.

Como eu coloco minha propriedade intelectual diante de pessoas que normalmente não a veriam? Existem cerca de 250 milhões de lares com consoles no mundo. Mas há 8 bilhões de pessoas no planeta. Existem outros bilhões jogando em PC ou celular. Como eu chego até elas?

Portanto, a meta era ampliar o alcance dos personagens e histórias da marca. Essa exposição se tornou ainda mais importante conforme a empresa passou a expandir suas franquias para outras mídias, como cinema e televisão.

Você precisa ter o máximo de olhos cientes deste personagem e desta história. Assim, quando forem comprar um ingresso de cinema ou ligar a TV, vão pensar: eu conheço esse cara, gosto dele, quero ver o que acontece com ele.

Diante do forte sucesso da série de TV de “The Last of Us”, há poucas dúvidas de que a estratégia funcionou, ao menos em parte.

Os ports para PC prejudicaram as vendas?

Este é o coração da discussão. Layden rebate com veemência a ideia de que as versões de PC teriam canibalizado as vendas de consoles. Para ele, o público que aguardava os ports era um grupo completamente diferente.

Se alguém está esperando 18 meses por um jogo chegar ao PC, não perdemos uma venda para essa pessoa. Ela não ia comprar o console de qualquer forma. Você está apenas monetizando alguém que estava fora do seu ecossistema.

Ou seja, na visão do ex-executivo, os lançamentos escalonados protegiam o negócio principal enquanto geravam receita de uma audiência que jamais compraria um videogame só por um título específico. Vale lembrar que essa mesma opinião foi compartilhada por outro veterano da empresa, Shuhei Yoshida, no início do ano.

A importância da exclusividade

Marvel’s Wolverine – Divulgação / Insomniac Games

Apesar de defender os ports escalonados, Layden também reconhece o valor dos jogos exclusivos. Para ele, eles são um elemento essencial de um negócio de plataforma. Afinal, é isso que diferencia um console dos concorrentes.

Se você quer aquela experiência, precisa comprar esta caixa. E foi isso que impulsionou as vendas de hardware, que moveram o ecossistema inteiro.

Contudo, o executivo alerta para os perigos de um lançamento simultâneo em console e PC. Segundo ele, essa abordagem removeria a identidade única de um sistema, o que levaria a problemas sérios.

Se você disponibiliza tudo em todo lugar, você se torna uma commodity. E quando isso acontece, você compete apenas por preço. É uma corrida rumo ao fundo do poço.

A sombra da estratégia do Xbox

Essa fala remete imediatamente à estratégia adotada pela concorrente, resumida no lema de que “tudo é um Xbox”. Com todos os exclusivos também chegando ao PC no dia do lançamento, muitos apontam que faltaram motivos para adquirir o console da Microsoft por um bom tempo.

Ao que tudo indica, a Microsoft tenta reverter esse quadro com uma volta às exclusividades, começando por “Gears of War: E-Day”. No entanto, para alguns analistas, essa mudança pode chegar tarde demais para recuperar o terreno perdido.

God of War Laufey – Divulgação / Santa Monica Studio

Analisando o cenário, a PlayStation parece consciente dos riscos envolvidos. A empresa quer garantir que, para jogar títulos como os aguardados “Marvel’s Wolverine” e “God of War: Laufey“, os jogadores não tenham outra escolha a não ser comprar um console. O hardware, afinal, continua sendo o coração do negócio.

Por outro lado, essa aposta acontece em um momento delicado. Os aumentos expressivos no preço dos aparelhos vêm colocando o modelo clássico de console em xeque. Consequentemente, a empresa caminha sobre uma linha tênue entre proteger sua identidade e afastar consumidores com valores elevados.

Para os fãs, a notícia gera sentimentos mistos. Quem joga no PC pode se frustrar com a perda de acesso a grandes aventuras. Já os donos de console ganham mais exclusividade, um dos maiores atrativos da marca.

E você, concorda com Shawn Layden ou acha que a exclusividade total é o melhor caminho? Deixe sua opinião nos comentários!

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